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Geraldo Maia sob nova direção 

O cantor Geraldo Maia, em ensaio. Agora dirigido por João Falcão

O cantor pernambucano recebeu o diretor João Falcão, que veio ao Recife especialmente para dirigi-lo num show que estreará no Rio

PAULO SÉRGIO SCARPA

O nome de João Falcão está no teatro, no cinema e na televisão. Mas o diretor pernambucano não se cansa de entrar em novas frentes de trabalho no Rio de Janeiro, onde reside. De volta ao Recife por apenas dois dias, dirige o novo show do intérprete pernambucano Geraldo Maia e retoma uma parceria iniciada em 1988, com o show Brasil sem vergonha, interrompida por falta de oportunidade. O espetáculo batizado Samba do mar quebrado ocupa o palco, nos dias 4 e 5 de junho, do Mistura Fina, no Rio, sem qualquer pudor por revelar sambas pernambucanos à terra do samba. “Pernambuco tem grandes sambistas”, sentencia o cantor.

Dirigir shows não é novidade para João Falcão, que sempre teve na música elemento importante no seu trabalho, desde quando, no Recife, escrevia, dirigia e compunha músicas para seus espetáculos, como A ver estrelas, uma peça que marcou uma geração de recifenses. “Quero ver o Geraldo bem solto no palco, dançando, talvez”, adianta Falcão. “Faço qualquer coisa, juro, menos dançar. Sou muito duro”, adverte Maia.

O diferencial do show, explica Geraldo, é que ele homenageia o samba, mas apresenta a sonoridade criada no Nordeste para o ritmo. O repertório não poderia ser mais eclético. Tem até dois sambas praticamente inéditos de Luiz Gonzaga, encontrados numa pesquisa nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco feita por Renato Phaelante: Feijão com couve, parceria com J. Portela, e Tenho onde morar, com Dario de Souza. Mas há outros: Aristides Guimarães, Zeh Rocha, Maciel Melo, Alex Mono, Kátia de França, Capiba, Antonio Nóbrega e uma canção de Geraldo Maia, que estréia como compositor. “Não sou sambista, mas gosto muito do gênero”, justifica. Mas tem também alguns clássicos de Ataulfo Alves, Sinhô e até uma canção composta por Nelson Gonçalves em parceria com Benjamim Baptista. O show inclui ainda músicas de dois CDs de Geraldo Maia, Verd’água (1999) e Astrolábio (2001) e canções que marcaram seu repertório, como sua participação na trilha sonora do filme Lisbela e o prisioneiro, de Guel Arraes, ou na valsa A deusa de minha rua, interpretada com o violonista Yamandú Costa.

Workaholic e esbanjando bom humor, Falcão fala sobre o show. “Não tenho ainda uma linha do espetáculo, só sei que as coisas nascem com os ensaios e a troca de idéias”. Mas adianta que terá textos de Manuel Bandeira e Carlos Pena Filho e a presença de instrumentos estranhos ao samba, como violoncelo, violino, rabeca e alfaia. A autoria dos arranjos é dividida entre os integrantes da banda, amigos ou músicos que acompanham Geraldo há muitos anos: Fabiano Menezes (violoncelo), Aglaia Costa (violino e rabeca), Jirimum de Olinda e Cláudio Santana (percussão/alfaia), Rodrigo Samico (violão sete cordas) e Publius Lentulus (violão seis cordas).

Nascido no Recife, em 1958, João Barreto Falcão Neto é dramaturgo e roteirista. Escreveu roteiros para a televisão, como a minissérie Auto da Compadecida, episódios de A comédia da vida privada (TV) e Sexo frágil (TV). Para o cinema, A dona da história e A máquina. Além de trilhas sonoras para A máquina, A ver estrelas, A dona da história, Quem tem medo de Virgínia Woolf?.

O show de Geraldo Maia será apresentado no Recife, mas não tem ainda data marcada. Ele conta que a canção que dá título ao show e ao CD é Recífia, que tem como subtítulo Samba do mar quebrado, de Carlos Mascarenhas. Para João Falcão, Geraldo será mais um pernambucano procurando seu espaço no Rio. Como tantos outros que, hoje, ocupam com sucesso um lugar na televisão, no cinema e no teatro.

