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PercPan volta às origens musicais

F. Villemin, 05.06.2005

O Nação Zumbi (que na foto aparece no Art Rock 2005) encerrou o Percpan deste ano'

Curador Marcos Suzano coloca os projetos percussivos na linha de frente do festival, sem esquecer o intercâmbio multi-étnico

JOSÉ TELES
Enviado especial

SALVADOR – A 13ª edição do PercPan, festival que acontece em Salvador desde 1994, voltou às origens com a percussão predominando na progamação, que nos últimos anos recebia críticas pela supremacia de artistas pop, a exemplo de Adriana Calcanhoto, uma das atrações de 2005. Este ano, apesar do elenco reduzido, no sábado e domingo, o público testemunhou no Teatro Castro Alves sons do Japão, Itália, Porto Rico, França, indo-britânico e brasileiros (Bahia, Rio, e Pernambuco).

A Bacia Sonora, projeto do percussionista Gustavo de Dalva, abriu o festival na noite do sábado e foi também a mais fraca atração do evento. Revelação da percussão baiana, Gustavo de Dalva mostrou um espetáculo amador, com uma confusa mistura de teatro, música e dança que não chegou a canto nenhum, nem mostrou porque ele é tão elogiado.

Exatamemente o contrário do italiano Carlos Rizzo no seu show com Paul Bungadil, uma aplaudida e eletrizante amostra das diversas possibilidades do pandeiro (vários modelos, alguns criados por ele), indo da música tradicional italiana a levadas indianas e egípcias.

Esta mescla de sons de etnias diversas, e a cada vez maior utilização de programações eletrônicas, vem se impondo como tendência na percussão mundial. Globalização que fez com que os indianos da Dhol Foundation (formado por descendentes da segunda geração de indianos nascidos na Inglaterra), se valessem de loops, samplers, bases pré-gravadas e tradicionais instrumentos indianos, uma química que agradou, tornando-se a atração mais aclamada da noite, junto com o porto-riquenho Giovanni Hidalgo, virtuoso da conga, mas que fez um show meio cansativo. Sozinho no palco, apenas ele e suas congas, durante 40 minutos. A noite terminou com Pedro Luís e A Parede, tocando suas canções mais conhecidas, com uma formação reduzida, e destoando da proposta do festival, já que o canto predminou sobre a percussão.

Marcos Suzano, diretor musical do evento, depois de uma quebra-de-braço no ano anterior com o curador Hermano Vianna, que fez o festival dar uma guinada brusca na direção da world music mais digestiva, recebeu carta branca da produtora Beth Cayres e fez o festival da forma como pretendia.

A percussão no Brasil esconde-se por trás de shows de estrelas do mainstream e não permite, a não ser em ocasiões especiais como esta, conhecer o trabalho do percussionista carioca Siri. Ele já participou de gravações de nomes feito Daniela Mercury, Baseado em Blues, Bossacuca Nova, mas só mostrou até onde vai suas experiências no PercPan. Foi um show perfeito, com um cenário formado por uma carcaça de fusca, que não estava ali apenas como decoração. O velho fusca foi usado como instrumento de percussão. Com quatro percussionistas e mais violino, celos e uma parafernália que ia de pandeiros a baldes com água e uma serra elétrica. Nada aleatório, uma sinfonia de ruídos, barulhinhos bons.

Com mais de mil (sic) gravações feita com nomes que vão do lendário regional de Canhoto até o baiano Carlinhos Brown, Jorginho do Pandeiro e o filho Celsinho fizeram uma pequena demonstração do que pode um pandeiro, pena que tenha sido curta, quase uma vinheta para a entrada do francês, de descendência antilhana, Mino Cinelu. Um performer. O ex-músico da banda de Miles Davis tirou sons de tudo que viu pela frente, de um piano ao assoalho do palco. Com bases pré-gravadas, tocou uma “crazy rumba”, música traidicional da martinica, mas ficou muito mais no malabarismo percussivo, o que agradou à platéia.

A diversidade sonora chegou ao ápice com o grupo do baterista janponês Takashi Numazawa. Com violino, guitarra e baixo, mais o pandeiro de Suzano, eles entraram numa longa jam session de 50 minutos, incursionando por ritmos variados, do puro rock ao progressivo, passando pelo samba, num moto contínuo que lembra uma montanha russa de sons em velocidade estonteante.

E por fim o Nação Zumbi. A banda fez uma apresentação curta (cada atração tinha direito a no máximo uma hora de palco). A Nação é hoje uma banda que não tem fãs, tem acólitos. Mal o grupo tocou a primeira música, a platéia já esquecia as rígidas normas do Castro Alves, que proíbe, entre outras coisas, a dança. Dançaram até o final, num show com canções pinçadas da discografia da banda, mas enfatizando a percussão. O público queria mais, mas o grupo teve que terminar com Manguetown.

(© JC Online)

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