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Gal
Costa, que junto com Caetano, Gilberto Gil
e Maria Bethânia integrava os Doces Bárbaros |
Hugo Sukman
Fragmento pouco lembrado do discurso de Caetano Veloso ante às vaias a “É
proibido proibir”, no Festival Internacional da Canção de 1968, dá
dimensão da ambição tropicalista: “Viemos aqui acabar com toda a
imbecilidade que existe no Brasil!”.
Oito anos depois, o núcleo de cantores tropicalistas — Caetano, Gilberto
Gil e Gal Costa — acrescido de Maria Bethânia, refratária a grupos mas não
a batalhas estéticas, reúne-se sob a capa de uma banda de rock, os Doces
Bárbaros, e reforça seus laços com um projeto artístico de dimensões
totalizantes. “Com amor no coração/Preparamos a invasão/Cheios de
felicidade/Entramos na cidade amada”, anuncia Caetano no novo manifesto do
projeto, “Os mais Doces Bárbaros”.
Quase 30 anos depois, “Os Doces Bárbaros”, filme de Jom Tob Azulay sobre a
conturbada (pela prisão de Gil por porte de maconha) turnê do show que
virou LP duplo, volta aos cinemas amanhã, restaurado.
Distante no tempo e conhecendo-se as conseqüências do projeto tropicalista
— a consolidação de uma indústria cultural brasileirinha pelo sotaque mas
de língua internacional (como diria Gil na “Refavela”) — é interessante
testemunhar a seriedade de propósitos do quarteto em mudar não só a música
brasileira mas a maneira brasileira de se ouvir música (e de se ver o país
e sua cultura, a ambição não é pequena).
Logo na primeira música do filme, “São João, Xangô menino” (Gil e
Caetano), toda a ambição se evidencia. Trata-se de um baião com sólidas
referências ao mais representativo gênero de uma música rural brasileira
(“Olha pro céu meu amor/Veja como ele está lindo”, citam literalmente
versos do clássico de Luiz Gonzaga). Mas que é tratado como rock: a
harmonia simplificada a acordes essenciais, repetitivos, executados com
punch nervoso, dando a sensação de se estar suspenso no ar.
Repertório vai do samba-canção ao xote-reggae
“Chuck Berry fields forever” (Gil) evidencia ainda mais isso: “Rock é o
nosso tempo” exclamam letra e música, que fazem trocadilho com o nome do
fundador do rock e verso e melodia dos mais famosos de seus continuadores,
os Beatles.
O verso “Rock é o nosso tempo” é repetido no filme por Gil ao defender o
direito de um adulto de 34 anos à privacidade de fumar o que quiser. E por
Caetano, à guisa de resumir seu projeto, dizendo que tudo que façam, ele e
seus companheiros e sua geração, “é rock”.
“É rock” quando cantam o samba-canção de Herivelto Martins “Atiraste uma
pedra”, ou o clássico hippie de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos “Fé
cega, faca amolada”. Ou a limpidez anti-rock de Gal em “Quando”. Ou o
xote-reggae “Peixe”. Ou o Gil da canção especulativa “Esotérico”. E
Bethânia na messiânica “Um índio”. E nos pontos de candomblé...
Com a globalizada cultura pop-antropofágica (“o rock”) solidamente
implantada no Brasil, o projeto tropicalista tornou-se de certa forma
hegemônico. Conceitual e musicalmente, “Os Doces Bárbaros” é momento
fundamental desse processo. Ali, em discurso tão direto quanto o de 68,
mas em forma de música, Caetano defendia: “Alto astral, altas transas,
lindas canções (...)/Nossos planos são muito bons”. Planos ainda
polêmicos, a cada vez que um dos quatro se manifesta.
(©
O Globo)
Documento importante, mas que envelheceu mal
Eros Ramos de Almeida
Não se discute a importância artística e histórica do registro da polêmica
turnê nacional que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal
Costa, em 1976, entremeada de entrevistas, muitas delas censuradas pelo
regime militar, e cenas de bastidores.
Na época, 29 anos atrás, o documentário dirigido por Jom Tob Azulay tinha
méritos inquestionáveis, como filmar um espetáculo ao vivo — se já era raro
disco gravado ao vivo no Brasil, imagine um show. Mas hoje, ainda que com os
apêndices outrora banidos pela censura — como o depoimento do delegado que
prendeu Gil e o baterista da banda, Francisco Azevedo, o Chiquinho, por
porte de maconha durante a permanência do quarteto em Florianópolis, e o
discurso metalingüístico do atual ministro da Cultura questionando a prisão
— o relançamento de “Os Doces Bárbaros”, em cópia remasterizada, exala mofo.
Os bastidores da turnê, que tanta polêmica e discussão suscitavam na época,
hoje já não falam por eles próprios. É preciso leitura prévia para situar
“Os Doces Bárbaros” no contexto histórico brasileiro, embora seja o registro
de uma turnê musical. Neste sentido, o documentário envelheceu mal.
Na época, foram duras as críticas em torno da reunião dos quatro — dois
deles, Caetano e Gil, presos e exilados em 1969 — num espetáculo de tom
escapista na contramão da resistência da MPB ao regime militar.
Montagem lenta prejudicaos números musicais
Longe de uma montagem mais célere — a velocidade na edição de imagens dita o
rumo do registro audiovisual — o filme mostra números musicais que ao vivo,
incandescentes, têm um peso; gravados, frios, outro. O roteiro musical, não
muito extenso, reúne canções como “Atiraste uma pedra”, “Pássaro proibido”,
“Esotérico” e “Os mais doces bárbaros”. O que antes era mono tornou-se Dolby
Digital, melhorando sensivelmente a qualidade do som.
É interessante notar o corpo de sílfide da hoje matrona Gal Costa e como o
tempo fez bem a Caetano Veloso e Gilberto Gil, então cabeludos
hippies-tropicalistas. Quanto a Bethânia, Azulay registra uma entrevista em
que ela revela uma agressividade verbal e fisionômica que assusta. Nada
doce, muito bárbaro.
“Os Doces Bárbaros” vale como registro para colecionadores e aficionados. Ou
seja, um relançamento que se bastaria em DVD.
(©
O Globo)
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