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A volta do romântico

Claudionor Germano

Claudionor Germano grava disco cantando a dor-de-cotovelo de músicas compostas por Antônio Maria

JOSÉ TELES

Os contatos de Claudionor Germano com o conterrâneo Antônio Maria foram breves, e pouco receptivos por parte deste último. Em 1957, Claudionor tomou a iniciativa de inscrever num concurso carnavalesco, no Recife, Frevo nº 3, de Antônio Maria, que tirou o primeiro lugar no certame promovido pela Prefeitura da Cidade: “Mandei o dinheiro do prêmio para ele, mas nunca nem sequer me agradeceu”, afirma o intérprete. A segunda vez que Claudionor esteve com o autor de Ninguém me ama, aconteceu na última visita de Antônio Maria ao Recife. Encontraram-se na casa de um amigo comum. Trocaram umas poucas palavras. Isso, entanto, não impediu que Claudionor Germano continuasse a gostar do compositor: “Admiro muito, apesar de uma tristeza quase permanente. Nota-se que ele sofreu por amor, e mesmo assim, fez coisas tão bonitas”, comenta Claudionor Germano, que pretende, este ano, gravar um disco inteiro com composições de Maria.

“A idéia me veio depois de ler uma biografia dele. Selecionei as músicas, fui conversar com Eurico Araújo, sobrinho de Antônio Maria, que ficou muito contente com este projeto”, conta Claudionor, que saltará o projeto anteriormente anunciado de lançar um disco de canções. Seria uma forma de mostrar que canta outros gêneros além do frevo: “Não será nenhuma novidade para mim. Comecei cantando músicas românticas. O frevo foi entrando na minha vida quase que como uma brincadeira. Quando existia frente de trabalho para músicos da terra, reuniam-se TV e rádios para escolher os melhores do ano. Fui hexa, como o Náutico, o meu time. Ganhei por seis anos o título de melhor do ano, e cantando músicas românticas”, conta.

No ano que vem, Claudionor Germano completará 60 anos de carreira, contando a partir de sua contratação pela Rádio Clube de Pernambuco como vocalista do conjunto Ases do Ritmo, em 1947. Mas ele, já aos 12 anos de idade, fazia apresentações na Legião Brasileira de Assistência. Sua grande chance aconteceu em 1945, por acaso, no palco do Teatro Santa Isabel, onde estava programado um show com Orlando Silva, o maior ídolo do rádio na época, em homenagem aos pracinhas da Segunda Guerra Mundial. O cantor, no entanto, foi obrigado a se atrasar. O assédio dos fãs na Rua da Concórdia foi tanto que ele acabou com as roupas rasgadas e teve que se trocar para a apresentação. Claudionor estava no Santa Isabel para ver seu ídolo e lhe pediram que fosse para o palco enquanto Orlando Silva se preparava: “Cantava com a orquestra, a música Vistas do Brasil. De repente, sinto uma mão em meu ombro e aquela voz. Quase perco a fala. Era Orlando Silva, cantando a meu lado”, relembra Claudionor Germano, na sala de seu apartamento no bairro de Boa Viagem.

REPERTÓRIO – Entre as composições de Antônio Maria (com parceiros) pré-selecionadas por ele, estão Suas mãos, Portão antigo, O amor e a rosa, A canção da volta, e outras mais conhecidas, como Manhã de carnaval, Valsa de uma cidade, e a triologia de frevos-de-bloco compostas para o Recife, já gravadas pelo cantor: “Será um disco independente, com um conjunto pequeno no acompanhamento. Espero contar com uma pessoa que reputo como uma das maiores autoridades do Brasil em música, (o maestro) Clóvis Pereira”.

Com direção musical de Clóvis Pereira, Claudionor Germano lançou, pelo selo Mocambo, em 1960, um de seus mais elogiados trabalhos, Samba de Capiba, disco que surpreendeu aos que só o conheciam como intérprete de frevos. O álbum, fora de catálogo há décadas, traz 12 faixas, entre elas a mais conhecida A mesma rosa amarela (com o poeta Carlos Penna Filho), confirma o talento do cantor para os mais diversos gêneros (e a multiplicidade de Capiba como autor). O que de resto Claudionor ratificou várias vezes, inclusive nos badalados festivais de música popular dos anos 60.

Com música, Claudionor conta que faturou mais prestígio: “Sempre tive outras ocupações. Fui vendedor de bebidas e representante comercial. Com disco, ganhei muito pouco”, uma surpresa para quem gravou dois dos títulos mais vendidos da história da música pernambucana: Capiba 25 anos de frevo, e O que eu fiz e você gostou, este último com composições de Nelson Ferreira. Ambos são reeditados até hoje, sem que o cantor seja sequer consultado: “Já perdi a conta de quantas tiragens foram feitas desses discos. Tenho vontade de entrar com uma ação, ao menos para preservar minha imagem, porque colocam todo tipo de foto sem pedir autorização”.

(© JC Online)

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