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Festival de Recife faz dez anos e confirma força do cinema pernambucano

 

Boleiros 2, de Ugo Giorgetti abre o Festival do Recife

RECIFE (Reuters) - O "Cine PE-Festival do Audiovisual" chega à sua décima edição no domingo com ar de maioridade. Neste período, o festival sediado em Recife ganhou maior repercussão no país, crescendo em prestígio diante de eventos bem mais antigos, como o Festival de Gramado (que existe desde 1973), e tornando-se o mais expressivo pólo de exibição da produção nordestina.

O Cine PE revelou para o cinema nacional nomes como os de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, com seu primeiro longa, "Baile Perfumado", e Cláudio Assis, com o curta "Texas Hotel".

Lírio Ferreira, aliás, é diretor de um dos concorrentes mais aguardados do festival, "Árido Movie", que já estreou na quinta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas que no Recife ainda é inédito.

Um dos principais sucessos do festival pernambucano --que nos seus primeiros seis anos chamava-se Festival de Cinema de Recife-- tem sido a formação de público. Todas as noites, cerca de 2.400 pessoas lotam o imenso Teatro Guararapes, sede do festival.

Para abrir o evento neste domingo, será exibido o longa paulista "Boleiros 2-Vencedores e Vencidos", de Ugo Giorgetti, fora de competição.

A disputa pelo troféu Calunga, que tem sete longas concorrentes este ano, começa na noite de segunda-feira, com o documentário pernambucano "Orange de Itamaracá", de Franklin Jr. e Márcio Camera. Trata-se da cinebiografia do ex-presidiário José Amaro da Silva, que cuidou do histórico forte Orange, na ilha de Itamaracá.

Na noite de terça, o longa é a animação "Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n Roll", com direção do premiado gaúcho Otto Guerra, que venceu em Recife em 2001 o troféu de melhor roteiro por outra animação, "Cavaleiro Jorge".

Na quarta, é a vez do paulista "Tapete Vermelho", de Luiz Alberto Pereira. A comédia, estrelada por Matheus Nachtergaele e Gorete Milagres, trata da obsessão de um sitiante paulista por levar o filho (Vinicius Miranda) para assistir a um filme de Mazzaropi no cinema.

Na quinta, a competição de longas tem sessão dupla, com o documentário "Meninas", da carioca Sandra Werneck, que trata do tema da gravidez precoce no Brasil, e "Veias e Vinhos", de João Batista de Andrade (SP).

Este último é um drama em torno de um homem que inaugura um bar, em 1959, quando a violência começa a abalar a região central do país. No elenco, Leonardo Vieira, Simone Spoladore e Eva Wilma.

Na sexta, outra dose dupla: o documentário "Pro Dia Nascer Feliz", do carioca João Jardim, sobre os dilemas da educação, e o muito aguardado "Árido Movie", de Lírio Ferreira, co-diretor de "Baile Perfumado", um filme que revelou ao resto do Brasil a força e originalidade do cinema pernambucano.

A premiação será anunciada na noite de sábado (22) e seguida pela exibição, fora de competição, do filme "Achados e Perdidos", de José Joffily, que trata da história de um delegado (Antônio Fagundes), principal suspeito do assassinato de sua amante (Zezé Polessa).

O júri de longas é formado por: Nelson Hoineff, jornalista e crítico de cinema; Jean-Claude Bernardet, pesquisador e diretor de cinema; Rita Buzzar, roteirista e produtora de cinema; Luiz Zanin, jornalista, e Ana Maria Magalhães, atriz e diretora de cinema.

Entre os curtas, também em competição, alguns destaques são "Eletrodomésticas", de Kleber Mendonça Filho, "Rapsódia para um Homem Comum", de Camilo Cavalcanti, ambos de Pernambuco; "Vermelho Rubro do Céu de Boca", da baiana Sofia Federico; "Dos Restos e da Solidão", de Petrus Cariry (CE) e "O Som da Luz do Trovão", de Petrônio Lorena e Tiago Scorza, que, apesar de ser uma produção carioca, retrata um personagem pernambucano, o sertanejo Evangelista Ignácio de Oliveira.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

(© UOL Cinema)


Cinema: Recife chama o público para sua festa

Boleiros 2 inicia no domingo a mostra mais calorosa do Brasil, com platéias de até 3 mil espectadores por sessão

Luiz Carlos Merten

SÃO PAULO - Todo poder às mulheres. A diretora do Cine PE - Festival do Audiovisual de Pernambuco, Sandra Bertini, convidou a jornalista e crítica Maria do Rosário Caetano para assessorá-la na curadoria do evento que começa no domingo. O Festival do Recife, como é mais conhecido, chega à sua décima edição. Sua fama é a de ser o festival mais caloroso do cinema brasileiro, com platéias que, com freqüência, ultrapassam as três mil pessoas no Cine-Teatro Guararapes, onde se realizam as projeções (e que, do rigoroso ponto de vista geográfico, fica em Olinda).

