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Abril Pro Rock: Grande peso ficou para o final

 

A francesa Camille que se apresentou no Abril Pro Rock

Abril Pro Rock fez, na noite de sábado, uma escalação primorosa de bandas, que começou com a mais levinha e terminou com carga total

WILFRED GADELHA

Podemos dizer que o Abril Pro Rock começou de verdade, sábado, para os headbangers, a partir das últimas bandas, embora todas as apresentações anteriores terem mandado muito bem o seu recado (ver matéria ao lado). Os alemães do Atrocity subiram ao palco 1 com o público ávido por peso. Teclados grandiosos prepararam a platéia, que foi às alturas quando a banda levou Reich of phenomena, com o refrão entoado a plenos pulmões. No fundo do palco, toda de preto, estava Liv Kristine, auxiliando o marido na tarefa de amaciar o som grotesco que saía dos PAs. A turba percebeu e a saudou.

O show do Atrocity é muito doido, na falta de uma palavra melhor. No melhor estilo Rapunzel, o vocalista Krull impressionava pelo domínio de palco e da platéia. Com uma bandeira do Brasil, fez aquele manjado mas eficiente elogio ao País. As músicas mais antigas também levantaram o público. Mais brutais, de fato mostravam como a banda mudou. Enigma e Cold black days deram prosseguimento às músicas de Atlantis, o último CD. Quando eles tocam mais porrada, lembram os medalhões do death metal. Quando apostam nos sons mais leves, chegam perto de Sentenced e Paradise Lost.

E os covers que eles tocam são realmente impensáveis para uma banda que ainda se denomina death metal. The great commandment, do Camouflage, e Shout, do Teas for Fears. Você imagina um monte de metaleiros cantando esse sucesso do “Tias Fofinhas”? Pois, eles cantaram, inclusive acompanhados pela voz maviosa de Liv, que pela primeira vez na noite, foi à frente do palco.

É importante ressaltar o fato de que o Leave’s Eyes nada mais é do que o Atrocity com Liv Kristine como vocalista principal. Sim, porque Alex Krull continua lá, como backing vocal. A banda volta ao palco 1 depois de uns 15 minutos de intervalo. E quando volta, já traz Liv com uma roupa vermelha, numa mistura de odalisca com Joelma da banda Calyspo. Figurinos à parte, a presença de palco da cantora norueguesa é tímida. Machismos à parte, o marido domina o palco e fala mais do que ela durante o show.

“Foi muito bom o ApR ter trazido o Atrocity e o Leave’s Eyes. Este ano, as bandas foram bem-variadas. Todo mundo teve alguma banda que gostasse. Agora só falta Paulo André trazer o Slayer”, apelou o músico Raionato Vilanova, 35 anos, caruaruense que vem ao festival desde 1993.

Ainda assim, os amantes do gothic metal se deliciaram. Passagens etéreas, partes orquestradas devidamente sampleadas e vocais suaves – os de Liv, porque os de Alex são cavernosos – criaram uma atmosfera peculiar ao estilo. Lovelorn, Vinland saga e a inédita Legend land, que será o título do próximo EP da banda, cativaram a platéia. Que não se cansou de aplaudir a loura.

O Angra, a última banda da noite, não é nenhuma novidade para os recifense. Deve ter vindo para cá pelo menos meia dúzia de vezes. Mas nunca para o Abril. “O festival foi consolidando a noite pesada. Já era hora de tocarmos aqui”, resumiu o guitarrista Rafael Bittencourt. Os paulistas estão fazendo os últimos shows da turnê do elogiado Temple of shadows. “Vamos nos preparar para gravar o próximo disco. Queremos que ele fique pronto em outubro ou novembro”, adiantou.

E foi o Temple of shadows a base do show. Músicas como Spread of fire, Wishing well e No pain for the dead agradaram à platéia, que cantou junto o tempo inteiro. O vocalista Edu Falaschi se esgoelava e, apesar de estar na banda há cinco anos, ainda rende comparações com o antecessor André Matos, hoje no Shaaman. Principalmente quando o Angra tocou clássicos como Evil warning, Carolina IV, Nothing to say e o ultramegahiper hit Carry on. Enquanto o público tentava alcançar as notas agudíssimas, o grupo se esmerava em mostrar sua virtuose. Principalmente o baterista Aquiles Priester, um verdadeiro monstro das baquetas, considerado hoje o melhor piloto de bateria de metal do Brasil.

O final foi apoteótico, pois os caras prepararam uma surpresinha para os fãs pernambucanos. Flight of Icarus, clássico absoluto do Iron Maiden, terminou de lascar milhares de gargantas com uma exibição impecável da banda, para o deleite dos fãs.

