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Silvério Pessoa |
O estilo tradicional do Nordeste é
emblemático do Brasil profundo
Véronique Mortaigne
Em Paris
O forró nordestino desembarca na
França, neste Ano do Brasil que alimenta a programação de uma boa quantidade
de festivais de verão. Rio Loco! abre as festividades em Toulouse (sudoeste) com um Baile Forró. O forró é, sobretudo, uma
questão de instrumentos, um trio: o acordeão (originário de Portugal), o
triângulo e o tambor.
Primo da poesia dos repentistas,
esses cantores de nênias que percorrem o Nordeste para improvisar versos,
acompanhando o seu canto com uma viola --tipo de violão com cordas
metálicas--, o forró é uma crítica social além de ser uma música de baile,
com as suas ironias amorosas, as suas letras safadas e os seus gestos
sugestivos.
A etimologia de "forró" chega a ser
atribuída com freqüência a um anglicismo: a palavra seria derivada da
expressão "música for all". Mas esta interpretação é contestada
--tratar-se-ia na verdade de uma onomatopéia que se refere a uma rítmica em
forma de tapete "forrobodó"--, o que é emblemático da ingenuidade lúcida dos
nordestinos.
O sertão, como são chamadas as terras
secas do interior, engloba sete dos 26 Estados da República Federativa do
Brasil. O Nordeste forneceu a mão-de-obra necessária para a construção das
megalópoles do Sul e da capital, Brasília, assim como para a expansão
industrial do país --o melhor exemplo disso na atualidade é o do presidente
Luiz Inácio da Silva, o Lula, que partira em caminhão de teto de lona, do
seu Pernambuco natal, por causa de fome e de seca crônica.
Assim, desde o seu surgimento no
século 19, o forró disseminou-se graças aos "baianos" (nome genérico
empregado principalmente no triângulo da siderurgia do ABC, na periferia de
São Paulo, onde Lula foi sindicalista, para designar os nordestinos, mesmo
que alguns deles sejam oriundos do extremo norte do Piauí, a cerca de 2.000
quilômetros de Salvador). Os caminhoneiros nordestinos também levaram o
forró para o coração da Amazônia.
No Nordeste, a tradição portuguesa
das festas da Santo Antônio ou da São João ocorre durante o inverno
brasileiro, de maio a agosto, com um pico no dia do solstício de inverno, em
23 de junho, o que coincide com a safra do milho, que é torrado em
abundância.
Isso porque, embora o sertão seja
carente de água e embora o sol queime a sua terra, deixando-a gretada, ele é
estriado por vales férteis. Além disso, entre a costa, uma área úmida
propícia para a cultura da cana de açúcar, e o sertão árido, existe uma
terra propícia para a pecuária e as plantações de inhame ou de milho: o
agreste, com as suas colinas e seus surtos de verde episódicos.
É no agreste que, em junho, alegres
fogueiras são acesas. Os camponeses fantasiam-se de ... camponeses (camisa
xadrez, chapéu de palha, calças curtas demais) e encenam um casamento
"matuto", no qual o padre e o noivo às vezes tomam uma "surra" da sogra.
Formando grupos, todos dançam a
quadrilha, uma forma evolutiva da contradança praticada na França no século
17. As ordens são dadas num francês aproximado: "an ariê, an avan" (para
frente e para trás).
O Nordeste é uma espécie de Occitanie
à brasileira --o eixo histórico da Occitanie tem por origem a Galícia, onde
moravam os trovadores do país d'oc, que surgiram no século 13, até se
espalhar pelo sudoeste da França.
O Nordeste é também um "país", com os
seus particularismos e suas vontades de autonomia. Em certos momentos da
história ele chegou a sonhar tornar-se um Estado nação independente,
inserido dentro de um vasto conjunto brasileiro, dotado de uma moeda única
--o antigo cruzeiro transformado em cruzado e depois no real, em 1994, o
qual coincidiu com o fim dos surtos inflacionários-- e uma língua
unificadora, o português.
Essa, contudo, é falada de maneira
singular, engolindo alguns "r" que, no entanto, são bastante acentuados e
apagando os pronomes pessoais, o que transforma o português do Nordeste numa
língua repleta de particularismos.
