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As questões do cinema são discutidas em Fortaleza

Cena do filme mexicano Ao Outro Lado, de Natália Almada, que participa do Cine Ceará

Orlando Senna e Fernando Birri foram as grandes estrelas do 1.º Seminário Fortaleza da Diversidade Cultural, promovido pelo festival Cine Ceará

Luiz Zanin Oricchio

FORTALEZA - As duas grandes estrelas do primeiro dia do 1.º Seminário Fortaleza da Diversidade Cultural foram os cineastas Orlando Senna, atual secretário do audiovisual do Minc, e o cineasta argentino Fernando Birri, o grande homenageado desta 16.ª edição do Cine Ceará.

Senna abriu o seminário discutindo os conceitos que norteiam o encontro, realizado no campus da Unifor (Universidade de Fortaleza). "A diversidade cultural é um corolário da liberdade de expressão e esta não pode existir num contexto de hegemonia, como a que os Estados Unidos impõem ao mundo", disse, referindo-se à presença de fato quase absoluta do audiovisual norte-americano nas telas do mundo. Senna ressaltou que esse domínio vai de encontro às próprias propostas da Organização Mundial do Comércio (OMC), que defendem a livre concorrência entre os agentes econômicos. E falou das dificuldades políticas que se enfrenta com a cota de tela "atualmente fixada em 41 dias de exibição obrigatória de produção nacional nos cinemas".

O secretário lembrou que uma das propostas do Mercosul seria a adoção de uma "cota de tela continental", obrigando os cinemas a exibir não apenas a produção nacional durante certo número de dias ao ano, mas também a dos países membros do bloco. "Mas a simples menção dessa nova cota de tela já despertou manifestações contrárias do cinema hegemônico, que a considerou inaceitável de antemão", disse. Orlando Senna afirmou ser fundamental "lutar com todas as forças contra essa hegemonia no campo do audiovisual".

Globalização quer dizer uniformização e não diversidade, diz Birri

Em sua fala, bastante aplaudida pelos presentes, Fernando Birri lembrou que o exercício da diversidade, pelo menos no âmbito latino-americano, passa também pela questão da identidade: "Não se pode falar de diversidade se não sabemos quem somos, qual é a nossa personalidade cultural". Essa diversidade, conforme o cineasta argentino, se dá dentro de uma unidade, a do continente latino-americano, que compartilha a mesma base histórica e econômica, a do subdesenvolvimento. Distinguiu assim "unidade", do termo mais em voga, "globalização" que, a seu ver, implica o contrário dessa unidade dos diferentes tão sonhada - "globalização quer dizer uniformização e não diversidade", disse.

Birri, barbas brancas, 81 anos e ar de profeta, se confessa um utopista, "mas utópico de olhos bem abertos, porque ninguém quer ignorar a realidade que nos cerca e é bem cruel", disse. Lembrou que as grandes utopias nascem em momentos difíceis e citou o filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha, como exemplo de um cinema que conseguiu transcender seu caráter nacional para tornar-se obra de dimensão continental, latino-americana e terceiro-mundista.

Na mesma sessão, Orlando Senna, como se desse um exemplo prático dessa tese da diversidade, anunciou os vencedores do segundo programa Redescobrindo os Brasis. São mais 40 vídeos, que serão dirigidos por moradores de cidades de até 20 mil habitantes, espalhadas pelo Brasil todo. Elas receberão assistência técnica de profissionais do audiovisual para registrar, por conta própria, a realidade de suas comunidades.

Senna disse que, de certa forma, esta é uma inversão de perspectiva: "Até então havia um jornalista ou documentarista, vindo de cidade grande, que registrava o cotidiano ou as histórias dessas pequenas comunidades; agora são os próprios moradores que fazem os seus filmes, com seus próprios pontos de vista". O secretário disse que todas as iniciativas do Minc se dão nesse sentido: o da descentralização de visões e da aplicação de recursos.

Lembrou também que nesta quarta-feira o presidente Lula dará entrada no Congresso do projeto de lei que cria o Fundo Setorial do Audiovisual e prorroga a Lei do Audiovisual por mais dez anos. "Os dispositivos desse projeto foram discutidos e aprovados no Conselho Superior de Cinema e receberão os devidos créditos por isso", disse Senna.

O seminário prossegue amanhã com a presença de Ariano Suassuna e, na quarta, com o poeta Thiago de Melo. Na quinta, está prevista a presença do Ministro da Cultura Gilberto Gil para o encerramento dos trabalhos.  

