|
|
MARCOS
CAMPOS
 |
|
XICO Sá, jornalista cearense: jornalismo tradicional é muito chato |
O jornalista, escritor e
roteirista cearense Xico Sá conversa com o Vida & Arte. O gancho é o novo
livro de deixar padre arrepiado:Catecismo de Devoções, Intimidades &
Pornografias, lançado ontem em Fortaleza Depois dos prêmios de Esso e Folha (maiores prêmios nacionais do jornalismo
impresso), Xico Sá debandou das redações dos jornalões por onde andava dando
furos, especialista no ofício de descobrir e dizer o que ninguém ainda tinha
dito. Foi fazer jornalismo mais solto, espontâneo em revista mensais, montou
um blog, uma editora. Foi escrever literatura e pornografia.
Seu mais recente livro, Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias,
lançado ontem em Fortaleza pela Editora do Bispo (fundada por ele e pela
artista plástica Pinky Wainer), junta o que este cearense do Crato acumulou
nas experiências, seja com as ingênuas cabras da infância ou com as
"mulheres que, sabe lá o porquê, resolveram ter belas histórias com um cabra
feio e desmantelado como eu".
Xico Sá é autor dos livros Modos de macho & Modinhas de fêmea, Divina
Comédia da Fama e Nova Geografia da Fome, entre outros. Além disso é
letrista, roterista, ator... Acabou de acompanhar a filmagem do primeiro
roteiro de longa-metragem que co-escreveu, do filme "Deserto Feliz" de Paulo
Caldas. Está escrevendo um romance erótico - "até o talo" - sobre aventuras
na noite de São Paulo, onde mora; preparando um livro de jornalismo
literário sobre os reis do Brasil; além de escrever uma crônica semanal
sobre futebol na Folha de São Paulo, "brincando de de ser o Nelson Rodrigues
do Sítio das Cobras [o nome do lugarejo onde viveu a infância, em Santana do
Cariri]". (Pedro Rocha, Especial para O POVO)
O POVO - Como veio a idéia para o livro?
Xico Sá - A literatura erótica sempre esteve presente no que escrevi
e a primeira influência foram as histórias que ouvia ainda no Cariri,
histórias cujos personagens eram Bocage e Camões (que na linguagem da gente
virava Comonge). Louco que esses poetas apareciam como protagonistas de
narrativas pornográficas, de alto índice de fuleiragem. Juntou isso e o
contato com os livretos de cordel mais esculhambados, típicos da verve
cearense, da verve nordestina, e ai estava feita a minha formação inicial.
Peguei isso tudo e misturei (sampleei, digamos assim) com mestres como o
Marquês de Sade e estava pronto o livro. O estalo para o livro, no entanto,
foi quando a Igreja Católica lançou a sua mais nova versão do catecismo, que
continua preocupado em condenar até a masturbação. O meu livro é uma
resposta bem-humorada a este tipo de moralismo e reacionarismo que proíbe
até o desejo.
OP - Qual a decisão pelo copyleft? (Forma de registrar a obra que se
contrapõe ao Copyright)
Xico Sá - Nós, da Editora do Bispo, eu e a minha sócia Pinky
Wainerachamos que o conhecimento é livre, tem que circular, nada de ser
proprietário ou coronel editorial. Que nossos livros sejam livremente
copiados e corram mundo.
OP - A intimidade ainda é a maior pornografia?
Xico Sá - Acho que a intimidade, a beleza de aprofundar uma história
de vida e sexo com outra pessoa, seja a maior, mais linda e radical forma de
pornografia. Ou seja, viver intensamente é ser pornográfico todos os dias.
OP - Você tem essa intimidade com a escrita?
Xico Sá - Sim, me lambuzo nela como num corpo de uma mulher suado. E,
de alguma forma, acho que escrevo com o corpo, essa é a minha missa diária.
OP - Esse manual libertino que é seu livro foi um aprendizado de
vida? Das cabras do cariri até as paulistanas...
Xico Sá - Tem de tudo. Das doces sacanagens da infância no Cariri,
das casas da luz vermelha, e das mulheres que, sabe lá o porquê, resolveram
ter belas histórias com um cabra feio e desmantelado como eu.
OP - O seu jornalismo está indo no mesmo rumo com reportagens mais
despretensiosas, debochadas?
Xico Sá - O jornalismo convencional atingiu o grau máximo da chatice,
do burocratismo (nada a ver com o Crato, tá?), da falta de inventividade...
Passei muito tempo em redação e agora não agüento mais esse padrãozão, por
isso resolvi fazer reportagens com uma pegada mais literária, que é o que eu
fazia ainda na faculdade e no começo da minha trajetória.
OP - Você cita alguns dos grandes “tarados” da literatura, como Henry
Miller, Joyce e Sade. Você sempre se interessou por essas escritas?
Xico Sá - Sim, Henry Miller, principalmente, é o meu grande mestre,
grande guia. Esse escrevia com o pau, com as vísceras.
OP - Como está sendo a repercussão do livro?
Xico Sá - Tem sido muito boa, senti-me muito honrado com uma bela
crítica do Cristóvão Tezza (na Folha), grande escritor e mestre em
literatura. E me anima mais ainda a repercussão com os leitores. Além disso,
deve ser editado também em Portugal e traduzido para o espanhol e o
italiano. Não sei como eles vão conseguir, mas umas três editoras já
demonstraram interesse e entraram em contato com a gente.
OP - Quem está lendo o livro em sua maioria são mulheres?
Xico Sá - A grande maioria é mulher. Elas procuram no livro os nossos
segredos de alcova e da fuleragem propriamente dita. E o livro tenta,
humildemente, iluminá-las nesse sentido. Mas acho que o desperta mais para a
leitura feminina é a devoção, o beija-pé que esse livro representa para as
moças.
OP - O que elas lhe falam?
Xico Sá - Tenho ouvido coisas deliciosas. Que o catecismo está na
cabeceira e é sempre lido para animar os seus homens, que se excitaram lendo
o danado... Que todos os machos deveriam ler para entrar no clima...
E,claro, algumas mulheres com as quais tive histórias calientes se encontram
em vários capítulos do livro.
OP - Você é religioso?
Xico Sá - Minha formação é de um católico desleixado, mas com direito
a primeira comunhão em Canindé e tudo. Lembro ate hoje: fui com uma batina
de São Francisco, numa cadeira amarrada no agaceiro de uma velha Rural do
meu pai.
OP - Você se comprometeu com a castidade no batismo?
Xico Sá - Nossa Senhora me defenda de uma má hora dessas!
OP - Teve algum problema com a Igreja por razão do livro ou em outras
situações?
Xico Sá - Ainda não, mas com alguns conservadores da classe média
paulistana sim. Teve uma mãe de uma garota (uma linda moça, aliás), que
tomou o livro dela, alegando que aquilo era uma pouca vergonha e iria
atrapalhar a sua formação moral. A menina me escreveu, nos encontramos, e a
presenteei com um novo catecismo, que ela mantém escondido a sete chaves.
Parece história da idade média, mas aconteceu na dita metrópole mais moderna
do país. Que falta de humor desse povo!
SERVIÇO
Catecismo de Devoções, Intimidades e Pornografias, de Xico Sá. Editoria do
Bispo. Informações
http://www.editoradobispo.com.br/
(©
O Povo) |
|