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Maurício de Nassau |
por Paulo Miceli
Biografia enfatiza a
passagem do representante do poder holandês pelo Brasil, traçando um perfil
original a partir de pesquisa inédita e abundância de detalhes
Em meio à intrincada trama, tecida pelas rivalidades que, na Europa de
fins da Idade Média, opunham e aproximavam os Estados nacionais em formação,
a partilha do mundo ocupou lugar de destaque. Enquanto proliferavam alianças
e tratados, de pouca eficácia, duração efêmera e obediência mantida apenas
pelo uso da força, a guerra moderna acabou transformando em miniatura os
exércitos envolvidos nas cotidianas batalhas medievais e, assim como o
capitalismo nascente, ampliou seu cenário à escala do planeta. Nesse
universo de rivalidades, o Brasil merece registro à parte, já que sua imensa
costa, aberta para o Atlântico, emoldurava um território de riquezas que
atiçou a cobiça estrangeira, desde o início do século XVI, atraindo os
interesses de todas as nações que possuíssem marinha. E foi por conta da
ineficácia das ações diplomáticas que coube aos canhões delimitar os
territórios do grande mosaico.
Nesse quadro, sumariamente traçado, é possível encaixar o chamado "Brasil
holandês", decorrência direta dos conflitos intra-europeus, especialmente
quando a unificação das coroas ibéricas (1580-1640) estendeu a Portugal e a
seus domínios ultramarinos as rivalidades mantidas pela Espanha, o que
incluía a Holanda e, grosso modo, acabou justificando a invasão do Brasil
pelos batavos, em 1624. Em meio aos abundantes registros historiográficos
sobre a ocupação do Nordeste, destaca-se a figura de João Maurício de
Nassau-Siegen, responsável principal pela consolidação da conquista batava,
a partir de sua chegada, em 17 de janeiro de 1637.
Curiosamente, faltava-nos uma investigação mais aprofundada sobre o papel
desempenhado pelo governador do Brasil holandês, lacuna agora preenchida
pela "biografia brasileira de Nassau", escrita por Evaldo Cabral de Mello.
"Brasileira", explica o autor, porque embora o livro descreva a trajetória
de João Maurício, desde as origens da família (genealógicas ou lendárias), e
termine com a baixa no exército holandês (1676) e sua morte, três anos
depois, o foco principal da biografia foi o período em que Nassau viveu no
Brasil. Além de manter constante a interlocução que teve, e agora perpetua,
com o maior conhecedor do Brasil holandês, J. A. Gonsalves de Mello, com
quem dialoga em várias passagens do livro, o biógrafo pesquisou documentação
abundante - a maior parte inédita no Brasil -, buscada em arquivos e
bibliotecas estrangeiras. O resultado foi uma erudita narrativa, construída
com minúcias até difíceis de se acompanhar numa primeira leitura, mas que
desenham um perfil absolutamente original e preciso de Nassau.
Tendo sempre em mente as influências que o ambiente da "primeira economia
moderna" exerceu na formação do governador - como, por exemplo, a tolerância
religiosa, que tanto facilitaria sua atuação no Brasil -, Cabral de Mello
apresenta-nos os passos iniciais de sua carreira militar, até a destacada
atuação em Maastricht, em 1632, quando chefiou forças para romper um cerco
imposto pelas tropas inimigas, "proeza que lhe valeu o comando de um
regimento de cavalarianos". A partir daí, enquanto prosseguiam as lutas no
Nordeste brasileiro, a trajetória de Nassau tomou forte impulso, e a
lentidão da ocupação do Nordeste é que teria colocado a necessidade de se
escolher "um chefe com autoridade bastante para exercer a gestão unificada
da colônia". Nassau foi o eleito, abrindo-se para ele novos e vastos
horizontes, capazes de satisfazer "suas ambições de avanço profissional, até
então sofreadas pela lentidão da carreira militar".
A formação intelectual de Nassau também mereceu tratamento detalhado no
livro, a começar pelo ambiente familiar e pela atuação de tutores, o
aprendizado de idiomas e os estudos de retórica, história, filosofia,
teologia e astrologia. À matemática, de grande importância para a carreira
militar, acrescentaram-se conteúdos destinados a preservar uma cultura
militar nobiliárquica, como a equitação e a esgrima, além da música e da
dança. Formaram-se, assim, as raízes de sua grande curiosidade artística e
científica, responsável pela inclusão, dentre as exigências apresentadas à
Companhia das Índias Ocidentais, da possibilidade de trazer ao Brasil seu
grupo de artistas e cientistas.
Em síntese, da leitura de Nassau - governador do Brasil holandês, sobra-nos
a impressão de que ele conjugava os ideais renascentistas de valorização do
indivíduo, o que o habilitaria a organizar, pela razão, o seu mundo e o dos
outros, e as aspirações utópicas, materializadas na construção de palácios,
em meio a jardins e cidades, cuidadosamente planejados, sem abdicar do
pragmatismo a que estava obrigado, por suas relações nem sempre cordiais com
o Conselho dos XIX, que dirigia as ações da Companhia das Índias Ocidentais,
a partir de Amsterdã. Tudo isso, aliás, era feito, sem que o governador
descuidasse de seus interesses particulares, alicerçados em uma brilhante
carreira militar e política, sempre muito bem remunerada. Nassau conseguiu,
assim, formar razoável patrimônio, que ele tentou ampliar até o final da
vida. Exemplo disso foi o oferecimento dos "retratos de todo o Brasil" a
Luís XIV, aconselhando-o a utilizar a obra dos artistas que manteve durante
seu governo no Brasil na confecção dos gobelins. A brasiliana foi exposta no
Louvre, sem a presença de Post, vitimado pelo alcoolismo, Nassau morreu logo
depois, antes de receber o pagamento acordado, fabricando-se as famosas
séries de tapetes (Anciennes Indes e Nouvelles Indes) apenas dez anos
depois.
Enfim, paradoxalmente, da guerra sobreviveu principalmente a arte, mas,
depois da leitura deste livro, o perfil do governador do Brasil holandês não
poderá mais ser reduzido a seu fracasso militar no Nordeste.
(©
História Viva)
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