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A arte de um recluso convicto

O artista plástico Delano

O artista plástico Delano quase nunca expõe seu trabalho. A individual que será inaugurada hoje, no MAC, é um desses momentos raros

OLÍVIA MINDÊLO
Especial para o JC

Sob a “carapuça” recatada e introvertida do artista plástico (Franklin) Delano – quase sempre isolado em sua casa nas ladeiras de Olinda, esconde-se uma observação aguçada e extrovertida acerca dos seres humanos que ele prefere evitar. Essa visão quase voyeur da realidade circundante, um paradoxo na personalidade tímida do pernambucano, encontra na arte (essencialmente figurativa) sua maior válvula de escape. No entanto, até essa forma de se expressar quase nunca aparece para o grande público. Um desses momentos raros pode ser visto a partir de hoje, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), onde é inaugurada, às 19h30, a individual Delano – pintura e desenho.

Exposições, aliás, são acontecimentos que não fazem lá muito parte do dia-a-dia da vida do artista. A sua última mostra individual – ele nem lembra direito a data – aconteceu em 2000, no Mamam, intitulada Ateliê Pernambuco, reunindo produções dele, Maria Carmen e Ferreira. “Eu não trabalho pensando em exposição. Não gosto de me expor, mal saio de casa. Às vezes, passo meses sem descer do meu ateliê, botar o pé na calçada. Preciso até que as pessoas levem comida para mim”, confessa Delano, que aceitou o convite de José Carlos Viana, diretor de políticas culturais da Fundarpe, para “movimentar” o MAC.

A esposa do artista, Macira Farias, diz só ter visto, nos seus 32 anos de casamento, quatro exposições do marido serem realizadas. A primeira delas, no próprio MAC, em 1974. Com raridade, expôs em algumas coletivas na Cidade Alta, no Recife e em outros lugares do Brasil. “A maioria das obras desta exposição é inédita. Fica quase tudo guardado. Ele só vende os quadros quando vai gente comprar lá em casa ou, quando trabalho com ambientação, já facilito esse escoamento”, revela Macira, que na prática cumpre o papel de marchande de Delano.

Se a auto-exposição não é o forte do artista, natural de Buíque, produzir é quase sempre uma obsessão cotidiana, insaciável. O curador e coordenador desta exposição, Márcio Almeida, diz ter ficado impressionado, ao visitar a casa do pintor, com a “quantidade imensa” de desenhos que Delano guarda. “Tinha a idéia de trabalhar a pintura, mas vi que os desenhos são para ele como um exercício diário e, então, a exposição partiu daí. Procurei utilizar pinturas em grande escala e o máximo de quantidade possível de desenhos”, explica Almeida.

FIGURATIVO – Para quem ainda não teve contato com o trabalho de Delano, a exposição que entra em cartaz hoje em Olinda é uma boa oportunidade para conhecê-lo. Há cerca de 60 obras, entre pinturas, desenhos, aquarelas e gravuras, que percorrem um período de mais de 20 anos – 1982 até 2006. As salas do térreo do museu estão reservadas aos desenhos e outros trabalhos, o primeiro andar, às telas em grande escala com palheta de cores variadas e vibrantes.

A diversidade de épocas e, particularmente, de materiais (no caso dos desenhos) é evidente, mas se torna de certa forma uniforme diante dos motivos: quase sempre personagens retiradas do cotidiano comum que são recolocadas em mundos inusitados ou situações caricaturais, ao gosto da imaginação do artista. “São diferentes técnicas, mas a força do meu traço é a mesma. Além disso, as figuras humanas aparecem sempre. Eu sou um observador das pessoas, sempre as observo quando saio”, revela Delano. Para isso, o artista não precisa sair muito de casa: valem rápidas aparições sociais, recordações, jornais e a própria televisão como fontes de inspiração.

(© JC Online)


Desenhos dominam o espaço e utilizam linguagem atualizada

Não é preciso ir muito fundo na obra de Delano para perceber o seu gosto em retratar o ser humano. A “mania”, digamos assim, é evidente e aparece tanto nos desenhos (todos) quanto nas pinturas (todas) em exposição no MAC. Nas telas, a característica figurativa se revela de forma mais séria e preocupada, ao contrário dos desenhos, em que o tom satírico e irônico rouba a cena e evidencia o lado crítico e mais leve do artista.

Os desenhos são, aliás, o ponto forte desta individual. Feitos a partir de uma variedade de materiais, como carvão, lápis grafite, lápis de cor, caneta esferográfica e bico de pena, os trabalhos comprovam a versatilidade de Delano e nos mostra um artista que se atualiza plasticamente muito mais através desses traços do que das pinturas, que ainda ecoam uma estética que marcou as décadas de 60 e 70, e está presente, em certa medida, na obra de artistas dessa mesma época, como é o caso de João Câmara, com quem ele conviveu no Ateliê + 10, em Olinda

“A pintura exige muito mais do artista. O desenho, não, é mais simples de manipular o traço. Na verdade, sou mais desenhista do que pintor”, explica Delano, que aprendeu a desenhar num curso, nos anos 60, dado pelo artista plástico Abelardo da Hora e já chegou a ser ilustrador de jornais em São Paulo para “sobreviver”.

Não é toa que os desenhos de Delano foram parar nas folhas de jornal. São obras que dialogam com linguagens do cartum, da ilustração, da charge e dos quadrinhos. Nessa mostra mesmo, há várias delas. Algumas parecem até story board de filme, feitas em seqüência, e outras, caricaturas bastante sarcásticas, que inserem textos e ridicularizam valores da sociedade contemporânea.

Delano – pinturas e desenhos, abertura hoje, às 19h30, para convidados, no MAC, na Rua 13 de maio, 157, Varadouro, Olinda. De 18 de maio a 18 de junho. Informações: 3429-2587

(© JC Online)

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