(© Agência Estado)


Los cinéfilos

Que o Cine Ceará agora é ibero-americano, ouviu-se a semana toda. O que significa essa fatia estrangeira, é outra história. O Vida & Arte Cultura recorta o contexto da produção da América Latina, situa distribuição e a insuficiência de políticas públicas difusoras no setor

Felipe Gurgel
da Redação


Por aqui, o senso comum dos espectadores de cinema desconfia, nutre receio frente a produções fora dos padrões da linguagem do cinema hollywoodiano. Embora o cinema brasileiro hoje movimente o mercado, tome o gosto do público e parte das salas de exibição. Filme iraniano é cartaz para platéias seletas, por exemplo. Chamado "cult" - não raro em tom de deboche. Sem distribuição e políticas públicas de difusão em larga escala e alcance, a produção audiovisual dos vizinhos também carrega a pecha. Entenda-se como os "vizinhos": o cinema produzido nos países da América Latina. Cuba, Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai, México, e outros.

A pretexto da realização do Cine Ceará - que este ano exibe sua primeira edição ibero-americana, ampliando o perfil às produções latinas, de Portugal e Espanha - O POVO sinaliza por onde caminha o segmento: produção, história, distribuição, nichos de exibição e repercussão local. O festival acentua a programação sob várias referências ao tema: a Mostra Competitiva de Longas Metragens exibe nove filmes estrangeiros no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano, entre 11 concorrentes; o argentino Fernando Birri, um dos pais do Novo Cinema Latino-Americano, é o principal homenageado; e a Casa Amarela Eusélio Oliveira sedia a Mostra em Homenagem aos 20 anos da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de Los BaÀos - instituição a 40km de Havana, capital da ilha de Cuba. Um dos berços das grandes produções latinas, segundo material de divulgação do próprio evento.

"Vivendo no Nordeste, que não faz fronteira, nós sabemos que eles existem, mas nos mantemos um pouco a parte. Hoje em dia, se ensina espanhol nas escolas, a gente sente o Mercosul. Mas acho importante manter uma mentalidade de ser latino. Alguns festivais já tentaram, como o de Gramado (RS). Essa tentativa do Cine Ceará se colocar como parte dessa família é importante. Tem espaço, mas ainda é uma coisa de experimentação. Vamos ver como o público responde, se há interesse nessa cinematografia", observa o cineasta cearense José Araújo, diretor de As Tentações do Irmão Sebastião, concorrente das produções ibero-americanas, ao lado do longa metragem baiano Agostinho da Silva - Um Pensamento Vivo, de João Rodrigo Mattos. A organização oferece um prêmio de U$ 10 mil ao longa vencedor. O cineasta admite: "Não conheço nada dos competidores. Soube que um dos filmes argentinos (Iluminados por El Fuego, de Tristán Bauer) é super premiado. É o único que ouvi comentários. A gente nunca vê esses filmes".

A freqüência da Mostra dos trabalhos dos ex-alunos da Escola de San Antonio de Los Banõs corroborava a idéia. Na última quarta, 31 de maio, a abertura teve a exibição de curtas e um longa metragem. E prossegue assim até quinta, 8, sempre a partir das 16h, no Cine Benjamin Abrahão da Casa Amarela Eusélio Oliveira da Universidade Federal do Ceará, no bairro Benfica. A princípio, o curta Regrésion (1993), de Basilio Garcia Reyes, e a seqüência da programação atraíram boa platéia à proporção do pequeno espaço.

"Quero expandir meu repertório de filmes. Os mais undergrounds têm mais conteúdo, geralmente. Além do Cine Ceará, só vejo filmes alternativos no Centro Cultural Banco do Nordeste, de vez em quando. De cinema brasileiro, vejo pouca coisa. Até que porque a gente tem mais acesso aos globais: a Hollywood brasileira. Muita produção, e só", atesta o estudante secundarista, Ricardo Luiz, 19, à espera das exibições. O professor Samuel Caracas, 41, também desconhecia os trabalhos da mostra. "Tinha referência da Escola porque conheço o Amaury Cândido (jornalista cearense e ex-aluno da instituição). Tento não ver cinema hollywoodiano. Gosto de cinema espanhol, (Pedro) Almodóvar, cinema europeu, cinema onde as coisas e pessoas não se explodam com tanta facilidade", observa.

SERVIÇO

16º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema - Até quinta, 8 de junho, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro (Praça do Ferreira, s/n - Centro), Casa Amarela Eusélio Oliveira (avenida da Universidade, 2591 - Benfica) e Espaço Unibanco do Centro Dragão do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema), além de mostras nos bairros (ver programação). Credenciamento: 1 kg de alimento não-perecível em troca da credencial, que dará direito a acompanhar as mostras competitivas e paralelas em todos os locais de exibição, exceto para a solenidade de encerramento. Postos de troca: quiosque do Serviço Social do Comércio (Sesc) montado na Praça do Ferreira, Casa Amarela e 11 postos credenciados. Info.: 4009.7772/7773

(© O Povo, 03.06.2006)

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