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A excelência gráfica, na imagem e no conteúdo. Pessoas que nunca se viram e que, no entanto, sabem que compartilham de um ofício semelhante: a expressão a partir do desenho. Quando a oitava edição do Festival internacional de humor e quadrinhos de Pernambuco começar na noite de amanhã, às 19h, novamente sob os auspícios da Torre Malakoff, será dada a abertura a mais um mês de atividades dedicadas a cerimoniar (quase) todas as expressões gráficas. Como convidados internacionais, dois homens de países que há 15 anos estavam sangrando uma guerra única: Naif Al-Mutawa, do Kuwait, e Peter Kuper, dos Estados Unidos. Juntos, eles irão expor seus respectivos trabalhos ao lado de mais outras seis exposições. Todas essas mostras irão revelar os quadrinhos de super-heróis islâmicos de Al-Mutawa, os traços cubistas e figurativos de um ilustrador com pinta de artista plástico (Peter Kuper), os desenhos românticos e melódicos da lúdica Ângela Lago, as ilustrações poéticas e premiadas de Mário Vale, os mangás à brasileira de Marcelo Cassaro e Erika Awano, o humor caótico do veterano chargista Nani (que recebe como anexo uma mostra sobre os 21 anos do Papa-Figo), a modernidade (igualmente caótica) de Fábio Zimbres e, claro, o Salão internacional de humor e quadrinhos. É este, na verdade, que sempre detém as atenções do vasto e variado público que costuma comparecer à Torre Malakoff. Será no primeiro andar dessa mesma centenária construção onde pouco mais de 120 trabalhos serão expostos em cinco diferentes categorias: cartum, charge, caricatura, quadrinhos e ilustração editorial, esta última uma novidade deste ano, parte já de uma nova proposta do festival em estender à arte ilustrativa uma cadeira de honra na mesa da távola redonda das artes gráficas. Organizado e produzido pela Associação de Cartunistas de Pernambuco (Acape) e pelo governo do Estado a partir da Fundarpe, o festival deixa de ter um curador central e descentraliza as tutelas das exposições com alguns associados da Acape. “Acho que o salão cumpriu um papel importantíssimo até hoje, não somente para formação de público, como para o estímulo de formação de jovens cartunistas que se instigaram para produzir. Hoje, o que queremos é ampliar ainda mais isso, começando pela maior participação dos artistas na produção do próprio salão”, resume João Lin, presidente da Acape e organizador maior do festival em questão. O evento, a exemplo do ano passado, terá suas atividades (oficinas e palestras) distribuídas ao longo de um mês inteiro. Nesta primeira semana, haverá oficina de recortes de desenhos com o ilustrador Mário Vale, na Kabum (Rua do Bom Jesus, 147, Bairro do Recife), de terça a quarta-feira, das 14h30 às 17h, e oficina de ilustração com a artista Ângela Lago, realizada no prédio do Núcleo de Gestão do Porto Digital (Rua do Apolo, 181, no mesmo bairro), de quarta a sexta, também das 14h30 às 17h. As demais oficinas serão realizadas nas próximas semanas (inscrições sempre na Torre Malakoff, no valor de R$ 10). O artista que usa humor para não perder o senso O mineiro Nani lança no Recife livro com charges do governo Lula, julga trabalhos de uma nova geração de cartunistas e apresenta exposição na cidade ao lado de imagens dos 21 anos do Papa-FigoErnani Diniz Lucas, o Nani, nunca foi um exímio desenhista. Mas, como reconhecem os melhores profissionais do ramo, não há ninguém que saiba desenhar uma piada como ele. Se ele se acha uma pessoa engraçada? “Acho que sei contar coisas engraçadas. Prefiro contar ‘causos’, há sempre algo de mais novo em um ‘causo’ que em uma anedota repetida por várias pessoas”. Mas se está falando aqui de cartuns, charges e recursos gráficos usados para fazer graça da grande piada nacional: a política. E, nessa área, Nani pode de fato se gabar bastante. O cartunista chega ao Recife esta semana para participar do Festival de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, onde terá uma exposição com cartuns de uma extensa carreira (que começou lá nos anos 70), e onde também lançará o álbum Foi mal, uma oportuna coletânea de charges sobre o governo Lula, “antes, durante e depois do mensalão”, como frisa a capa do livro. “Dizer ‘foi mal’ é nunca ter que pedir desculpas”, explica o título do lançamento. Nani, que já lançou um álbum semelhante na época de Fernando Henrique Cardoso (Se arrependimento matasse era o título), diz que presidentes rendem mais não por suas qualidades próprias, mas pelo grau de