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José
Ferreira da Silva trabalha numa base de madeira para decorar seus
cordéis |
Outrora desprezados, poemas populares
ganham reconhecimento
LARRY ROHTER
Em Caruaru (PE)
Eles são os bardos do sertão, viajando com seus poemas de cidade em cidade
e de feira em feira. Praticantes de uma forma de arte que teve origem na
Europa medieval e hoje está quase obsoleta em toda parte, eles continuam
pujantes aqui.
"Cordel" é o nome dado a sua arte, que se desenvolveu neste
interior árido do nordeste do Brasil, em comunidades agrícolas isoladas que
valorizam mais a palavra cantada ou falada que a escrita. Como forma de arte
autóctone e instintiva, os mesmos baladeiros que criam os poemas, inspirados
em lendas ou fatos atuais, geralmente são quem os imprime, ilustra e
distribui.
"Assim como muitas outras formas de folclore, o cordel transforma o
vocabulário antigo para caber em novas situações", disse Candace Slater,
autora de "Stories on a String" [Estórias em um Cordão] e professora da
Universidade da Califórnia em Berkeley.
"O que não mudou é que os poetas de cordel continuam escrevendo para o
grupo, e o que eles escrevem continua tocando as pessoas do nordeste
brasileiro, não importa onde elas estejam vivendo."
"Cordel" significa literalmente um cordão ou barbante, uma referência à
maneira como os livretos de papel barato contendo os poemas, com até 32
páginas, são dependurados nas barracas de feiras. Os versos geralmente têm
seis linhas, e embora seja permitida uma variedade de esquemas de rima, o
mais utilizado provavelmente é "abcbdb".
Originalmente, o cordel era uma extensão da tradição do trovador europeu. Os
poetas e cantores de cordel percorriam o vasto interior do nordeste do
Brasil, uma área maior que o Alasca e que hoje abriga 50 milhões de pessoas,
apresentando-se nas feiras como a que se realiza aqui todo sábado, ou nos
mercados, dias comemorativos de santos e outros eventos públicos, para
recitar suas baladas, trazendo notícias e diversão para os agricultores
muitas vezes analfabetos.
"A literatura popular em forma de verso se desenvolveu aqui no Brasil como
em nenhum outro lugar do mundo", disse Audálio Dantas, um colecionador de
cordel e curador de "Um Século de Cordel", uma exposição realizada em São
Paulo em 2001.
"O panfleto de cordel foi durante décadas praticamente o único veículo de
informação com que as pessoas do interior podiam contar."
Mas com a ascensão do rádio, depois da televisão e agora da Internet, o
principal foco do cordel mudou gradualmente para divertir o leitor ou
ouvinte.
No entanto, quando um leão devorou uma criança em um circo perto daqui não
muito tempo atrás, o incidente rapidamente se tornou tema de um cordel, e
poucos dias depois dos atentados terroristas de 11 de setembro panfletos
interpretando o evento circulavam no sertão.
"Somos poetas menestréis, porque o que escrevemos é em rima e vem de nossa
imaginação", disse José João dos Santos, que sob o nome de pena Azulão
escreveu e publicou mais de 300 títulos de cordel.
"Mas também sou um jornalista que leva notícias aos pobres e analfabetos em
uma forma que eles compreendem e confiam mais que os jornais ou a
televisão."
A maioria dos poetas vem do mesmo ambiente que suas platéias. Por exemplo,
José Francisco Borges, que abandonou a escola aos 12 anos e hoje talvez seja
o mais célebre mestre dessa arte, trabalhou como pedreiro, vendedor de
ervas, agricultor, carpinteiro e poteiro.
Apesar do que lhes falta em escolaridade, os poetas de cordel são criativos
e têm mente ágil. Quando Abraão Batista foi questionado sobre o que o tornou
poeta, respondeu: "Bem, eu fui até a lua, encontrei São Jorge e os santos
conversando, e eles me deram sua bênção. Desde então tenho saltado por aí no
tempo e no espaço".
Como indicam panfletos como "A garota que bateu em sua mãe e foi
transformada em um cachorro" ou "A garota que se casou 14 vezes e continua
virgem", o cordel muitas vezes transmite uma moral, com heróis e vilões
claramente definidos.