(© JC Online)


Longo caminho até Samba do mar quebrado

JOSÉ TELES

Geraldo Maia finalmente terá uma oportunidade no local e à altura do seu talento como intérprete. Ele fez parte de uma geração que entrou em campo na hora e lugar errados, o Recife dos anos 80. Na época, a cidade vivia o auge de sua fase “complexo de vira-latas”. Uma época, como já comentou Lenine, também integrante dessa geração, em que era pejorativo alguém se apresentar como artista no Recife.

Depois de uma fase riquíssima, que foi dos anos 50 a início dos 70, a música pernambucana vivia do passado. Sem programação local forte, com a gravadora Rozenblit falida, com a TV em rede nacional, artistas da música local não tinham mais vez. Nos anos 70, o chamado udigrudi pintou e bordou, lançou discos arrojados e memoráveis (Paêbirú, Satwa, Marconi Notaro no sub-reino dos metazoários, Flaviola e o Bando do Sol), uma história que só foi conhecida fora do Estado na década atual.

A geração de Geraldo Maia veio logo em seguida à do udigrudi, com influências de rock, mas com os pés na MPB. Faziam parte desta turma, entre outros, Zé Rocha, Lenine, Lula Queiroga, Henrique Macedo. Com este último, Geraldo Maia lançou, em 1987, o LP Cenas de Ciúme (merecia uma reedição em CD) que, obviamente tocou pouco, e o incentivou a mudar-se para Portugal. Para o Sul Maravilha (expressão irônica criada pelo cartunista Henfil), ele havia partido, em 1981, com Lula Queiroga, Lenine, Zé Rocha, Tadeu Mathias. Lá também não estava fácil. Esta turma só começou a ser conhecida na década seguinte. Foi uma geração imprensada entre a MPB setentista e o rock oitentista. “Fiz algumas coisas no Rio. Me apresentei num concerto no aterro do Flamengo, um que Joan Baez iria cantar, mas foi proibida. Alguns shows no Parque Lage”, recorda Geraldo Maia.

O resto da turma ralou até os anos 90, mas sem Maia: “Eu freqüentava a casa do pessoal, mas fiquei alheio ao que eles faziam. Para mim aquela fase foi, psicologicamente confusa”, continua Geraldo, que voltou para o Recife depois de dois anos no Rio. Até o LP com Henrique Macedo, ele fez teatro, shows, gravações em trilhas sonoras de novelas, gravadas no Recife, e vendidas em Portugal como se fossem originais: “Logo quando cheguei em Lisboa, o rádio tocava Meia-lua inteira, cantada por mim e o pessoal achando que era Caetano Veloso”, conta. Aliás, as comparações com Caetano Veloso ele rebate revelando que sua maior influência vocal é Maria Bethânia, que assistiu adolescente no Recife. Foi quando lhe veio a determinação de ser cantor.

Geraldo Maia voltou da Europa em 1999, quando o cenário musical pernambucano dera um giro de 180º. O manguebeat de Chico Science & cia escancarou as porteiras da música local para todo os sons. Verd’água, o primeiro disco individual de Geraldo Maia, no entanto, trafegou na contramão do que se fazia no Recife. Acústico, cantando até poema de Carlos Pena Filho, musicado por Zoca Madureira (com quem havia trabalhado nos anos 80, nos musicais O Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, Arlequim). Seu segundo disco, Astrolábio, o aproximou mais da geração mangue, com a participação de vários músicos da “cena”. O terceiro, Samba do mar quebrado ficou no tamanho exato entre o regional e o samba. É este disco a base do show que ele apresentará no Rio, dirigido pelo amigo João Falcão que já confessou que Geraldo Maia foi o cantor que ele mais viu cantar até hoje. “Minha parceria com João é afetiva”, define Geraldo Maia. Tão afetiva que, no final do passado, ele e Robertinho do Recife, fizeram uma apresentação especial no casamento da filha de Adriana Falcão.

(© JC Online)

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