"Se o Nordeste fosse independente",
cantava, nos anos 80, Elba Ramalho, a musa da canção moderna oriunda do
Nordeste. Pois então, na opinião de todos, este país teria um hino: "Asa
Branca" (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira)
"Que braseiro, que fornalha / Nem um
pé de plantação / Por falta d água / Perdi meu gado / Morreu de sede meu
alazão / Até mesmo o asa branca / Bateu asas do sertão / Então eu disse
adeus Rosinha / Guarda contigo meu coração..."
Estes cinco versos de uma
simplicidade bíblica desta música publicada em 1947, resumem até a perfeição
o destino deste Nordeste profundo.
"Asa Branca" é uma música ritmada e
de aparência alegre. Ela foi composta por Humberto Teixeira, que se tornaria
deputado, e por Luis Gonzaga. Um acordeonista inventivo, um cantor de voz
singular, ao mesmo tempo cavernosa e ardente, Luiz Gonzaga foi uma enorme
estrela da música brasileira.
Nascido em 1912 em Exu, uma pequena
cidade isolada do Estado do Ceará, ele morreu no Recife em 2 de agosto de
1989. Assim que foi anunciada a sua morte pela popular Radio Clube, a vida
parou repentinamente na metrópole nordestina.
Três dias de luto; uma missa rezada
por Dom Helder Câmara, o bispo "vermelho" de Recife e Olinda, um herói da
resistência contra a ditadura militar; um milhão de fãs nas ruas que
acompanham o caixão, cantando à maneira dos vaqueiros: "Hei, hei, hei, Luiz
é nosso rei".
Luiz Gonzaga cantava trajando a
tradicional vestimenta do vaqueiro, o guarda dos rebanhos, todo de couro,
com um chapéu em forma de arca de Noé invertida.
Após ter se instalado no Rio de
Janeiro em 1941, ele se torna, no espaço de dez anos, o primeiro fenômeno da
indústria fonográfica brasileira, quando esta ainda era incipiente, e
dissemina por todo o país uma música de origem regional, que é chamada então
de baião, dotada de melodias dançantes com componentes medievais. O baião e
Luiz Gonzaga só vieram a perder o seu reinado quando surgiu um movimento
ainda mais poderoso: a bossa nova, nascida no final dos anos 50.
Mas esta cultura, com os seus
bandidos de honra (os cangaceiros), seus santos iluminados, seus ferozes
coronéis (os proprietários de terras), suas legiões de retirantes (as
famílias de camponeses que se exilavam na cidade), inspirou profundamente e
de maneira decisiva o Cinema Novo, equivalente brasileiro da "nouvelle
vague" francesa.
Em 1953, Lima Barreto filma "O
Cangaceiro" --a cantora folk americana Joan Baez interpretará o tema musical
deste filme no álbum "Joan Baez / 5", em 1964, o ano da estréia
internacional de "Vidas Secas", de Nelson Pereira dos Santos, de "Os Fuzis",
de Rui Guerra (um moçambicano radicado no Brasil), e "Deus e o Diabo na
Terra do Sol", de Glauber Rocha, as quais são obras essenciais do cinema
sul-americano.
Cavalos, couro, paisagens, música: o
coquetel volta a seduzir os jovens diretores brasileiros, que voltam a fazer
do Nordeste um assunto central, conforme demonstram filmes tais como
"Central do Brasil", de Walter Salles (1998), e, sobretudo, "Eu, Tu, Eles",
de Andrucha Waddington (2000), cuja excelente trilha sonora (na qual se
destaca uma versão de "Asa Branca") foi composta em grande parte por
Gilberto Gil, que hoje vem a ser o ministro da Cultura de Lula: baião, xote,
xaxado --o corpus dançante do forró - todos esses ritmos transpiram em cada
música.
Luiz Gonzaga gerou uma multidão de
seguidores e herdeiros, tais como o cantor e compositor Edvaldo Santana, que
nasceu como ele em Exu (nome dado nas religiões africanas ao deus-diabo), um
cantor acordeonista, grande conhecedor das mestiçagens indígenas, ibéricas e
holandesas da região.
Nenhuma voz discordante se
atreveria a questionar de alguma forma a importância do rei do baião.