Um sucesso tão grande de público deveria fazer com que os diretores corressem para ter seus filmes selecionados para o Recife. Sandra já se acostumou a ouvir não. O motivo não é nenhuma falta de credibilidade do festival. Num momento de recuo do público, quando a média de freqüência dos filmes nacionais anda muito baixa, 3 mil espectadores de uma só tacada podem significar toda a platéia que uma produção, qualquer que seja, se arrisca a ter na cidade. Sandra assume o ônus e o bônus da seleção do Recife-2006. "Nosso festival não tem um perfil político, não seleciona filmes por serem alternativos, experimentais nem comerciais. Queremos ser a cara do cinema brasileiro, em todas as suas tendências", ela explica.

Para chegar a isso, Sandra recusou uma regra da maioria dos festivais - e que virou dogma na última edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Sandra abriu mão da ditadura do ineditismo. Escolheu filmes que já estrearam no Rio e em São Paulo - ou integraram a seleção de festivais no País e no exterior -, mas permanecem inéditos no Recife. Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos, de Ugo Giorgetti, abre amanhã o 10º Cine PE. Em São Paulo, no fim de semana de estréia, na semana passada, Boleiros 2 fez míseros 500 espectadores. No Recife, numa só apresentação, multiplicará por seis o número.

"Acho que Boleiros 2 tem tudo a ver com o festival, ainda mais num ano de Copa, como este, no qual o futebol está solto no imaginário coletivo", explica Sandra Bertini. A seleção de Árido Movie, de Lírio Ferreira, tem outra explicação. "É um filme forte, original, de um diretor local. Lírio vai somar para a gente." Também já estrearam no centro do País ou tiveram exibições em festivais - Tapete Vermelho, de Luiz Alberto Gal Pereira, e Meninas, o documentário de Sandra Werneck que integrou a programação paralela do recente Festival de Berlim, em fevereiro.

Inaugurado com Boleiros 2, que vai passar fora do concurso, o Cine PE terminará no sábado, dia 22, com a exibição de outro filme que não participa da competição - Achados e Perdidos, de José Joffily. Entre estes extremos, sete títulos vão disputar os prêmios Calunga da mostra de longas em 35 mm, a menina dos olhos de toda seleção - três são documentários; outros três, ficções; e uma animação. Esta última é Wood&Stock: Sexo, Orégano e Rock´n´Roll, de Otto Guerra. Os documentários são - o já citado Meninas, de Sandra Werneck; Orange de Itamaracá, de Franklin Jr. e Márcio Câmera; e Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim. As ficções são - Tapete Vermelho, de Gal Pereira; Árido Movie, de Lírio Ferreira; e o ineditíssimo Veias e Vinhos, de João Batista de Andrade, que terá sua primeira exibição pública no Recife.

Homenagens

A programação geral do evento contempla competição de curtas, mostra de vídeos digitais, festivalzinho (com filmes para crianças), oficinas e workshops, homenagens. O patrocínio é da Petrobrás, com a Chesf, Companhia Hidrelétrica do São Francisco, Governo do Estado de Pernambuco e Prefeitura do Recife. Como todo ano, o festival presta homenagens, divididas em artísticas e institucionais. As homenageadas artísticas serão Tônia Carrero e Lídia Matos.

Tônia foi estrela da Vera Cruz, nos anos 1950, imediatamente arrebatando o público por sua beleza, que iluminou esse Brasil no teatro, cinema e TV. Aos 80 e tantos anos, Tônia continua no palco. A trajetória de Lídia Matos não é menos importante. A atriz que dividiu a cena com Carmen Santos e Celso Guimarães em Argila, de Humberto Mauro, em 1940, recebeu o prêmio de melhor coadjuvante no Festival de Gramado de 2000 por seu papel em Eu Não Conhecia Tururu, de Florinda Bolkan.

