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Árido Movie
Brasil, 2004
Drama - 118 min |
Direção: Lírio Ferreira
Roteiro: Hilton Lacerda
Elenco: Giulia Gam, Guilherme Weber, Selton
Melo, Gustavo Falcão, Aramis Trindade, Matheus Nachtergaele
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Lírio Ferreira, em
foto de Adriana de Barros/UOL
O pernambucano Lírio Ferreira, co-diretor de um
dos filmes mais celebrados da década de 1990, "Baile Perfumado"
(1996), levou dez anos para colocar na tela seu segundo trabalho, o
aguardado "Árido Movie", que estréia em São Paulo e no Rio de
Janeiro na quinta-feira.
O protagonista da história é Jonas (Guilherme
Weber), "homem do tempo" de uma emissora de televisão em São Paulo,
forçado a partir para uma remota cidadezinha do sertão de Pernambuco
para o enterro do pai (Paulo César Peréio), que foi assassinado.
Lá, defronta-se com uma realidade arcaica, em que
a avó e os tios querem que ele vingue a honra da família com o
sangue do matador, o índio Jurandir (Luiz Carlos Vasconcelos).
O conflito entre a modernidade urbana e o arcaísmo
do sertão também estão presentes nas aventuras e desventuras de um
grupo de amigos de Jonas (Selton Melo, Gustavo Falcão e Mariana
Lima).
Este diálogo entre passado e presente, para Lírio,
dá sequência a uma discussão iniciada em seu trabalho anterior,
"Baile Perfumado", só que em outros termos.
"'Baile Perfumado' era um filme de época em que se
tentava introduzir a atualidade por meio da trilha musical (assinada
por Chico Science, falecido precursor do movimento mangue beat). Em
'Árido Movie', fazemos o caminho inverso -- é um filme contemporâneo
que resgata a persistência do passado, que está na família e no
poder", explica o diretor em entrevista à Reuters.
Um dos elementos mais importantes para a colocação
deste conflito está na excepcional fotografia contrastada, assinada
pelo também diretor Murilo Salles.
A demora para a realização do filme não foi por
falta de vontade, mas decorreu das dificuldades da produção
cinematográfica no Brasil. O próprio Lírio conta que as primeiras
idéias para o roteiro vieram em 2000, quando fez uma viagem ao vale
do Catimbau, que acabou sendo uma locação do filme.
Em 2002, o diretor-roteirista já tinha conseguido
verbas, mas não a tempo de filmar entre outubro e janeiro, a estação
seca, que era imprescindível ao visual despojado que pretendia
imprimir ao longa.
As filmagens aconteceram entre 2003 e 2004, em
Pernambuco e São Paulo. E a première mundial de "Árido Movie" acabou
sendo no Festival de Veneza, em setembro de 2005.
"Não deixa de ser irônico a gente exibir um filme
que trata das mazelas da seca numa cidade como aquela, todinha
rodeada de água", disse Lírio. (Por Neusa
Barbosa, do Cineweb)
(©
UOL Cinema)
Marcelo Hessel
O melhor cinema feito hoje no
Brasil está fora de Rio de Janeiro e São Paulo. O cearense
Karim Ainouz (Madame
Satã), o baiano Sérgio Machado (Cidade
Baixa), os pernambucanos Cláudio Assis (Amarelo
manga) e Marcelo Gomes (Cinema,
aspirina e urubus) dividem entre si a responsabilidade de
colocar o Nordeste no novo mapa da cinematografia nacional. Mas são,
em maior ou menor grau, cineastas de temas universais - inquietude,
amor, solidão, incomunicabilidade, desesperança, inadequação.
O pernambucano Lírio
Ferreira, que apresenta agora Árido Movie
(2004), talvez seja o mais "nordestino" desse grupo, no
sentido em que o regionalismo de certo modo define os temas de que
ele trata. O cangaço, a seca, o coronelismo, o messianismo, o
folclore, o manguebit, o compêndio secular do sertão, o recifense
com um pé na modernidade e o outro pé fundo no mangue, tudo isso
pontua a obra do diretor - desde seu primeiro longa, co-dirigido por
Paulo Caldas, Baile Perfumado (1997), até
este árido filme solo.
O ator curitibano Guilherme
Weber, revelado nas peças da Sutil Companhia até chegar às
novelas globais, interpreta Jonas, filho de um grande proprietário
de terras na vila sertaneja de Rocha, Lázaro (Paulo César
Pereio). Jonas mal conheceu o pai, logo se mudou para o
Sudeste. Em compensação, a família que ficou em Rocha vê Jonas todas
as noites, pela televisão, na hora em que o filho-pródigo apresenta
a previsão do tempo no jornal. Uma reunião ao vivo, porém, está para
acontecer. Depois do assassinato de Lázaro, Jonas é forçado a voltar
ao Pernambuco para enterrá-lo.
Essa premissa enxuta remete ao
clássico tema do eterno retorno e já sugere um filme de estrada. Mas
é aconselhável não confiar em sinopse. No meio do caminho o
espectador encontrará não apenas uma leva de bons coadjuvantes (Selton
Mello, José Dumont, Matheus
Nachtergaele, Giulia Gam, Luis
Carlos Vasconcelos) e pontas especiais (Cláudio Assis,
Xico Sá, Zé Celso, Lira
Paes) como uma torrente de abstrações. Quem imagina um
minimalismo à Marcelo Gomes pode se surpreender com o caos que
desponta no imaginário do Vale do Rocha.
Forquilhas, pregadores de estrada,
chá de índio, plantações de maconha, night club, vingança,
barbas brancas, ares de Canudos... Já reparou que desde o começo
este texto enfileira um monte de coisas soltas que não parecem ter
relação entre si? Assim é Árido Movie, um filme com tantos
argumentos que mal põe de pé uma única tese consistente. É difícil
escapar da síndrome do segundo filme, e Ferreira parece entender que
o antídoto para essa doença é negar a narrativa. Quando uma passagem
engrena na dramaturgia, ela é quebrada por outra, descompromissada.
O problema é que sobram apenas fragmentos, como numa viagem de erva
em que jorram idéias efêmeras e sobrepostas.
O diretor não é desconhecedor da
linguagem do cinema. Domina o ritmo, o momento certo de fazer
silêncio: incluir uma panorâmica devastora do sertão em contraponto
à cena fechada no conflito dos personagens, por exemplo. Há um
elemento no filme que serve de fio a essas idéias, a água, da
primeira à última tomada. E há também questões referentes a
identidade, ao tempo, à validação do homem no espaço ao seu redor -
a Montanha do Cachorro já era conhecida assim antes do ser humano
nomear o animal de cachorro? Quem são esses alienígenas recifenses
que chegam a bordo de uma nave conversível como se as pessoas de
Rocha não fossem conterrâneas do sertão, mas gente de outro planeta?
Existe material para debate em
Árido Movie, sim, mas tentar entender quais as mensagens
submersas ali está perto de ser um esforço irrecompensável.