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Novo tempo para Glauber

 

O Tempo Glauber

MinC anuncia doação definitiva da casa que abriga acervo do cineasta

Alexandre Werneck

O Ministério da Cultura anuncia que a casa em Botafogo em que funciona o Tempo Glauber, arquivo e museu dedicado à obra do cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981), será finalmente doada à instituição, pondo fim a uma história de indecisão sobre o destino de seu acervo que já dura mais de uma década. O imóvel, que fica no número 190 da Rua Sorocaba, será entregue à instituição em regime de comodato por um período ainda a ser definido, mas que deve ser de 99 anos.

- Essa doação era um desejo de todo o cinema brasileiro. Além da importância material de seu acervo, o Tempo Glauber se tornou uma referência mítica - diz o cineasta Orlando Senna, secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura.

Senna faz o anúncio hoje, às 14h, ao lado do ministro da Cultura Gilberto Gil, em solenidade no próprio museu.

- Há uma piada que circula no meio cinematográfico que diz que o Glauber, lá do céu, não vai deixar o cinema brasileiro andar enquanto o Tempo Glauber não tiver a posse da casa - brinca Senna.

Construído em 1897, o casarão pertence originalmente ao Ministério da Previdência, que, por uma série de impedimentos legais, não podia doá-lo. A casa dá teto ao Tempo Glauber desde 1987, quando a Previdência o cedeu a Lúcia Rocha - mãe do cineasta e idealizadora do Tempo Glauber - um de seus imóveis inativos. Em 1999 foi cedido à instituição, mas a posse nunca foi definitiva. Desde que entrou no imóvel, Dona Lúcia, como é conhecida no meio cinematográfico, já recebeu três ordens de desocupação.

- Essa condição nos causava um mal-estar muito grande, porque quando pegamos a casa ela era praticamente uma ruína. Conseguimos apoio e a reformamos e mesmo assim vieram tentar nos tirar do imóvel.

Agora, a casa está sendo comprada (por R$ 400 mil) pelo MinC, que fará, ele sim, a doação em regime de comodato, na conclusão de um processo iniciado em 2004 - mas que foi em parte iniciado em 1999, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso. O negócio está em fase final de entendimento e depende de acertos entre a Previdência e o Ministério da Fazenda.

Além da doação do imóvel, o MinC anuncia hoje oficialmente a elevação da instituição, por meio de decreto presidencial que acaba de ser assinado, à categoria de Arquivo Privado de Interesse Público e Social, o que, na prática, vai permitir que o Tempo seja tratado como um arquivo público, permitindo acesso a apoios para projetos de conservação do acervo.

- É um avanço quase tão significativo quanto a posse da casa. Poderemos ajustar o espaço e o acervo para que ele possa ser adequadamente disponibilizado ao público - diz a cineasta Paloma Rocha, filha de Glauber.

O acervo dispõe de mais de 80 mil documentos da produção intelectual do diretor de Deus e o diabo na terra do sol, além de matrizes de seus filmes e material iconográfico de sua obra. Desde 2002, quando a casa passou por sua primeira grande reforma, o Tempo Glauber tem como anexo o Espaço Barravento, com uma sala de projeção onde se tem exibido filmes de Glauber e do Cinema Novo, movimento que ele ajudou a criar e do qual é o maior nome. É no Barravento que acontecem, hoje também, o lançamento do DVD duplo de Terra em transe (1967), um dos filmes mais importante do diretor, e o relançamento do livro O século do cinema, com textos de Glauber, em edição revista e ampliada.

A família de Glauber trabalha ainda para que o Tempo Glauber se torne um centro de referência para o Cinema Novo em geral.

- Esse ampliação é importante. O Cinema Novo teve a ver com sua época (os anos 60), e é referência para as novas gerações, que têm agora uma relação com Glauber diferente da que tinham no passado. Sua ousadia era considerada inibidora e hoje é incentivadora - diz Orlando Senna.  

(© JB Online, 10.04.06)

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