decepção que ele provoca na população. “Acho que não tem muito a ver com características pessoais, tem a ver com a decepção, a quebra de promessas, a própria falta de solidez”, frisa ele. “Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, foi uma decepção muito grande, porque ele se vendeu bem rápido. Havia a ilusão de que ele era um cara iluminado, e terminou fazendo um governo pífio”, explica. Quanto à Lula, Nani faz considerações mais cautelas (só as considerações, porque as charges do livro não pegam leve): “Ele era um emblema não só para o PT, mas para um novo o governo também. E essa que foi a minha maior decepção. Acho que o PT fez muito mal ao Lula.” E alerta: “Se o Lula prestasse mais atenção nas charges, talvez não tivesse feito tanta besteira.” Foi mal, que tem prefácio de Jaguar e orelha com depoimentos de Ziraldo, Luis Fernando Veríssimo e Miguel Paiva, é uma condesação do que a opinião pública debateu nos últimos quatro anos. E apesar de ser Lula o foco desta compilação, é preciso dar o mérito ao profissional em sua caricatura do então candidato à presidência José Serra. Impagável. Destaque também para as piadas que envolvem Lula e sua síndrome de “vista grossa”. CHARGES E CARTUNS – A exposição de Nani no Recife estará lado a lado de uma mostra sobre os 21 anos do Papa-Figo, o periódico de humor mais tradicional (e mais resistente) do Nordeste. Nani, que já participou como chargistas de edições mais recentes do Papa-Figo, faz parte de uma geração que aprendeu a tirar piada do caos (herança dos piores anos da ditadura), criando assim um grafismo igualmente caótico. No Recife, ele participará também na comissão julgadora do salão que irá premiar os melhores nas categorias cartum, charge, caricatura, quadrinhos e ilustração editorial. Entre a charge e o cartum, ele acha a primeira mais difícil de surpreender. “O Lula faz uma coisa e no outro dia você sabe quais as piadas que serão desenhadas. Já o cartum é resultado de um processo de observação do mundo, e por isso surpreende mais.” Quanto aos novos profissionais do ramo, o chargista predileto entre os veteranos do humor tem uma opinião só: “A nova geração desenha bem melhor que a nossa. Mas eles nasceram em outro tempo, talvez não tenham a maldade ou a malícia que a gente teve. E não ruminaram o conhecimento no livro como nós ruminamos. Hoje todo mundo engole as informações da internet sem mastigar”, pondera. Há técnica para as charges? É possível aprender a fazê-las? “Há técnica para o desenho, mas para o conteúdo dele, nunca”. (C.A.) “Ninguém tem monopólio da verdade” Naif Al-Mutawa e Peter Kuper ainda não sabem, mas têm muito em comum. Às suas maneiras, usam traços como vozes dissonantes de um sistema político. Coincidentemente, ambos se formaram leitores a partir da mesma fonte: quadrinhos de super-heróis americanos. Mas Mutawa é kuwaitiano e usa a estética dos gibis da infância para criar a história de 99 super-heróis, cada um com um dos 99 atributos de Alá. O artista e empresário fala de irmandade com um projeto que deve ser publicado em vários pontos do planeta. Já Kuper, americano, usa tanto quadrinhos como ilustrações e animações para falar, por exemplo, de George Bush, inspiração para personagem “mutante” entre o presidente e O Riquinho. Ambos estarão amanhã no Recife onde, além de mostrar suas respectivas exposições, irão se conhecer no encontro entre um Ocidente e um um Oriente em sintonia.JORNAL DO COMMERCIO – Pessoas costumam lhe questionar sobre como o mercado de quadrinhos poderá responder a uma história islâmica com um tema de super-heróis. Quando você se envolve em um projeto como esse, qual a importância de se pensar em mercado e parcerias? NAIF AL-MUTAWA – Todo meu foco é esse hoje. Há muitas considerações a ser feitas, tanto do lado ocidental, quanto do lado islâmico. Para o público islâmico foi muito importante que eu conseguisse me virar com apenas alguns poucos estudiosos islâmicos. Estou atualmente preparando para um segundo round de financiamento para a Teshkeel Media Group e propositalmente escolhi para isso um banco islâmico e não um outro banco qualquer. O projeto de Os 99 já foi beneficiado com a aprovação do Sharia Board (empresa islâmica de transações eletrônicas de banco). Essa aprovação é muito importante para leitores mais conservadores que possam estar reticentes em relação ao projeto. Além do mais, recebi apoio de membros de governos de vários países ocidentais. Deixei claro para eles que eu queria o apoio moral deles, e não