Gilberto Gil, assim como o seu comparsa do tropicalismo (o movimento de
contestação que misturou o rock com a MPB em 1968) Caetano Veloso e muitos
outros, assumem a sua dívida para com esta música de poesia rural e de
dança.
Em 2000, depois da estréia do filme e
do álbum "Eu, Tu, Eles", Gilberto Gil, que fora acordeonista antes de se
tornar violonista, voltou a cantar forró em turnê, com a sua versão de "Asa
Branca".
Um outro título desta trilha sonora,
"Esperando Na Janela", tornou-se a trilha sonora dos seus deslocamentos
durante os primeiros meses do seu ministério.
Em 1972, Caetano Veloso, em exílio em
Londres, havia gravado na capital britânica um álbum de rock experimental,
junto com o produtor americano Lou Reizner.
O álbum, hoje classificado entre os
mais progressistas do seu tempo, "obtivera no Brasil um sucesso de estima",
escreve o cantor, mas uma das suas faixas, "Asa Branca", uma interpretação
muito pessoal, porém, harmonicamente pobre, do clássico de Luis Gonzaga,
basta aos meus olhos para justificá-lo".
Karaiva no Bola Preta, todos os fins de semana
Depois de "Dimanche à Bamako", do
casal não-vidente malinês Amadou e Mariam, o recém-lançado selo Because,
fundado por Emmanuel de Buretel, um ex-CEO da EMI Europa, lança um álbum de
forró.
O grupo O Karaiva foi descoberto na
orla da Bahia pelo produtor e compositor Daniel Vanguarde, criador, no
palco, das músicas da Compagnie Créole e, na vida, pai de Thomas Bangalter,
um dos dois integrantes do grupo de eletrônica Daft Punk.
O Karaiva está em Paris, e, portanto,
haverá baile forró todos os fins de semana na Boule Noire (Bola Preta), a
pequena sala ao lado do teatro de la Cigale.
Alguns ouvirão nesta música ecos
distantes da lambada, a qual era de fato uma operação de marketing lançada
em 1989 sob as aparências da autenticidade brasileira.
Mas o mérito de O Karaiva é de ter
permanecido dentro dos limites da simplicidade, de não ter procurado
"inventar" nenhuma dança, e de se virar muito bem com o que tem.
Dois violões, um acordeão, um tambor,
um cantor absolutamente natural, canções para dançar e algumas versões de
clássicos, entre os quais "Asa Branca" e "Xote das Meninas", de Luiz
Gonzaga, e ainda "Cajuína", de Caetano Veloso. Um DVD que será lançado em
breve ensinará os passos das danças.
Festivais, baile, shows e discos no Ano do Brasil na França
Rio Loco! - de 17 a 21 de junho em Toulouse. Dia 17, Baile Forró com a
Orquestra do Fubá (em turnê pela França até 13 de agosto), Heleno dos 8
Baixos, Femmouzes T, Bombes 2 Bal e Fabulous Trobadors. Tel.:
05-61-32-77-28.
Bailes e shows:
Baile Forró animado por O Karaivo, no Boule Noire, ás sextas e aos sábados,
a partir das 21h30. 20, bd Rochechouart, Paris-18e. Metrô Anvers. Tel.:
01-49-25-81-75.11.
Dock des Suds em Marselha: Silvério Pessoa, em 23 de junho. Tel.:
04-91-99-00-00.
Espaço Brasil, um outro Brasil, no Carreau du Temple, até 15 de agosto, Rua
Eugène-Spuller, Paris-3. Entrada franca. Exposições, músicas, arte
culinária, dança, forró, capoeira...
Discos:
Brasil Classics 3, Forró, etc., 1 CD Luaka Bop compilado por David Byrne.
Luiz Gonzaga, 50 anos de Chão, 1 caixa de 3 CDs - RCA/BMG.
Eu, Tu, Eles, de Gilberto Gil, 1 CD WEA.
