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Patrimônio da música pernambucana, a Banda de Pife Dois Irmãos,
liderada por João do Pife, chega ao primeiro CD no Brasil, misturando
tradição com a modernidade do beatbox Um dos mais fortes símbolos do Nordeste, uma das mais tradicionais formações musicais da região, louvadas em prosa e verso, copiadas e gravadas por astros da MPB (os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso, por exemplo), as bandas de pífano sobrevivem graças à perseverança dos que a fazem. É o caso da Banda de Pife Dois Irmãos, de Caruaru, fundada em 1928 e que somente este ano conseguiu gravar o primeiro disco no Brasil. Ironicamente, a banda já teve discos lançados na Europa e Estados Unidos: “Há uns seis anos um argentino e um francês vieram aqui e gravaram com a gente. Os discos saíram no estrangeiro. Eles pagaram uns cinco mil pela gravação, mas esse negócio de direito autoral só chegou uma vez e depois nunca mais. Quando eu fui há quatro anos nos Estados Unidos, encontrei o disco para vender numa loja em Orlando, por dez dólares, um americano me deu um de presente”. Quem conta isso é João Alfredo dos Santos, 64, mais conhecido como João do Pife, um dos filhos do mestre Alfredo Marques, fundador da banda. O disco de estréia de João do Pife com a Banda Dois Irmãos será lançado sábado, em Caruaru, no Pátio de Eventos, a partir de 21h, com um show do grupo e do forrozeiro Azulão. “Demorou para a gente fazer um disco por falta de apoio. Eu falava com um, falava com outro e nada. O que a gente ganhava com a bandinha não dava, mas, graças a Deus, apareceu este apoio”, diz João do Pife. O apoio a que ele se refere veio da produtora Página 21, que viabilizou o CD com recursos do Funcultura. O grupo é formado até hoje por integrantes da mesma família, irmãos, sobrinhos e filhos de João do Pife, este, músico desde os 12 anos, quando começou a tocar com o pai: “Antigamente o que a banda acompanhava era novena, velório, casamento, mas a gente tem que acompanhar o tempo. A história que agrada a esse pessoal mais novo é uma coisa mais animada, para dançar. Tem banda de pife aí que não viaja feito a gente porque continua no mesmo tempo do meu pai. O repertório da gente é mais animado, que é pra puxar o pessoal pra dançar, assim, onde a banda tocar agrada”, comenta João do Pife, justificando a mudança ao apontar que a banda de pífano dos irmãos Biano, desde os anos 80 em São Paulo, já acrescentou até sanfona ao instrumental: “Eles colocaram, e eu acho certo, mas nunca pensei em fazer a mesma coisa, porque mexe na origem, na tradição”. João do Pife, não quer mexer tanto na tradição, mas já acrescenta letras a algumas músicas da banda, e imprime umas levadas mais dançantes aos baiões que compõe: “Eu não tenho nada contra essas bandas que usam metais, agora, mas nas festas chega uma banda dessas, toca hora e meia e leva um balaio de dinheiro, e quando a gente pede uma coisinha a mais ninguém topa pagar”. Mesmo precisando vender instrumentos e dar aulas de pífano para equilibrar o orçamento, João do Pife e sua família optaram por permanecer em Caruaru: “Nunca caiu na idéia de a gente sair de vez porque a gente já foi para Nova Iorque duas vezes, quatro vezes para a França, outras para Itália, Portugal, mas não rendeu muito. Os produtores quando a gente pede o cachê ficam falando difícil. Mas o meu sonho mesmo é a banda de pife. Na minha escolinha já formei três. Tem uma só de moça, outra de senhoras e uma de meninos. A banda de pife nunca vai acabar, não, por esta região mesmo conheço mais de doze”, diz, o otimista filho do mestre Alfredo. DISCO – Gravado no estúdio Fábrica, com direção musical do flautista César Michiles, direção artística de Amaro Filho, da Página 21, João do Pife & Banda Dois Irmãos fizeram um disco tradicional e ao mesmo tempo com inovações: “Tem umas coisas cantadas, mas a gente também puxa pela raiz numas músicas, tocando valsa e novena do tempo do meu pai”, explica João do Pife. Entre as novidades, para um disco de um grupo tão fincado na tradição, tem a flauta transversal do produtor César Michiles, que também assina parte dos arranjos, participações vocais de Azulão, das irmãs Baracho, e do violão tenor de Maíra Macedo. Ousadia mesmo está na faixa Estou pifando, que emprega o talento de beatbox de Maggo MC, embora este baião tenha uma percussão tão potente que o som mdo MC é incorporado naturalmente à música. Este disco tem sua importância amplificada pelo fato de documentar um grupo musical de origem rural em meio a mudança que se processa na cultura da região, e tentando sobreviver adaptando-se aos novos tempos e ao mesmo procurando preservar a tradição. |
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