Justamente Gramado. O festival gaúcho, que começou brasileiro e hoje é latino e brasileiro, receberá uma homenagem institucional no palco do Cine-Teatro Guararapes. "Nosso festival nasceu em Gramado", justifica Sandra Bertini. A Chesf também será homenageada. "É a maior investidora de cinema da região, e isso é muito importante para o audiovisual de Pernambuco e do Nordeste em geral", Sandra acrescenta.

O próprio festival não deixa de auto-homenagear-se, comemorando seu décimo aniversário com a edição de um livro, Quando o Caso É de Cinema, a Paixão é Um Festival, uma parceria com a Gráfica Editora Nordeste, no qual o criador do evento, Alfredo Bertini, evoca as lutas desta década prodigiosa e conta ´causos´, alguns tensos, muitos emocionantes, quase todos divertidos, que marcaram o Recife. Qual é o legado destes dez anos? "Foi a contribuição que o festival prestou ao desenvolvimento do audiovisual na região, promovendo encontros, discutindo filmes, propiciando o desenvolvimento de vocações, formando platéias", resume a entusiasmada Sandra.

(© Agência Estado)


Road movie do sertão

"Árido Movie", segundo longa do pernambucano Lírio Ferreira, que estréia hoje, é uma viagem em direção ao interior do Brasil

SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL

"Árido Movie" começa quando Jonas (Guilherme Weber) deixa a metrópole onde vive e volta ao sertão onde nasceu para o enterro do pai (Paulo César Pereio). Forasteiro na própria terra, ele vê tudo fora de lugar -há um caixão no meio da sala e uma mulher que não larga a idéia de vingança.

A avó de Jonas (Maria de Jesus Bacarelli) quer que o neto mate o assassino do pai. Trata-se do índio Jurandir (Luiz Carlos Vasconcellos), que agiu acreditando defender a própria honra ao ver a irmã, Wejda (Suyane Moreira), enredada por seu maior desafeto.

O pai de Jonas se chama Lázaro. Lázaro é também o personagem bíblico cuja ressurreição na tela fixou a primeira memória cinematográfica do autor de "Árido Movie", o cineasta Lírio Ferreira.

"Fechei os olhos na cena em que ele ressuscita", lembra Ferreira, 41, voltando 36 anos no tempo, até o Cine Rivoli, no bairro da Casa Amarela e de sua infância em Recife. Onde havia o Cine Rivoli hoje há uma agência de banco.

Essa é uma das mudanças que Ferreira percebe sempre que volta à cidade que trocou pelo Rio de Janeiro, em 1997, quando seu primeiro longa-metragem ("Baile Perfumado", em co-direção com Paulo Caldas) cumpria o objetivo de "colocar Pernambuco na geografia cinematográfica do país".

"Árido Movie" está repleto de memórias e referências à vida de Ferreira e a de seus amigos. Homem de turma, como se define, e amigo dos bares, ele concebeu o longa com "uma idéia na cabeça e um copo na mão".
A seguir, o cineasta fala sobre seu filme e sobre "árido movie", que, um dia, foi um manifesto pelo cinema nordestino. Hoje não é mais. O tempo passa. O Nordeste entrou no mapa.
 

Folha - O que há de autobiográfico no filme sobre um nordestino que se tornou o "homem do tempo" na megalópole e retorna ao sertão para rever laços familiares?
Lírio Ferreira -
Todo filme tem um caráter um pouco autobiográfico. "Árido Movie" tem, não só meu, mas das pessoas que me cercam. Descobri o sertão quando criança. Meu pai tinha um armazém no interior da Bahia. Cruzávamos o sertão de Pernambuco em direção ao interior da Bahia.
O sertão era presente e cotidiano na minha infância. Ao mesmo tempo, eu me sentia completamente estranho ali. Tudo me impressionava muito. As pessoas, sua maneira elegante, educada e sincera; a luz, o clima.
"Árido Movie" é autobiográfico no sentido dessa volta, da busca de memórias. Tem também homenagens a amigos, a pessoas que me cercam. E outras coisas mais.
 

Folha - Que outras coisas?
Ferreira -
É um mergulho para dentro e para fora. Não é à toa que o nome é "Árido Movie", é um estado de espírito de determinado momento da minha vida. Ele rouba da realidade várias coisas.
 