Outros títulos, como "A mulher que colocou o diabo em uma garrafa" ou "O
homem que se casou com uma jumenta", destinam-se a ser sobrenaturais ou
cômicos.
Outro tema favorito são as aventuras de Lampião, um bandido no estilo Robin
Hood que escapou da polícia durante mais de uma década antes de ser
capturado e morto perto daqui em 1938.
Os poetas de cordel dizem, porém, que o título de maior vendagem de todos os
tempos é "O Romance do Pavão Misterioso". Ambientado no distante
Mediterrâneo, ele conta a história de um jovem que, frustrado porque sua
amada é mantida presa por seu pai, obtém um pavão mecânico que lhe permite
resgatá-la. Os dois fogem, o sogro morre e o casal se torna seu herdeiro.
"Algumas das histórias mais populares podem ser identificadas nas lendas
européias, a Carlos Magno no século 10º, mas a maioria se originou na
península Ibérica no final do século 16 e no 17", diz Mark Curran, professor
da Universidade Estadual do Arizona que escreveu vários livros sobre cordel.
"Mas a genialidade dessas histórias é que mesmo aquelas que vêm do Oriente
foram totalmente adaptadas e recriadas para se adaptar às circunstâncias do
nordeste brasileiro."
José Ferreira da Silva, um poeta daqui que escreve sob o nome de Dila, diz:
"Alguns assuntos nunca saem de moda no cordel e sempre venderam. Eu já
escrevi tantos panfletos sobre Lampião que perdi a conta --pelo menos 200".
Os brasileiros instruídos originalmente desprezavam o cordel e as capas em
xilogravuras grosseiras ligadas a ele como algo vulgar, um símbolo do atraso
do país.
Mas, hoje, intelectuais de São Paulo e do Rio de Janeiro são colecionadores
ou admiradores dos panfletos, e a estética do cordel pode ser detectada em
quase todos os cantos da cultura popular brasileira.
"Os poetas de cordel dirão que o interesse por seu trabalho cresceu
principalmente por causa dos estrangeiros", diz Curran. "Mas eu acho que o
Brasil atingiu um momento de mudanças em que existe mais consciência e uma
fome para procurar as raízes culturais do país, e o cordel é uma parte
importante da cultura brasileira do século 20."
Na música pop, por exemplo, compositores de vanguarda muito admirados fora
do Brasil se basearam no cordel em canções como "A chegada de Raul Seixas e
Lampião no FMI", de Tom Zé e "Isaac Asimov e Santos Dumont se encontram no
céu", de Chico Science.
Na literatura, o romance de Jorge Amado "Tereza Batista Cansada de Guerra" e
a peça de Ariano Suassuna "A História do Rei sem Cabeça" são fortemente
influenciados pelo cordel, no tema e na forma.
Com títulos como "O Cordel das Doenças Sexualmente Transmissíveis" e "A
Reforma Agrária é um Direito de Todo Brasileiro", os governos federal e
estaduais também vêm usando esse formato para promover a saúde, a segurança
no trânsito, a consciência política, a prevenção à Aids e outras campanhas
oficiais.
E políticos e empresários de pequenas cidades do nordeste muitas vezes
recorrem ao cordel para promover suas candidaturas ou seus produtos.
"Não muito tempo atrás, um advogado cuja filha ia se casar me pediu para
escrever os convites em versos de cordel", disse José Severino Cristóvão, um
poeta local.
Quanto às xilogravuras que adornam as capas dos panfletos de cordel, elas
evoluíram em uma forma de arte própria. O trabalho de Borges já foi exibido
no Louvre e no Smithsonian. Mas em sua barraca de feira aqui ele também
vende camisetas e azulejos estampados com imagens das xilogravuras.
"As pessoas dizem que o cordel está condenado desde os anos 20", diz Slater.
"Mas a energia criativa continua aí hoje; apenas está sendo canalizada de
maneiras diferentes.
O cordel sempre foi uma forma híbrida, capaz de incorporar novas
influências. Sua capacidade de se tornar coisas diferentes pode decepcionar
pessoas que querem que ele seja o que foi nos anos 40 ou 70, mas é
exatamente nessa adaptabilidade que reside sua sobrevivência criativa.
(©
The New York Times/UOL Mídia Global) |