financeiro. Tenho hoje apoio de governos ocidentais, de governos islâmicos do Sharia Board. Inicialmente, tive alguns problemas em atrair talentos ocidentais para o projeto. Antes de comprar os direitos de publicação da revista Cracked (tradicional revista de humor norte-americana, mais antiga que a MAD), os investidores ocidentais não me levavam muito a sério. Depois disso, eles perceberam que eu não estava ali apenas para louvar o islamismo. Essa negociação abriu portas para a Teshkeel Media Group. Roteiristas e desenhistas ocidentais começaram a se interessar pelo projeto. Igualmente importante, nessa época contratei Mike Hobson, antigo editor da Marvel, como meu conselheiro, e Sven Larsen, antigo diretor de marketing da Marvel como meu diretor de operações. Isso se traduziu em vários negócios com a mesma Marvel e a Archie (editora norte-americana com títulos clássicos de quadrinhos adolescentes) e em breve a DC Comics que irá “arabizar” seu conteúdo. Isso significa que não apenas o projeto Os 99 seria desenvolvido por profissionais top de linha, como ele seria promovido ao lado de outros produtos que estão no topo dos melhores. Quando levantei minha primeira soma de financiamento, há dois anos, eu quis deixar claro que o projeto seria patrocinado por pessoas que não iriam interferir na minha criação. Não permiti que dinheiro de islâmicos conservadores entrasse na minha empresa e mantive controle da maior parte das ações para que minha visão não se tornasse a perspectiva de uma outra pessoa. JC – Modelos ocidentais de super-heróis e a cultura islâmica nas entrelinhas. Como esses dois tópicos podem se unir em Os 99? NAM – Os 99 personagens são de 99 países. É um mito, por exemplo, que todas as mulheres islâmicas se vestem como freiras. Na verdade, há tantas mulheres islâmicas liberais quanto há mulheres conservadoras. Caminhe por dentro de qualquer mercado no Golfo e vai entender do que estou falando. A cultura árabe e o Islã são constantemente vistos como uma coisa única. E há tantas versões do Islã quanto há pessoas querendo se identificar como muçulmanas. Tenho plena convicção de que ninguém tem o monopólio da verdade. Todos deviam ter a permissão de acesso igual às práticas de sua versão do Islã sem forçar outra pessoa a fazer o mesmo. Cerca de metade dos 99 personagens do projeto serão mulheres. Dessas, nove irão vestir o hijab (o véu islâmico) de nove diferentes maneiras. Uma usará até mesmo uma burca, seu nome será Batina. Um dos 99 atributos de Alá é o Al-Baten, ou seja, O Escondido. E Batina estará, de fato, escondida por trás de sua burca. Entre os 99, todos respeitam a tradição do próximo. Não há problema em personagens que vestem roupas ocidentais como não há problemas em mulheres muçulmanas que escolhem expressar sua identidade mostrando seu cabelo ou vestindo roupas ocidentais. JC – Há um sentimento de Liga da Justiça entre esses personagens? NAM – Há e não há. Haverá representação cultural na maneira como os personagens lidam soluções de problemas. Haverá também insinuações de como eles percebem os outros e como eles são percebidos. Mas, duvido que tenhamos que adicionar outro nível de diálogo cultural nessa mistura. Eles já são diferentes de todos os outros porque eles são “os escolhidos”. E são divididos quase pela metade em homens e mulheres. De forma que iremos pingar algo do ângulo da Liga da Justiça, mas não centraremos a história nisso. JC – Cada um desses 99 heróis não apenas têm diferentes atributos de Alá, mas diferentes nacionalidades, de modo que há como levantar assuntos como multiculturalismo. Como uma história em quadrinhos, focada na idéia de pessoas com superpoderes e, portanto, diferente das pessoas comuns, pode lidar com a idéia de uma comunidade internacional no lugar de uma comunidade que tolera os “diferentes”? NAM – Apesar dos personagens serem super-heróis, há um sentimento forte nas histórias de que eles poderiam ser qualquer um de nós. Meu propósito é para que crianças espalhadas por todo o mundo, muçulmanas ou não, identifiquem-se e se inspirem nos 99 atributos de Alá, atributos como generosidade, sabedoria, compaixão, piedade, atributos que qualquer cultura se orgulharia de ter. A mídia ocidental está focada em intolerância e violência, assim como os atributos do Islã se preocupam com isso. Na realidade, a ligação de pessoas da Al-Qaeda ao Islã pode ser a mesma entre o nazismo e o cristianismo. Toda cultura tem suas maçãs podres. É meu trabalho promover a bondade inerente numa civilização