Danse avec ta grand-mère (dance com a sua avó), de Bombes 2 Bal (Occitanie),
1 CD, selo Tôt ou Tard.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
(©
Le Monde/UOL Mídia Global)
Maracatu recria com festa os ritmos tradicionais
Música do sertão do Brasil não prescinde de uma dimensão
política
Stéphane Davet
Enviado especial em Olinda (PE)
Aos pés da colina de
Olinda --tão sedutora que um tenente português teria exclamado ao
descobri-la, em 1535, "Ô linda!"--, Mestre Maciel Salustiano, um "mestre"
setuagenário da rabeca nordestina, recebe a visita, na sua casa, de alguns
representantes da imprensa francesa para uma sessão de "degustação" musical.
A cerca de quinze quilômetros do
porto de Recife, a capital do Estado de Pernambuco, a sua Casa da Rabeca do
Brasil tem um aspecto marcado de salão de festas tropical. Cercada pelo
verde da mata que predomina nos arredores, na qual se destacam as mangueiras
e os coqueiros, ela é dotada de um teto de zinco que protege um palco ao ar
livre.
Orgulhosos tanto da sua identidade
quanto da sua diversidade, grupos e artistas regionais comparecem a este
ponto de encontro para apresentar amostras dos estilos que fazem do Nordeste
um dos mais ricos reservatórios musicais do Brasil.
Esta farândola soa ao mesmo tempo
atípica e familiar para ouvidos europeus. Aqui, sentimo-nos muito distantes
da suave melancolia da bossa nova ou do transe coletivo do samba carioca, os
quais costumam delimitar quase sempre a imagem de cartão-postal que se pode
ter da música brasileira.
Como impressão de conjunto, estamos
mais próximos de um baile "cajun" dos primos franceses da Louisiana, os
quais conferiram acentos da tradição creole aos ritmos oriundos do "Velho
Continente".
A polca, a quadrilha (contradança de
salão), os bailes "musette" (com músicas típicas francesas cantadas com
acordeão), foram tomados aqui pelas febres da África e da Amazônia para se
transformar nessas danças alegres.
Algumas delas, tais como o forró,
lembram, mais do que outras, Portugal, a França ou a Itália. Acompanhado por
um triângulo e um pandeiro (espécie de tamborim), o sexagenário cego,
Arlindo dos 8 Baixos, dá muitas reviravoltas com o seu acordeão e arrebata
os casais que se envolvem então num baile dos mais animados.
O visitante também é brindado com o
"coco", uma variante mais sincopada que, no passado, era ritmada pelo som
dos cocos ocos, esvaziados da sua polpa.
O jovem violinista Siba organiza
cirandas neste compasso e seguindo outros ritmos da tradição rural. Estas
danças são impulsionadas também por um trompete e dois trombones que
conferem um colorido "ska" (estilo primogênito e mais jazzístico do reggae
jamaicano) a esta mistura afro- européia.
Por sua vez, o seu "Mestre", o
anfitrião, Maciel Salustiano, também empunha a sua rabeca para dar início a
uma demonstração de maracatu rural, os qual é uma variante animadíssima de
uma dança de procissão afro-brasileira.
Gingados "grudadinhos agarradinhos"
Estes cruzamentos podem ser
encontrados igualmente no caráter teatral das danças, nas fantasias do
carnaval e das festas juninas. Dos bastidores da Casa da Rabeca surgem os
personagens míticos do cavalo-marinho; os caboclinhos são índias cobertas de
penas e de pérolas brilhantes que fazem estalar seus arcos e suas flechas;
os congos, por sua vez, são soberbos reis e rainhas africanos, acompanhados
pelos seus ministros da corte.
Todos eles são herdeiros ao mesmo
tempo das tradições indígenas, dos rituais expiatórios dos camponeses
europeus e das recordações dos escravos da África.
É estupendo ver a que ponto as
gerações se misturam, seja na platéia ou no palco. Aos 36 anos e depois de
ter ensaiado experiências mais pop junto com o grupo Mestre Ambrosio, Siba
optou por se aproximar dos veteranos mais importantes do maracatu e da
ciranda, recrutando músicos cuja experiência lembra bastante a dos "vovôs"
cubanos do Buena Vista Social Club.
"Existe em Pernambuco uma tradição
oral e poética que vem sendo mantida por músicos que, por muito tempo nunca
haviam saído da sua aldeia", explica o cantor-violinista. "A minha geração
vem se interessando cada vez mais por estas tradições, nas quais os novos
músicos se inspiram para revitalizar a cultura de hoje".
