A recente
apresentação da ópera Carmen, de Bizet, por uma companhia formada
exclusivamente por pernambucanos, faz lembrar a tradição do Estado nesta
arte
Por Flora Guedes
As cenas marcantes de Carmen, de Georges Bizet, ainda povoam as mentes dos
pernambucanos que compareceram ao Teatro de Santa Isabel, no final do ano
passado. Não só porque se trata de uma da óperas mais bem escritas e
encantadoras da cultura universal. Nem por ter sido encenada, pela primeira
vez na História, por uma companhia formada exclusivamente por músicos e
cantores pernambucanos, a Cia. Operários. Mas pela soma disso tudo e porque
Pernambuco tem um passado de ópera.
Os escassos registros sobre o assunto podem ser um dos motivos que tornaram
esse passado de efervescência cultural pouco conhecido dos próprios
pernambucanos. Uma das raras pesquisas data de 1850 a 1882 e se refere
apenas ao movimento de recepção de espetáculos dramáticos no Teatro de Santa
Isabel (dissertação defendida pelo músico e professor da Universidade
Federal de Pernambuco José Amaro dos Santos). E é o próprio Santa Isabel,
teatro projetado especialmente para receber essa arte dramática, o ponto de
partida dessa matéria.
Construída em 1850, a opera house oferecia a estrutura exigida pelas
companhias européias: fosso para orquestra sinfônica, acústica apropriada e
requinte. “A ópera foi moda na Europa desde o século 17, e com a chegada de
Dom João, em 1809, vamos ter o primeiro teatro no Rio de Janeiro. E claro
que as províncias copiaram isso, então se construíram teatros em Manaus,
Pernambuco e Salvador”, contextualiza a historiadora e professora da UFPE,
Bartira Ferraz.
Antes do Santa Isabel, os dramas musicais aconteciam na Casa da Ópera,
construída no século 18 e que funcionava à Rua do Imperador. Segundo Samuel
Campelo, a primeira apresentação com nome de ópera acontece em 1822, “mas
não fica bem esclarecido se foram três óperas ou três récitas”, afirma o
escritor e historiador Leonardo Dantas. “Na Casa da Ópera passaram grandes
artistas, dentre eles, o Pedro Caetano, patrimônio do teatro nacional, homem
festejado, que aqui esteve durante a execução de Frei Caneca, em 1825.
Também há depoimentos sobre decoração e divisão interna do local segundo os
viajantes Henry Poster e Tolenar”, pormenoriza o pesquisador. Depois da Casa
de Ópera, um grupo de pernambucanos cria a Sociedade Harmônico-Teatral, que
veio dar lugar ao Teatro Apolo (1842), espaço que entrou em decadência com a
construção do Santa Isabel.
“Em 1858, veio a companhia de Giuseppe Marinangelli, primeira que se
apresentou integral e à caráter, no Santa Isabel. Ela trouxe a ópera de
Bellini, Impuritani”, conta José Amaro. “Graças ao seu porto favorável,
entre outras atrações, o Recife recebeu companhias italianas, francesas e
espanholas (zarzuelas). Já por volta de 1881, se apresentaram aqui
companhias inglesas”, acrescenta ele.
De acordo com o professor, o teatro era o motivo mais forte para atrair as
companhias estrangeiras que chegavam em Pernambuco, depois de cumprirem um
roteiro de apresentações no continente sul-americano. Pelo Rio da Prata elas
subiam até a Corte (agora de Dom Pedro II), no Rio de Janeiro e o percurso
seguia fazendo paradas nos portos de Salvador, Recife e Belém (depois de
1878, quando foi inaugurado o Teatro da Paz). “Havia uma movimentação
cultural em torno do Santa Isabel. Os empresários divulgavam as
apresentações no Diario de Pernambuco e no Jornal do Recife, além de alguns
folhetins que eram inseridos nos jornais destacando óperas e cantores”,
detalha José Amaro.