que acabou por perder contato com o resto da humanidade por ouvir demais as opiniões de pessoas que acham que pensar é trabalho do demônio. Esse processo de seleção negativa que nos deu esses líderes religiosos intolerantes só pode se reverter pela recuperação da riqueza que nós foi dada – a riqueza do Alcorão – e tornar isso um sentimento positivo que vá competir com esse ódio. E esse processo não pode ser externo, ele tem que vir de dentro. Haverá considerações culturais nos quadrinhos como os exemplos dos véus citados acima. Haverá também exemplos de personagens que querem usar seus poderes mais do que outros personagens, mas o trabalho em time terá que prevalecer no fim. JC – Mencione algumas pessoas que influenciaram seu trabalho como artista. NAM – Meu autor favorito é Pat Conroy. Sua narrativa joga com os personagens como se estivesse tocando minhas emoções como um violino. Ele faz ao coração o que Dan Brown fez com a mente. Recentemente comprei um livro de culinária que ele escreveu só para ter mesmo. JC – Você conhece algum artista brasileiro? NAM – Conheço Mike Deodato, mas não pessoalmente. “Os quadrinhos são politicamente poderosos” JORNAL DO COMMERCIO – Você escreve e desenha sobre aspectos políticos da vida desde a revista World War 3, e mesmo suas ilustrações refletem essa preocupação graficamente. Se você fosse o planeta, como iria fazer um auto-retrato seu?PETER KUPER – Um rosto bonito com uma gripe pesada. JC – Você conhece o trabalho de pessoas como Joe Sacco e Marjane Satrapi? Acha que os quadrinhos podem se desenvolver a partir de assuntos políticos? PK – Sou fã de ambos os artistas. Conheço Joe há muitos anos e recentemente publiquei um trabalho dele numa edição de World War 3. Acho que jornalismo nos quadrinhos usados como autobiografias são ideais para o meio e são algumas das várias formas com as quais os quadrinhos podem se expandir. Histórias em quadrinhos podem iluminar assuntos políticos complexos e podem informar a toda uma nova geração de leitores a respeito da situação mundial de uma maneira pessoal ou não. JC – Isso acontece mesmo se falarmos em quadrinhos de super-heróis? PK – Eu fui criado lendo quadrinhos de super-heróis, mas confesso que venho lendo pouco nesses últimos dias, de modo que estou um pouco por fora do que está acontecendo por aí. De qualquer forma, eu sei que os quadrinhos são capazes de ser afetivos e politicamente poderosos na medida em que um roteirista ou artista que sabe com o que ele está lidando faz desses assuntos algo que independe de gênero. Alan Moore provou isso várias vezes com quadrinhos de super-heróis.JC – Richie Bush... o quão presidente ele é? PK – Um personagem de cartum parecia apropriado para representar George W. Bush, já que ele parece viver em um mundo fictício, onde tudo que ele faz é correto e justificável. Aqui, no mundo real, no entanto, ele é um assassino mentiroso que está roubando nosso país e menosprezando a democracia. E não há nada engraçado nisso!JC – Você também é conhecido por ter assumido o cartum Spy vs. Spy na revista MAD. O quanto a MAD sintetiza o tipo norte-americano de humor? PK – De várias formas a revista MAD ajudou a definir o humor norte-americano. Ela influenciou as pessoas que criaram Os Simpsons, o jornal The Onion e vários programas de TV como o Saturday night live e o Daily show (não sei se vocês assistem a esses programas aí). Agora que a MAD afeta menos, pois tem que competir com várias outras coisas que chamam a atenção das pessoas, é difícil ter o mesmo impacto como ela teve no passado. Ainda assim, um grande número de pessoas cresceu com aquele tipo de humor, incluindo eu mesmo, e isso nos ajudou na forma como hoje percebemos o mundo. JC – O que você exibirá na exposição sobre seu trabalho no Recife? PK – Tenho apenas uma vaga idéia do que será exposto, mas eu mandei uma combinação de ilustrações e quadrinhos para dar às pessoas uma perspectiva ampla de meu trabalho. JC – A propósito, qual o trabalho do qual você mais se orgulha ter feito? PK – Hmmm. Acho que depende do dia. The system, uma graphic novel de 96 páginas sem nenhuma palavra, trabalho que fiz pra DC/Vertigo pode ser um exemplo. Mas hoje estou trabalhando numa autobiografia chamada Stop forgetting to remember (Pare de se esquecer de lembrar) que deve ser o melhor trabalho. Basta que eu o termine! JC – Você conhece algum cartunista ou quadrinista brasileiro? PK – Não, mas espero mudar essa situação agora. |
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