Folha - "Baile Perfumado", seu filme anterior, é de 1997. Por que o segundo demorou tanto?
Ferreira -
A realização às vezes é inversamente proporcional à imaginação. São várias dificuldades. Quando terminei "Baile Perfumado", pensei em adaptar um livro, fiquei um tempo nisso, depois desisti.
O [filme sobre] Cartola já é um projeto que vem de antes, mas teve dificuldade de captação [de dinheiro para a produção]. No início do segundo semestre deverá estar pronto. "Árido Movie" é um projeto que começou em 2000.
Mas, nesse ínterim, não fiquei parado. Trabalhei muito com videoclipe, que é o contrário do cinema -você tem uma idéia, produz em quatro dias, filma em dois e já vê pronto.
Utilizei esse tempo que o "Árido Movie" ficou entre idas e vindas aprimorando o que eu queria fazer, jogando a favor do filme e não transformando isso em empecilho, em algo desmotivador.
 

Folha - O rótulo "árido movie" surgiu como uma bandeira do cinema nordestino. Hoje, nenhum dos cineastas que a levantaram faz questão de defendê-la. Por quê?
Ferreira -
"Árido movie" nunca foi um movimento nem um manifesto. É uma mística. É uma expressão cunhada pelo cineasta e jornalista Amin Stepple, com quem dirigi [o curta-metragem] "That's a Lero Lero" [1994].
Era uma mística sobre o momento em que a gente estava vivendo, em que [o cineasta] Marcelo [Gomes] estava escrevendo o roteiro de "Cinema, Aspirinas e Urubus" [2005], em que [o cineasta] Cláudio [Assis] estava pensando no "Amarelo Manga" [2002], em que a gente estava acabando de sair do "Baile Perfumado" [1997]. Era também um contraponto ao mangue beat. Mas era mais um estado de espírito do que um movimento em si.
O filme resgata esses momentos. É uma grande homenagem àquela época e àquele momento inquieto em que a gente tentava colocar Pernambuco na geografia cinematográfica do país.
A gente sentava numa mesa de bar, discutia muito cinema e bebia muito uísque. Era uma idéia na cabeça e um copo na mão.
 

Folha - Qual a frase que seus amigos mais lhe dizem?
Ferreira -
Lírio, vá com calma!
 

Folha - Você ouve?
Ferreira -
Ouço com respeito, mas não sei se conjugo.
 

Folha - Por que escolheu Guilherme Weber para viver Lírio Ferreira?
Ferreira -
Não é o Lírio Ferreira [risos].
 

Folha - É o Selton Mello quem interpreta Lírio Ferreira?
Ferreira -
Não sei. Talvez um pouquinho de cada um.
 

Folha - "Árido Movie" é deliberadamente filme para pouco público?
Ferreira -
Muito pelo contrário. Quero que o máximo de gente assista. Tenho desejo de público.

(© Folha de S. Paulo)


Diretor enlaça histórias em filme de exuberância barroca

A atriz Suyane Moreira em cena do longa-metragem de Lírio Ferreira

Fotos Divulgação
A atriz Suyane Moreira em cena do longa-metragem de Lírio Ferreira



INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

O cartão de visitas, Lírio Ferreira entrega logo nas cenas de abertura: desfoques, uso ousado de lente grande-angular, um plano vertiginoso de Recife, angulações inesperadas.

O que vem a seguir não desmente esse início vertiginoso. Estamos no território do barroco, aonde nos leva já um roteiro com várias histórias que parecem nascer umas das outras.

A primeira delas, central, diz respeito a Jonas, homem do tempo de um canal de TV em São Paulo, que precisa se deslocar a Pernambuco para os funerais de seu pai, assassinado, a quem não via há milênios.

De Recife ele viaja para Rocha, no interior, onde sua família o espera, enquanto prepara a vingança.

Em Recife, ele encontra um grupo de amigos "outsiders" que resolve fazer uma excursão até Rocha para acompanhar o amigo. A viagem será acidentada.

A terceira história diz respeito ao encontro de Rocha com a artista Soledad, que trabalha as relações decorrentes da seca na região. Podemos acrescentar a essas uma quarta história, a da família do assassino do pai, isto é, dos descendentes de indígenas que moram na região.

Com todos esses elementos (que lembram essas teias ficcionais hiperbólicas em que é pródigo um Carlos Reichenbach) para organizar num todo coerente, não é de espantar que estejamos diante de um filme de exuberância barroca, em que a luz é marcada por contrastes radicais e a imagem, por panorâmicas de 360 graus, cenas inteiras compostas em espelhos retrovisores, uma câmera que se posta ora lá em cima, ora cá embaixo e que parece se abrir a todas as influências do mundo: Godard e Welles, Sergio Leone e o faroeste, Glauber Rocha e o cinema dito marginal.

