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O primeiro disco a gente nunca esquece

Kleber Crócia

Um clássico do rock pernambucano. Sem dúvida alguma podemos assim adjetivar o Sonic Mambo. Oito anos após o lançamento do primogênito da Eddie, a banda decide relançar o álbum. Disco esse, que como todo clássico, há muitas histórias para se contar.

Tudo aconteceu em 97. Já com uma década de rock nas costas, a Eddie juntou as moedas e, sem quaisquer pieguice, foi atrás do sonho. Com um kit debaixo do suvaco - contendo um vídeo release, fita demo, camisas e adesivos - a banda foi pra sampa bater na porta das gravadoras. Eis que a Roadrunner simpatizou com os olindenses. Contrato assinado e sorriso na boca. Mas, o tempo foi passando e o sorriso foi ficando cada vez mais amarelo, aguado...

“Assinamos o contrato e nesse meio tempo, entre a assinatura e a gravação, a Roadrunner fechou acordo com Sunrecords. Depois disso, ao invés de contratar novos artistas a gravadora praticamente virou uma distribuidora de catálogos. Foi aí que a gente dançou”, desabafa o vocalista e guitarrista, Fábio Trummer. Isso foi só o início das ‘bad trips’ que envolveram a ‘apagada’ odisséia do Sonic Mambo.

Pausa nas mazelas e play nas ‘good vibrations’. Para gravar o Sonic Mambo a banda viajou para Massachussets (EUA). Mais precisamente em North Brookfield. Lá, está hospedado o renomado Long View Farm Recording Studios. “O clima foi muito bacana. O estúdio, que é uma fazenda, tem uma aparato de equipamento incrível. Bandas como Aerosmith, Rollings Stones e Soundgarden, já passaram por lá. Ou seja, estávamos muito bem servidos”, conta Fabinho.

E a repercussão? “Foi algo inédito. Éramos a primeira banda pernambucana a sair do país para gravar um disco. Todos (imprensa, bandas e público) ficaram felizes e começaram a acreditar que as coisas eram possíveis de acontecer. É muito gratificante se ver fazendo parte da construção do mercado da música pernambucana. Pra mim o Sonic Mambo, além de ser parte dessa história, é um disco que antecipou, de forma despretensiosa, muita coisa quem vem sendo feita hoje. Naquela época já fazíamos rock com elementos de rap, ska, reggae, samba e até frevo”, diz o ex- baixista Roger Man.


Trêtas

Apesar de toda estrutura profissional, rolaram alguns desconfortos durante as gravações. O ex-baterista Bernardo Vieira explica: "O produtor era um cara extremamente experiente, tinha mais de 20 anos de trampo e até trabalhou no estúdio de Jimmy Hendrix. Mas, ele não conhecia nada de música brasileira, sabia mesmo de punk rock. O pior é que levamos muitas referências pra ele ouvir como Tom Jobim e Jorge Ben, mas, ele não quis ouvir. Eu gosto do resultado, acho que o disco não é datado. Mas, poderia ter ficado bem melhor ”.

Disco gravado, começam os outros perrengues: lançamento, divulgação, distribuição. "Fizemos shows, vendemos, camisas e adesivos para juntar grana e fazer o show de lançamento em São Paulo, na data que a gravadora agendou. E, não aconteceu o lançamento. Isso criou uma desestruturação muito grande na banda. Havíamos investido grana e dedicação e, ao mesmo tempo, estávamos completamente engessados ”, conta Trummer. Finalmente em 99, quase um ano depois gravado, o Sonic Mambo foi lançado.

Como dizem: o barco tem que andar e é isso mesmo. Foi o que eles fizeram. Com a palavra Bernardo: “Nós sentimos na pele a degradação da indústria fonográfica. Mas por um lado foi muito bom, porque fomos caminhar com as próprias pernas, mais ainda do que fazíamos antes. Começamos a entender melhor o mercado de música e enxergar o lado bom, e real, de ser independente. Isso nos rendeu muita experiência”.

Os episódios com a Roadrunner causou uma dissolução natural da Eddie. Da formação do Sonic – que além de Fábio, Bernardo e Roger, tinha as percussões de Karina Buhr e Fred Eremita - só ficou o front man, Fabinho. “Realmente essas coisas desestimularam todo mundo e naturalmente cada um procurou seu caminho. Claro que isso não é tranqüilo pra nenhuma banda, mas, as coisas aconteceram na paz e no fim das contas foi interessante pra todos”, pontuou Roger Man.


Causas e conseqüências

Palavras de Trummer: “ Eu costumo dizer que a Eddie, do Sonic Mambo, não acabou, mas se multiplicou”. É verdade. A primeira a seguir outros rumos foi Karina, com o Comadre Fulozinha. A banda, que já tocou na França, Bélgica, Suiça, Canadá e EUA, lançou em de 2003 o segundo CD, o Tocar na Banda.

Depois foi a vez de Roger Man – agora Rogério Homem - e Bernardo. Rogério decidiu aposentar as cordas graves e investir no lado de letrista e vocalista. Aliou-se então ao produtor musical e baixista, Zé Guillherme. Das gravações caseiras, surgiu o Bonsucesso Samba Clube, que inclusive está em turnê pelo centro sul do país, divulgando seu 2º disco, Tem Arte na Barbearia.

Já Bernardo apostou na carreira de produtor musical e, montou um estúdio: o Batuka. “Depois que sai da Eddie um dos motivos que me levaram a montar o estúdio e virar produtor foi a experiência que tive durante as gravações do Sonic Mambo. Me identifiquei muito com a parte técnica de fazer música”. Além de produtor, Berna é integrante do Bonsucesso.

Percussionista do Kaya na Real, desde a época do Sonic Mambo, Fred Eremita saiu do Eddie, mas, além de atividades extras musicais, continua na banda de reggae. O Kaya na Real deve lançar em breve material novo.

Com a saída de Roger e Berna, Fabinho recrutou a velha e conhecida cozinha de Kiko (bateria) e Rob (baixo), também Kaya na Real. Urêia, com sua percussão Zona da Mata Style, foi outro que acrescentou bastante na nova formação. Com essa unidade musical, e muitas outras participações, o Eddie gravou em 2003 o Original Olinda Style.

Se o Sonic Mambo não teve as atenções devidas, o Original Olinda Style caiu na boca do povo e consagrou de vez a Eddie como uma das bandas mais importantes de Pernambuco. E isso é mais que merecido. Até porque são 18 anos de estrada. No início do a Eddie lançou o terceiro album da carreira, o Metropolitano.

(© Giro Cultural)


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