(© JC Online)


Bandas do palco 2 também mandaram bem seu recado

Apenas quatro mil pessoas, na estimativa dos organizadores do Abril Pro Rock, compareceram ao Centro de Convençõees, em Olinda, para prestigiar a segunda noite do festival, o tradicional sábado metal. Uma pena porque o cast escalado para o festival este ano deu conta do recado, animando o público pequeno, mas privilegiado por ter presenciado performances de respeito.

Ninguém que subiu ao palco 1, por exemplo, fez show ruim. Talvez o Leave’s Eyes tenha perdido um pouco o pique, mas nada que tenha comprometido a noite. No palco 2, inclusive, o Terra Prima – representante do metal melódico pernambucano – fez uma excelente apresentação, dando um grande passo para a consolidação de sua carreira.

A noite começou às 17h55 com as meninas baianas do Lou. O público era reduzido e os esforços do quinteto soteropolitano em esquentar o pavilhão foram em vão. Tudo bem, em cima do palco a banda se comportava como se fosse uma final de campeonato: guitarras pesadas, letras contestadoras e um pezinho no new metal.

Já os Forgotten Boys, banda paulista de rock’n’roll sujo no talo, voltou ao palco 1 depois de dois anos. O show de sábado foi melhor do que o de 2004. Começaram logo com a música-título do último disco, Stand by D.A.N.C.E., abrindo a primeira roda de pogo do festival. Pequena comparada àquelas protagonizadas por Devotos ou RDP, mas ainda assim um sintoma de que nem todos que estavam ali queriam heavy metal. “O público gostou porque estamos mais experientes. Nos profissionalizamos e a resposta tem sido muito boa. Não somos ligados a nenhuma cena em particular, punk ou metal, mas parece que o pessoal gostou do nosso show”, salientou o vocalista Gustavo. “Íamos tocar um cover de Gimme Shelter, dos Rolling Stones, mas o tempo tava muito curto”, completa. Da outra vez, os Forgotten Boys apareceram com uma versão de Ace of Spades, do Motorhead - banda que, segundo o produtor do APR, Paulo André Pires, está em negociacão para tocar no Recife, em outubro.

(© JC Online)


Público pequeno e muito calor eletrônico

SCHNEIDER CARPEGGIANI

Estranho não foi só o Abril pro Rock ter resolvido ceder sua noite de estréia, a sexta-feira passada, para a música eletrônica dançante. Mais estranho ainda foi ver o megafestival convertido num esfumaçado e divertido clubinho. Se a produção esperava transformar o Centro de Convenções numa pista de dança para 5 mil pessoas, apenas mil compareceram.

Como nenhum dos dois palcos foi utilizado, e os shows rolaram num palquinho especial, cercado por luzes de boate e mucho gelo seco, o povo foi se chegando, formando uma enorme “almôndega”, e evitando que o Centro de Convenções parecesse “aquele” vazio. O clima era de festa em casa do amigo.

A cearense Montage e a dupla alemã Kook and Roxxy recuperam o esdrúxulo e os teclados anos 80 do electro, como se estivéssemos ainda em 2003. Fazer dance music é perigoso: esse é um gênero que se reinventa muito rápido, porque a cultura da noite é feita de novidade, do não olhar para o passado recente. Para piorar, nenhuma das duas consegue fazer uma melodia minimamente decente, ficando para a performance de palco todo o “trabalho sujo” de segurar o show. Sim, foi (hummm) curioso ver Roxxy se esfregando com a bandeira brasileira ou o vocalista do Montage arriando as calças, mas piada alguma se sustenta por meia hora.

A entrada de Brezel Göring e Françoise Cactus, do Stereo Total, nos salvou da aflição inicial. A dupla franco-alemã fez um show perfeito, em que cada música criava um clima único. Durante uma hora, tivemos My way em francês, uma palhinha do R&B velha guarda do Salt’n’Pepa e uma lista de astros clássicos do cinema sussurrados pela supercool Françoise. No finalzinho, eles cantaram em português o hit L’amour a trois, fazendo o povo berrar o verso “amor, amor à três” cheio de lascívia. Os dois se despediram com “metade” da platéia dançando no palco.

O DJ norte-americano Diplo entrou e “quebrou tudo”. A base do seu set foi uma batida funk, grave, suja, que passou por Hot Chip, Mylo, Kanye West, Madonna, New Order e terminou com Nação Zumbi. Foi quando o APR virou uma enorme massa suada.

O projeto Bloco Mega Hits, parceria do DJ Dolores com a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, tem uma ótima idéia: fazer bootlegs ao vivo com clássicos radiofônicos, como I will survive. Mas a orquestra errou muito o tempo das músicas, fazendo do show um descompasso geral. Como essa foi só a estréia do Mega Hits, é possível que logo, logo ele mostre seu real poder de fogo.

A madrugada já ia alta quando o projeto Mullet, de Igor Cavalera e João Gordo, começou a tocar para uma platéia bem reduzida, que estava mais interessada em relaxar e entender essa estranha e divertida noite em que Abril pra Eletrônica. Que venham outras!

(© JC Online)

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