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Doze santos e uma polêmica 

Aparição da virgem, Santo Antônio Jackson e Nossa Senhora Amiga do Peito

Luciana Moherdaui

Doze charges, dez delas com caricaturas do profeta Maomé, publicadas num jornal dinamarquês incendiaram o mundo islâmico no início deste ano. Doze santos geneticamente modificados por dois designers baianos deixaram estarrecidos católicos, após terem sido publicados um mês atrás na revista digital “Terra Magazine”, do jornalista Bob Fernandes.

A antológica cena da sexy simbol Marilyn Monroe em “O pecado mora ao lado”, quando o ar de uma tubulação levanta a saia da atriz foi parar no cenário da aparição da Virgem. São Jorge, o santo mais cultuado e popular da Bahia, deixou sua origem européia e se tornou o “São Jorge Brau” em homenagem aos negros, e o ministro da Cultura, Gilberto Gil foi parar nos braços de São Caetano.

Essas imagens fazem parte da série “São Será o Benedito e Outros Santos Geneticamente Modificados” de Nildão e Renatinho Silveira*, que será lançada em Salvador dia 25, às 19 horas, no Cinema do Museu, na Vitória. A série estará disponível em postais, camisetas, cartazes e calendários.

Talvez a mais polêmica seja a do filho do Senhor vestindo uma túnica com uma ilustração de uma folha de cannabis. “Essa aqui nem vou falar porque é complicado”, brinca Renatinho. Ou a do cantor Michael Jackson com uma criança nos braços, o Santo Antonio Jackson? “Isso é uma piada. E daí? A democracia não pode resistir a uma piada?”, diz Nildão.

“Só uma pessoa muito cética e maldosa para se aproveitar de algo divino e transformá-lo em chacota!”, reclamou uma internauta identificada como Lílian no blog da revista. “Trata-se de um ataque e fé, uma falta de respeito à Igreja Católica”, criticou Simone. O usuário Wagner concorda com elas e ataca: “Foi uma desagradável surpresa ver imagens católicas sendo satirizadas com a cara de celebridades”.

A quem os questiona, Nildão retruca: “Desconfio de toda religião, ideologia e amizade que não resistem a uma piada. Há algo errado nesses três itens quando não se suporta uma piada. Isso é o caminho direto que vai dar no totalitarismo”.

O leitor Othon pediu para excluir as imagens do site: “Como católico, exijo a imediata remoção de tais blasfêmias contra a Virgem Santíssima, bem como as horrendas modificações das imagens sacras”. Teve até quem rogou uma praga: “Ele que aguarde - não uma vingança dos céus porque Deus é pai, mas uma insatisfação e um período de dificuldades financeiras Cadê o respeito?”.

“Brincamos com uma realidade de opressão, colonialismo e dominação cultural. Em vez de responder ferozmente como eles, usamos humor. De que maneira? Pegando um santo negro que foi usado para manipular a massa escrava e o africanizamos [referindo-se ao São Benedito, que virou São Será o Benedito]”, explica Renatinho.

Novos santos - A justificativa para a modificação dos santos é a de que eles estão defasados e precisam ser atualizados. “Por que não termos a Nossa Senhora do HD? Que protege os computadores! Ao criarmos novos santos, ajudamos a Igreja. Por que não?”, diz Nildão.

“Projetei a Nossa Senhora Desaparecida porque há tantos desaparecidos por aí. Então, pensei: Por que não criar uma santa dos desaparecidos? Há também a Nossa Senhora Amiga do Peito, em homenagem à campanha contra o câncer de mama. Trata-se de uma ação de inclusão social. Imaginamos que alguma entidade nos procure e peça a imagem para vender camisetas.”

Renatinho e Nildão defendem o humor como um espaço tradicionalmente de liberdade. “Com o humor, podemos criticar o presidente ou fazer caricaturas e ninguém vai preso por isso. Os símbolos do candomblé são utilizados no carnaval. Em Salvador, a prefeitura patrocinou uma decoração com imagens da religião afro-brasileira. As pessoas estão com raiva porque nossos santos são muito mais charmosos que os deles (brincam).”

“Trata-se de uma mentalidade estreita e islâmica. Esse tipo de reação é totalitária e prejudica a convivência social. Passei 15 anos em terapias alternativas para me livrar das neuroses de uma educação repressiva e hipócrita imposta pela Igreja”, diz Renatinho.

Informados que podem ser acusados de vilipendiar objeto de culto religioso e fazer apologia ao uso de drogas, reagiram com humor: “Podem nos acusar. Será mais uma batalha. Estamos no meio do tiroteio. Vamos pagar para ver.”

*Nildão é católico, apostólico, batizado, crismado e passou 12 anos em um internato
Renatinho é católico, apostólico, batizado, crismado, foi coroinha e rezou missa em latim por seis anos


Serviço
Cinema do Museu
http://www.saladearte.art.br
Av. Sete de setembro, s/n,
Corredor da Vitória
(71) 3331-1279
Coleção de postais: R$ 10

(© A Tarde)

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