Enquanto a juventude brasileira
redescobriu o forró durante os anos 90, quando o circuito estudantil
popularizou uma versão festiva ("forró universitário") concentrada nos jogos
de sedução e nos gingados "grudadinhos agarradinhos", alguns jovens músicos
hoje reivindicam as raízes rurais de uma música cuja dimensão política eles
querem preservar.
Criado em meio aos canaviais do
Pernambuco, o cantor Silvério Pessoa fez as suas primeiras tentativas com o
balanço do rock, antes de explorar os ritmos tradicionais que haviam
impregnado a sua infância.
"O forró é o fruto de uma cultura de
resistência", explica o músico, que exibe a palavra "forró" tatuada no seu
antebraço esquerdo. Ele é o porta-voz do Nordeste, a região a mais pobre do
Brasil. "O baile de forró era o lugar onde se encontravam operários e
patrões para fixar o preço da cana de açúcar", prossegue Silvério.
"Era também o lugar onde eram
proferidos os discursos sindicais. Estas músicas contam as dificuldades
econômicas e sociais, a resistência ao poder central. É realmente uma pena
simplificar esta proposta artística, para adaptá-la às regras do mercado e à
imagem da mulher objeto".
Silvério Pessoa venera mestres que
têm por nome Luiz Gonzaga ou Jackson do Pandeiro. Ele também estudou música
com Jacinto Silva.
Este jovem rapaz com os seus cabelos
compridos e os dedos adornados por anéis, um companheiro de estrada de
vários grupos franceses de rock/folk tais como o Massilia Sound System e o
Fabulous Trobadors, da Occitanie (região centro-sul da França) e, assim como
eles, um adversário do centralismo, também promove combinações de rock, de
rap e de música eletrônica com o seu amor pelo forró.
E Silvério presta sua homenagem a
Chico Science (1966-1997), esse músico que exerceu um papel determinante no
processo de renovação da música nordestina, misturando ritmos tradicionais
com músicas urbanas modernas, antes de morrer aos 31 anos:
"É importante que esta tradição seja
contemporânea para que ela permaneça viva", diz. "A tecnologia serve para
isso. Chico Science nos transmitiu a seguinte frase-chave: 'Seja você mesmo,
e as coisas darão certo'.
Ele mostrou que a modernidade
alimenta a sua pertinência na fonte da tradição, e que esta é o melhor meio
de expressar a resistência ao imperialismo e à uniformidade cultural".
Tradução: Jean-Yves de Neufville
(©
Le Monde/UOL Mídia Global)
Em defesa da raiz

Leticia Lins
Correspondente RECIFE
É pé de serra, e ai. “E ai” — para os
que não sabem — é uma expressão muito usada no sertão que significa dizer
mais ou menos o seguinte: é isso mesmo, e não tem conversa. Em outras
palavras: o forró de raiz — aquele só com sanfona, zabumba e triângulo — e
que ainda levanta muita poeira no meio do terreiro é o melhor. É o que
garantem os forrozeiros tradicionais de Pernambuco, que acabam de fundar a
Sociedade dos Forrozeiros Pé de Serra E Ai, que se destina a lutar pela
preservação dos ritmos clássicos do gênero, principalmente o xote.
É que a cada dia cresce a avalanche
de bandas que se dizem de forró, mas cultuam mesmo é o estilo brega, seja na
música, no verso ou no guarda-roupa. Está aí o maior arraial do mundo, em
Caruaru — a 130 quilômetros de Recife — que não deixa mentir. Na
quarta-feira passada, no pátio do forró — uma espécie de forródromo — o que
se viam no palco principal eram bandas totalmente descaracterizadas, com
dançarinas seminuas, que nem de longe lembravam a ingenuidade dos vestidos
de chita daquelas festinhas juninas e ingênuas de interior de antigamente.
— E olha que Caruaru é a capital do
forró. Mas hoje, se você vai lá, quase não vê forró em canto nenhum da
cidade, reclama o forrozeiro Xico Bezerra. Ele é um dos idealizadores do
projeto Forroboxote, entre os quais se inclui a E Ai, entidade que, segundo
o artista, é uma sociedade civil com fins lucrativos, o que ajudará a
financiar o foco de resistência.
