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O mundo feliz do bom baiano Carybé

 

Mostra com mais de 500 obras reúne a irreverência do artista, um argentino que adotou Salvador como a cidade do coração

Camila Molina

O tempo vai filtrar o que é bom e ruim na produção de Hector Julio Paride Bernabó, o Carybé (1911-1997), como diz o diretor do Museu Afro-Brasil, Emanoel Araújo. A instituição inaugura hoje uma ampla mostra com as obras desse artista que nasceu na Argentina, mas desde a década de 1930 escolheu o Brasil como morada, mais precisamente a Bahia, e nela se encantou com o universo miscigenado de Salvador, com a religiosidade de raízes africanas, com sua cultura que carrega uma ancestralidade - tanto que trocou seu "pomposo nome de batismo, argentino, por outro que significasse seu espírito", nas palavras de Araújo. "A obra de Carybé é registro do ponto de vista da antropologia, registro do universo negro que a gente insiste em não ver porque cultuamos o que é europeu", defende ainda Araújo.

Segundo o diretor do museu e curador da mostra O Universo Mítico de Hector Julio Paride Bernabó, o Baiano Carybé, essa grande exposição com mais de 500 obras - entre ilustrações, pinturas, objetos, esculturas -, a maior já realizada depois da morte do artista, não se trata de uma retrospectiva. Emanoel Araújo, também artista e baiano de natureza, tinha "envolvimento emocional" com Carybé, personalidade simples, alegre e contagiante daquelas rodas da Bahia - do círculo do escritor Jorge Amado, do compositor Dorival Caymmi, da casa de Pierre Verger e tantos outros criadores. Mas, principalmente, não se trata de ser uma mostra retrospectiva porque mostras com esse caráter podem "congelar" um artista e no caso de Carybé o recuo de tempo ainda é necessário, com o tempo essa produção "vai clareando", diz Araújo. No sábado, às 15 horas, será realizado no museu um debate sobre Carybé.

O grande ilustrador dos livros de Jorge Amado e de edições de Gabriel García Márquez (entre as obras do colombiano, ilustrou o premiado Cem Anos de Solidão), das cartas de Pero Vaz de Caminha, entre outros, também era homem literato e espécie de cronista da vida em Salvador, principalmente de seu povo "mestiço, cordial, civilizado, pobre e sensível" que habita aquela "paisagem de sonho", nas palavras de Amado. Com a simplicidade e estilização de seu traço e com o tratamento cuidadoso de colorista, Carybé se enredou por caminhos muito diversos da criação, foi pintor, gravador, desenhista, ilustrador, mosaicista, ceramista, entalhador e muralista.

Em suas obras está a paisagem da cidade, os rituais do candomblé documentado, a iconografia dos deuses africanos da Bahia, as mulheres estilizadas - de perfil e com grandes saias - ou, muitas vezes, são pessoas representadas por puro grafismo, tudo, enfim, "representações simbólicas e míticas, resultado de sua vivência e sua dedicação", como define Emanoel Araújo. Para aqui encaixar uma história, vale dizer que Carybé morreu aos 86 anos, de enfarte, quando participava de uma reunião no terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, no bairro de São Gonçalo do Retiro. "Não poderia Carybé morrer numa cama como um pobre moribundo. Ele tinha que ser fiel como viveu: absolutamente livre, feliz, irreverente."

A idéia de agora realizar essa exposição surgiu a partir de sua visita, no ano passado, ao ateliê de Carybé, em Salvador, que está intacto desde a morte do artista. "Parecia que ele chegaria a qualquer momento", conta Emanoel. Por isso não se trata de uma retrospectiva: é como se o artista pudesse estar "vivo e com dúvidas", apresentado em seus momentos de altos e baixos - enfim, um homem. Tanto que podemos encontrar na mostra objetos que pertenciam a ele além de sua obra - e, para representar sua faceta de viajante, no Museu Afro-Brasil também estará o mapa-múndi repleto de alfinetes de pontas vermelhas que Carybé fincava nos pontos do mundo que conheceu e registrou. Grande parte das mais de 500 peças reunidas pertencem à família do artista, à sua mulher Nancy. Como conta Emanoel, a família de Carybé pretende criar um instituto para abrigar e preservar sua obra.

(SERVIÇO)O Universo Mítico de Hector Julio Paride Bernabó - O Baiano Carybé. Museu Afro Brasil. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Pq. do Ibirapuera, portão 2, pavilhão da Bienal. 10 h/18 h (fecha 2.ª). Grátis. Até 2/7. Abertura hoje, às 19 h

(© Agência Estado)

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