Na época, o Recife era uma pequena cidade, mas já contava com uma grande
imprensa. “Era a terceira maior cidade da América portuguesa, onde se
divulgavam notícias nacionais e internacionais e sobre as Artes. A gente
teve um grupo de cartunistas e artistas plásticos famosos, à exemplo de
Carneiro Vilela, que vão ilustrar cerca de 400 títulos de jornais que
circularam aqui no final do século 19”, conta Bartira Ferraz.
Só no século 20 é que autores brasileiros vêm aos palcos do Santa Isabel.
Izaht, de Villa-Lobos, Tiradentes, de Eleazar de Carvalho, além de Oscar
Lourenço Fernandes com sua Malazarte, foram algumas das óperas que chegaram
ao Recife nas décadas de 30 e 40. “A ópera que se desenvolveu no Brasil foi
muito importante, agregando artistas e músicos nacionais. Ela reúne pelo
menos 10 grandes nomes, desde Leopoldo Miguez, um dos mais antigos do século
19, a Alberto Nepomuceno, Delgado de Carvalho, Assis Pacheco, Carlos Gomes,
Villa-Lobos, entre outros”, elucida Bartira Ferraz.
É, também, no começo do século 20, que começam a chegar em Pernambuco
companhias judaicas. As óperas, esquetes e quadros que elas apresentavam
tratavam de temas estritamente sobre judeus (embora tivessem apresentado
aqui Rei Lear, de Verdi) e faziam parte de um movimento que teve origem em
Manhattan, no final do século 19. A vinda das companhias coincide com o
momento de dispersão dos judeus da Europa, que precisavam sair da Romênia,
Hungria, Polônia e da Alemanha, depois do recrudescimento das perseguições e
que vai culminar, pouco mais tarde, no Nazismo.
As duas grandes guerras mundiais levaram a uma queda de poder aquisitivo da
sociedade do mundo ocidental. E isso vai se refletir na vinda de companhias
de ópera para cá. Pernambuco, com suas bases fincadas na cana-de-açúcar, já
sofria, desde os séculos 18 e 19, concorrência com os produtores da América
Central.
A chegada do cinema também contribuiu para o declínio da ópera em
Pernambuco, no século 20. “As fitas americanas, que traziam, inclusive,
óperas e operetas filmadas, tinham custos baixíssimos de exibição. No
período pós-guerra, você vê os teatros virando cinemas, como aconteceu com o
Teatro Moderno”, diz José Amaro. “Culpa-se muito o cinema pelo declínio da
ópera, mas a gente não pode fazer isso porque o cinema vai ser uma arte
destinada às massas, ao contrário da ópera, que sempre teve uma estrutura
extremamente hierárquica e estratificadora”, discorda Laura Buarque. Para a
historiadora Barptira Ferraz, a decadência também está vinculada ao
nascimento de outras artes e formas de comunicação.”Passam a surgir em
Pernambuco pequenos grupos de artistas e intelectuais, produzindo cinema
local, poesia, fotografia, dança e teatro, não mais com aquela idéia
européia de grandes companhias. E a música também ganha outra dimensão”.
De acordo com Leonardo Dantas, a ópera também teve em Pernambuco uma grande
influência nas manifestações culturais. Para ele, a ópera tem presença na
nossa música popular, no nosso carnaval. Outro registro remonta a época da
colonização, quando se teve no Brasil a presença do teatro cantado, uma
forma dos portugueses inserirem os índios na “civilização”, através da
teatralização de histórias religiosas. O mundo indígena foi aproveitado
pelos jesuítas, que compuseram letra por letra das canções em tupi, língua
mais falada no Brasil até o século 18. “É uma espécie de ópera, sim, porque
é o mesmo sistema. Tem o corpo de balé, de dança, de artistas, atores,
cantores e músicos. É a mesma estrutura da ópera do século 19. E isso é bem
documentado por Anchieta”, justifica Bartira. “Então a gente tem uma
história de ópera desde o período colonial até a história contemporânea em
Pernambuco”, conclui.