“Forró é o oxigênio do Nordeste”
Uma prova da união dos forrozeiros
tradicionais ocorreu no fim da semana nas ruas do centro de Recife, quando
mais de 40 sanfoneiros improvisaram a festa. Com suas sanfonas, rasgaram o
forró pé de serra em pleno asfalto e arrastaram pelas ruas uma multidão que
dançava com a mesma euforia do carnaval. E quem puxava o cordão era
Chiquinha Gonzaga, do alto dos seus quase 80 anos e com a autoridade de uma
biografia que inclui ser a primeira mulher no Brasil a tocar uma sanfona de
oito baixos.
Com seu chapeuzinho de vaqueiro em
couro cru, ela não escondia a alegria de ver tanta gente arrastando o pé no
meio da rua, com a mesma vibração que observava nos seus tempos de menina na
cidade de Exu, na base da Serra do Araripe, a 668 quilômetros de Recife. Foi
lá que aprendeu a tocar escondida do pai, o velho Januário, porque sanfona
era coisa de cabra macho.
Homenageada este ano pela prefeitura
do Recife nas festas de São João, ela deixou o instrumento de lado por uns
momentos para se integrar à caminhada que movimentou as ruas de Recife,
entre xotes, xaxados e baiões.
— O forró é para sempre. Não acaba,
não — dizia a princesa Chiquinha, como é carinhosamente chamada pelos
pernambucanos, por ser irmã do Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Sem o irmão
famoso (já falecido), Chiquinha leva adiante a arte da família que nos anos
50 do século passado animava as festas do Rio de Janeiro com Os Sete
Gonzagas, a banda da família.
Para outro baluarte da resistência,
Terezinha do Acordeom, a iniciativa dos artistas deveria ter acontecido
antes.
— O forró precisa desse movimento
para não ser engolido. Nunca é tarde para tomar a iniciativa. A turma do pé
de serra está acordando e se unindo. O forró é o oxigênio do Nordeste, é a
alma do povo, é nossa identidade. Ele espalhou-se pelo Brasil e contagia os
gringos quando aparece lá fora — afirma.
Autor de um grande sucesso na região
— “Se tu quiser” — Xico Bezerra diz que o objetivo da E Ai é difundir e
divulgar o forró pé de serra, promovendo cursos, aulas de canto, fazendo
oficinas de sanfona, ensinando o artista a gerenciar sua carreira. Ele acha,
no entanto, que, apesar das bandas que proliferam nas festas, o forró
tradicional não morrerá:
— O forró não corre risco. Está aí há
50 anos e continua mais vivo do que nunca. Não quero polemizar com as bandas
que tentam estilizar o ritmo, mas o que posso dizer é que há a música boa e
a má. O povo sabe separar o joio do trigo. O forró pode e até deve se
modernizar, mudar de vestimenta mas sem perder a raiz. Tem banda de forró
cuja temática passa longe da caatinga. Eu sou fiel às origens e faço da
minha música uma trilha sonora do sertão alegre — diz o artista.
Inspiração na Motown
Autor do sucesso “Ana Maria” e um dos
forrozeiros mais solicitados do Nordeste, Santana engajou-se à sociedade e
acha que a caminhada que reuniu os sanfoneiros e arrastou uma multidão deve
se inscrever no calendário junino da capital.
— Nós, poetas e cantadores de forró,
fizemos uma difícil travessia cultural do sertão ao cais. Agora estamos
soltando para o mundo o que trouxemos no matulão — diz.
Santana vai mais longe. Afirma que a
formação da sociedade tem inspiração na gravadora americana Motown, que,
segundo ele, firmou-se em Detroit como a primeira grande empresa da área
fonográfica feita por negros e para negros.
— Eles começaram num fundo de quintal
e conseguiram impor ao mundo a sua música. Se o americano fez o melhor jazz
do mundo; o argentino, o melhor tango; por que o brasileiro não pode fazer o
melhor forró? — indaga.
Só que, para Santana, o melhor forró
é aquele mesmo, o pé de serra, e ai.
(©
O Globo) |