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O estudioso nigeriano Félix Ayoh´Omidire mapeia a expansão da tradição iorubana pelo mundo Por Ana Cristina Pereira A baiana de acarajé com seu tabuleiro convidativo é um dos elementos que chamam a atenção dos turistas na paisagem soteropolitana. Se o visitante é africano e de origem iorubana, como o lingüista e professor Félix Ayoh''Omidire, o interesse é maior ainda. "A primeira coisa que queremos fazer na Bahia é provar o acarajé", brinca o estudioso nigeriano, especialista na língua e cultura iorubá, que está há quatro anos em Salvador. O àkàrà, comida consagrada ao orixá Iansã e devidamente incorporada na baianidade, serve como boa ilustração dos estudos desenvolvidos por Félix, que se empenha em historiar, mapear e divulgar a expansão da tradição iorubana pelo mundo. Trazidos para o Brasil e para países como Cuba, Haiti, Trinidad Tobago, Porto Rico e Estados Unidos, os negros de origem nagô construíram o que Félix chama de "Atlântico yorubano", numa releitura do conceito de Atlântico Negro, do sociólogo inglês Paul Gilroy. A tarefa de Félix, de aproximar os dois lados do Atlântico iorubano, não é fácil. "Apesar do orgulho que o baiano tem de sua herança africana, aqui pouco se sabe sobre a África. É vergonhoso", lamenta o estudioso, que tem dado aulas de língua e cultura iorubá no Ceao - Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba -, desde que chegou a Salvador, em 2002. Ele diz que o desconhecimento perpetua visões equivocadas, como a de um continente homogêneo ou, quando se trata do iorubá, limitado à questão religiosa. "Nossa cultura não se limita aos orixás", reforça. Félix chama a atenção para a complexidade do Ifá, o sistema filosófico do povo iorubano. "O Ifá tem vários outros aspectos além do esotérico. Trata de filosofia, mitologia, matemática, história, artes, ciência... É um sistema completo", explica Félix, lembrando de seu tombamento como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco. Segundo o professor, o que aconteceu na Bahia e no Brasil, a exemplo de outros países, foi a supremacia de seu aspecto religioso. Em seu trabalho, Félix luta justamente para fazer a informação circular, desfazendo estes e outros estereótipos. "Tem enganos que temos que fazer de tudo para corrigir", afirma o estudioso, autor dos livros Àkögbádùn: ABC da língua, cultura e civilização iorubanas e Pèrègún e outras fabulações da minha terra, ambos publicados pela Edufba. O último, lançado em março passado, dá um passo a mais ao entrar no terreno da ficção e apresentar um conjunto de contos que traduzem, literariamente, a visão de mundo iorubá-africana (ver boxe). A experiência baiana de Félix contribuiu para a formatação de sua tese de dotourado, defendida ano passado no Instituto de Letras da Ufba. Com o título Yorubanidade mundializada, deve ser lançada em julho, pela Fundação Palmares, dentro do Congresso Internacional dos Intelectuais da Diáspora Negra, que será sediado em Salvador. "Meu estudo mostra esta mundialização da cultura iorubana, em sintonia com pesquisadores como o professor Waendê Abimbola, um dos maiores especialistas do assunto no mundo", afirma. Natural da cidade sagrada de Ilé-Ifè, Félix é professor de línguas e estudos culturais da universidade nigeriana de Obafemi Awolowo, que mantém intercâmbio com a Ufba. "Apesar do acordo datar de 1969, as trocas são muito tímidas. Acredito que se existissem ações mais completas, esta lacuna seria vencida em poucas décadas", afirma Félix. Ele destaca como ação positiva a Lei Federal 10.639 - que prevê o ensino de história e cultura africanas nas escolas brasileiras -, para a qual tem prestado assessoria. "Como toda lei a intenção é boa, mas depende da agência humana", pondera o estudioso, que terá seu livro de contos reimpresso e incluído no programa de distribuição do governo. Em agosto, Félix retorna à Nigéria. Antes, tem alguns compromissos baianos, a exemplo das comemorações do aniversário de criação da União Africana, dias 25 e 26 de maio. Nesta data, acontece no Ceao o evento A África no Imaginário dos Brasileiros, que reunirá vários estudiosos e contará com a exibição de filmes. "Será um momento de diálogo intenso, pois é educando que a gente se educa", pondera. Contos para preservar a memória Os contos reunidos por Félix Ayoh´Omidire em Pèrègún e outras fabulações da minha terra (Edufba) encontram paralelos brasileiros. Sobreviveram fragmentários em relatos dos escravos e seus descendentes ou se conservaram nos terreiros de candomblé de origem nagô, principais núcleos de divulgação da cultura iorubá. "De modo geral, o gênero de contos se tornou uma das marcas da preservação da memória coletiva dos negros nas sociedades afro-americanas", anota Félix, no texto introdutório do livro. Quem ajudou o escritor a enxergar esta aproximação foi o artista plástico e sacerdote baiano Mestre Didi, que se dedicou ao resgate e publicação de vários contos afro-baianos. Em 2001, ao fazer um curso na Universidade do Benin, Félix conheceu uma tradução francesa de uma coletânea de contos recolhidos por Mestre Didi. "Pareciam familiar, mas ao mesmo tempo eram distantes", recorda. Entre outras transformações, não traziam as cantigas introdutórias, que oferecem um resumo do enredo, e suas narrativas estavam vinculadas à parte religiosa do Ifá. "Foi o que se preservou no Brasil", constata Félix. Uma vez na Bahia, ele leu todos os livros de Mestre Didi, o conheceu pessoalmente, trocou muitas idéias e resolveu "complementar" seu trabalho. Daí nasceu a idéia de Pèrègún, fabulações da minha terra, que traz o subtítulo Contos cantados iorubá-africanos. As histórias tratam de temas variados e, como é tradição nas fábulas, trazem lições moralizantes, são recheadas de elementos mágicos e animais encantados. "São histórias sedimentadas, que passam ensinamentos, e que ouvia dos mais velhos na infância", afirma Félix, que costuma contá-las com acompanhamento musical, como manda a tradição. Por isso fez questão de manter as cantigas introdutórias em iorubá. Estes contos, informa, se mantêm vivos na Iorubalândia, região da África Ocidental que abrange a Nigéria - tendo como centro a cidade Ilé-Ifè - Benin, Togo, Gana e Serra Leoa. E passam de geração a geração, valendo-se, inclusive, de meios contemporâneos de comunicação, como a tevê e o rádio, em sua divulgação. O único conto de autoria de Félix é A gratificação da vendedora de acarajé, no qual ele cria uma origem simbólica para a iguaria, fazendo a ponte África-Bahia. Segundo a história, uma mulher estéril e de má sorte nos negócios teve sua vida transformada, a partir do momento em que ofereceu um ebó a um orixá com bolinhos preparados à base de feijão e azeite-de-dendê. Dito e feito, ela não só cumpriu a promessa, como passou a vendê-los nas ruas da cidade, ganhando dinheiro, fama e a bênção dos orixás, que a presentearam com um casal de ibejis (gêmeos). "Para os iorubanos, eles são símbolo de graça e riqueza, e se alguém em dificuldade concebe gêmeos é sinal que vai prosperar. Bem diferente da cultura ocidental", compara. *** Livro: Pèrègún e outras fabulações de minha terra (Contos cantados iorubá-africanos) Autor: Félix Ayoh''Omidire Editora: Edufba Preço: R$25 (188 páginas) |
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