Lírio Ferreira se entrega a sua arte com paixão. Ele filma o agreste pernambucano como quem fizesse um faroeste. Mostra o sentimento de seus atores (Luiz Carlos Vasconcelos e Aramis Trindade em particular) ocultando-lhes os olhos. Retrabalha o clichê das vinganças nordestinas até desfigurá-lo. Ele pinta as estradas secas do Nordeste buscando o mesmo ânimo de Welles ao descrever a fronteira EUA/México.

Aos poucos, a gama de contrastes se alastra, ocupa o filme: branco e índio, interior e capital, seca e água, misticismo e racionalidade, Sudeste e Nordeste. É em meio a essas tensões que "Árido Movie" instala seu protagonista, que, com justa razão, se vê perdido nesse espaço múltiplo, labiríntico, incompreensível, talvez absurdo em que se dá esse drama do subdesenvolvimento cavalar.

Drama que, não sem ironia, o filme vê se transformar, no Sul, em exposição de arte, tutelada pela imagem de Meu Velho, o místico picareta. Sabemos então que "Árido Movie" quer extrair dessa paisagem e de seus personagens uma imagem do Nordeste que seja verdade, não arte. Em poucas palavras: esse primeiro vôo solo de Ferreira é bem mais que animador.
 

Árido Movie
   
Direção: Lírio Ferreira
Produção: Brasil, 2005
Com: Guilherme Weber, Giulia Gam
Quando: a partir de hoje no Espaço Unibanco e no HSBC Belas Artes

(© Folha de S. Paulo)


Jonas: homem de um tempo

NOEMI JAFFE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Jonas , o protagonista de "Árido Movie", é homem do tempo, expressão carregada de possibilidades: homem do tempo pode ser, por exemplo, Deus; um meteorologista (caso do próprio); um filósofo; um guru.

Certamente, no filme, Jonas é homem de UM tempo, o de São Paulo -tempo de utilidades e certezas.
E é no Nordeste -no sertão árido onde morreu seu pai, pertencente a uma família de coronéis em que ainda prevalece a "vendetta"- que ele conhece um outro tempo. Ou melhor, vários.

O tempo do sol, da seca; o tempo que não passa, também do sol, mas igualmente da "vendetta"; o tempo dos índios, ameaçados de extinção literal e representados de forma agressivamente comovedora por José Dumont, o Zé Elétrico, que, num momento do filme, diz que vai sair para meditar, já que "o mundo tá transitando na contramão".

O sol de João Cabral
Dentro de um táxi, no Recife, Jonas, o homem do tempo, sussurra para um motorista que não o entende, praguejando contra o sol mormacento: "Sol de dois canos". É o sol de João Cabral de Melo Neto: "O sol em Pernambuco leva dois sóis/ sol de dois canos, de tiro repetido;/ o primeiro dos dois, o fuzil de fogo/ incendeia a terra: tiro de inimigo./ O sol em Pernambuco leva dois sóis,/ sol de dois canos, de tiro repetido;/ o segundo dos dois, o fuzil de luz,/ revela real a terra: tiro de inimigo".

E Jonas e o espectador deveriam então aprender que o sol, no Nordeste (pelo menos no sertão), é sempre inimigo. Mas não aprendemos, não.

Eu, pelo menos, me senti idêntica à personagem interpretada por Giulia Gam, Soledad, videomaker pseudo-intelectual que se deixa fascinar ingenuamente pelo discurso aforístico-sabido de Meu Velho, personagem interpretada por Zé Celso, líder religioso no estilo "Coração das Trevas", que diz frases como "isso aqui é e não é, mas está sendo".

Imagino que, se estivesse no lugar dela, cairia direitinho nas palavras dele e também o acharia lindo, sem fazer idéia de que ele faz parte da trama exploratória de água dos coronéis da região.

Mas, como ajuizadamente diz o nome do posto de gasolina de Zé Elétrico, Oposto, não tenho certeza se a ingenuidade é mesmo o pior desta história.

Talvez aqueles jagunços absurdos sejam tudo menos ingênuos, mas não sei se são o oposto disso. E muitas vezes acho melhor a credulidade do possível ao pragmatismo do factível.

Noemi Jaffe é escritora e professora de literatura, autora de "Folha Explica Macunaíma" (Publifolha) e "Todas as Coisas Pequenas" (Hedra)

(© Folha de S. Paulo)

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