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No segundo disco, o grupo foi fundo na busca de possibilidades sonoras,
lembrando a primeira e melhor fase de Os Mutantes Guardadas as devidas proporções, a Mombojó, lembra Os Mutantes, da primeira fase. Assim como Sérgio, Arnaldo e Rita Lee, começaram ainda adolescentes (o baterista Marcelo Campello estava com 14 anos quando tocou pela primeira vez no Abril pro Rock). Felipe S, Marcelo Machado, Marcelo Campello, Samuel, Chiquinho, Rafa e Vicente Machado lançaram um elogiado primeiro disco com muita energia juvenil, mas um trabalho imaturo (ao contrário de Os Mutantes, que tiveram Caetano, Gil e Rogério Duprat para as devidas orientações estéticas e técnicas). Com Homem-espuma o segundo álbum, o grupo amadureu e, como Os Mutantes, largou-se nas experimentações e descobertas sonoras. O disco, que chegou esta semana, às lojas é mais bem resolvido do que o anterior e surpreende pela variedade de timbres, instrumentos, e artifícios, a maioria engendrada no desenrolar das gravações. “A gente fez todas as maluquices que veio à cabeça. Foi um grande aprendizado trabalhar neste disco”, diz o guitarrista Marcelo Machado. O arquiteto do som da Mombojó é o discreto tecladista Chiquinho: “Felizmente, o mais organizado do grupo”, elogia Marcelo. Chiquinho pilota de Wurlitzer a Hammond, de Mini moog a Alpha Juno, de Rhodes a Prophet 5, com uma habilidade de um veterano. “No outro disco a gente simulava estes sons. O que não é nunca a mesma coisa quando você tem o instrumento no estúdio”, diz Felipe S, vocalista e principal compositor. “O trabalho ficou mais descentralizado”, conta Marcelo Machado. Todo mundo participou mais diretamente, inclusive nas composições: “No primeiro disco já cheguei com as músicas prontas. Agora grande parte das música foi feita com parcerias”, lembra Felipe S. Entre os parceiros estão o guitarrista ubíquo e instigado Fernando Catatau e China, companheiro do projeto Del Rey. A facilidade proporcionada pela Trama estendeu-se até aos convidados do disco. Na faixa Realismo convincente o grupo fazia uma citação a Tô (Tom Zé e Elton Medeiros, do disco Estudando o samba). A turma do Mombojó esbarrou com Tom Zé casualmente nas dependências da gravadora: “Contei que a gente colocava uma citação da música no disco, e ele se propôs a fazer uma participação na gravação”, conta Felipe (a faixa tem também participação de Daniel Beleza). A maior quantidade de horas de estúdio deixou a banda livre para ousar com a parafernália encontrada no estúdio. Um bom exemplo, é a faixa Tempo de carne e osso, que começa suave, com a angelical participação de Céu (sugerida por Lúcio Maia), termina com um ruído caótico extraído de um kaos pad, manejado, com os pés, durante quase uma hora, por Felipe S e Lúcio Maia (Nação Zumbi). Uma boa parcela a variedade de barulhinhos bons deve ser creditada a Ganjaman, do projeto Instituto, que assina a produção de 11 das 14 faixas do disco (as outras três foram produzidas por Lúcio Maia). “Continuamos sem pretensões, deixamos aberto para as perspectivas que forem surgindo. A gente sabe que a responsabilidade do segundo disco é grande. O mais importante de tudo é que o grupo manteve suas características”, diz Felipe S. Uma dessas características é disponibilizar as faixas para download no site da banda (www.mombojo.com.br). Banda de ascensão meteórica, a Mombojó soube se segurar no meio da badalação que a envolveu, e continua com os pés no chão: “Acho que a gente é uma banda de sorte”, opina Felipe S. Sorte que parece estar escrita nas estrelas. Felipe tocava na Play Damião quando participou da derradeira noite da Soparia. A Play Damião tocou também na estréia do Pina de Copacabana, que marcou o começou de uma nova fase na nova música pernambucana. Um disco cuja marca é a total imprevisibilidade Se o produtor quisesse imprimir uma estética retrô requintada ao Mombojó não teria conseguido com tanta perfeição. O grupo neste Homem-espuma soa como esquecidas bandas do psicodelismo brasileiro dos anos 60 (Mutantes, Grupo Mercado, Bangos, Uns da Bahia, Beat Boys, e o próprio Ronnie Von na sua fase- quase-tropicalista, de 1968). Algumas letras têm a mesma liberdade do Jorge Ben antes do Jor (na faixa Realismo convincente: “Eu preciso sair daqui/ eu preciso salvar o mundo/ mesmo que não ganhe nada com isso/ vou tentar”). Se na estréia a Mombojó levava a comparações com Mundo Livre S/A ou Los Hermanos, aqui ela chega com o som resolvido. Daqui por diante quem fizer algo parecido vai ser comparado ao Mombojó.O grupo equilibra-se entre o pop radiofônico sofisticado em O mais vendido (condimentado por Wurlitzer, Mini Moog e trompete), faixa inicial do disco, e o rock metafísico na faixa-título (com um arranjo que Damiano Cozzela, Rogério Duprat assinaria sem titubear). As camadas de timbres os mais variados, tanto de teclados quanto de guitarras, é a marca deste disco (e uma deficiência na grande maioria dos grupos do rock pátrio atualmente). Tempo de carne e osso é puro 1968. Flautas, um piano Rhodes, um batida levemente lisérgica, um iê-iê-iê romântico (anticomputador sentimental), com participações de Lúcio Maia e de Céu (a bola da vez no time das cantoras). O mais importante aqui é que o Mombojó cria tendências, não segue modismos ou hypes (o sambinha de ocasião, a bossa incrementada, etc., etc.). Mesmo este psicodelismo sessentista é intuitivo (duvido que algum dos integrantes da banda tenha escutado Equipe Mercado ou Bangos). Da primeira a última faixa, Homem-espuma é imprevisível. Andamentos e timbres variam mais do que as cotações da Bolsa de Valores. Um disco linear na qualidade. Pode-se gostar pessoalmente de uma ou outra faixa, mas não há nenhum que se destaque. São todas produto de uma curiosidade própria da juventude e criatividade dos sete músicos da banda. |
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