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O livreiro e editor
Tarcísio Pereira |
O livreiro Tarcísio Pereira se prepara para lançar seu
primeiro livro, contando a sua trajetória de batalhas na Livro 7, reduto
para intelectuais, artistas, políticos e idealistas do Estado
Por
Marcelo Pereira
Sem a pressa que aniquila o verso, o livreiro e editor Tarcísio Pereira se
prepara com discrição, em surdina, para contar a história de uma paixão que
não esmoreceu: os livros, razão de sua aventura pessoal e empresarial na
Livro 7, que durante cinco anos pontificou no Guinness Book – o livro dos
recordes – como “a maior livraria do Brasil”, nos anos 80.
Tarcísio, no momento, lê biografias, memórias, correspondências e livros de
assuntos afins. Em busca do tempo vivido, aprende lições deixadas na
correspondência entre Marcel Proust com o seu editor Gaston Gallimard,
figuras exponenciais da literatura francesa e mundial no início do século
20.
A
aventura começa antes mesmo de o jovem estudante potiguar abrir a pequena
loja de apenas 20 m², inaugurada na galeria do Edifício Amaragi, na Rua Sete
de Setembro, e na qual cabia no máximo dois mil títulos em suas prateleiras
– e tem o seu momento culminante quando a Livro 7 passa a ocupar o imenso
galpão instalado no número 318 do mesmo endereço. Na Rua Sete de Setembro,
Tarcísio viveu seu idealismo, pioneirismo e dias de glória. Guerrilheiro
cultural, enfrentou os anos turvos da sombria ditadura militar transformando
a Livro 7 numa trincheira da resistência intelectual e democrática na
capital pernambucana.
O imigrante judeu Jacob Berenstein foi seu grande mestre. Livreiro, que
inaugurou em 1930 a primeira loja na Rua da Imperatriz Teresa Cristina. Por
suas mãos, Tarcísio iniciou o aprendizado na Livraria Imperatriz. O velho
Jacob começou vendendo livros como mascate, de porta em porta, e em 1956
precisou recomeçar, depois que um incêndio destruiu a Livraria Imperatriz,
hoje uma das maiores redes do Recife.
Durante seis anos, Tarcísio se inteirou do ofício de livreiro no convívio
diário na Imperatriz. O momento político era bastante difícil, com a
repressão militar batendo à porta. Não poucas vezes, Tarcísio viu os
militares fazerem busca de livros proibidos.
O jovem idealista saiu da Imperatriz em fins de 1969 com dois objetivos:
prestar exames de vestibular e abrir uma livraria. Depois de muita procura,
encontrou a tal loja na galeria Amaragi. E no dia 27 de julho, o mês 7, de
1970, no 7° dia da semana, um sábado, surgia a Livro 7. Até mesmo o nome
daquele edifício da Rua Sete de Setembro tem também sete letras.
Neste espaço exíguo, os intelectuais de esquerda se encontravam. Tarcísio
passou a promover lançamentos, que ganhavam espontaneamente espaço na
imprensa. “Foi lá que Jarbas Vasconcelos, em 1971, lançou o seu livro sobre
o trabalho na área da cana-de-açúcar. Nagib Jorge Neto lançou O Presidente
de Esporas, que deu início ao movimento Mediarte, com Ivan Maurício. As
noites de autógrafos com Hermilo Borba Filho, os torneios de xadrez, as
exibições de filmes em Super 8 de Celso Marconi, Fernando Spencer e Jomard
Muniz de Britto, as performances de Paulo Bruscky, os recitais com José
Mário Rodrigues, Roberto Pimentel e a atriz Clenira Bezerra de Melo lotavam
a galeria do prédio, para desespero do síndico. Esse foi o início da Livro
7, onde contei com a inestimável colaboração da minha irmã Suely Pereira,
que depois de alguns anos fundaria com Murilo Alves a Livraria Síntese”,
relembra.
O casarão, em quatro anos, ficou pequeno para a livraria. Foi aí que surgiu,
em 1978, o grande galpão na mesma rua, no número 329. E lá se foi a Livro 7
com a proposta de ser a maior livraria do Brasil. Não demorou muito para que
fosse adquirido um grande terreno na Rua do Riachuelo para ser anexado ao
galpão, tornando-se comprovadamente, a partir de 1993, a “maior Livraria do
Brasil”, segundo o Guinness Book, em extensão de prateleiras e quantidade de
títulos: 60 mil.
“Com esse reconhecimento, a Livro 7 passou a ser uma atração. Turistas de
toda parte vinham conhecer, fotografar e comprar naquela casa que Gilberto
Freyre chamava de ‘uma pan-livraria’ e que Fernando Sabino batizou de
“Maracanã do Livro”. Visitar a livraria tornou-se obrigação para o mundo
artístico e intelectual. Conviver com toda essa gente virou rotina para
todos nós que fazíamos aquela casa”, relembra Tarcísio, que tinha em seus
cavaletes e prateleiras 60 mil títulos, distribuídos em cerca de 1.200 m².
Tarcísio não media esforços para divulgar o autor nordestino, que sempre
tinha um lugar de destaque logo na entrada da livraria. Apesar de todo este
sucesso, o sonho acabou. E se a Livro 7 é hoje história e memória é porque
foi solapada pelos temporais das instabilidades econômicas do país e sua
crises.
Sem a Livro 7, a paixão pelos livros fez Tarcísio arriscar-se em mais uma
empreitada: uma livraria virtual, a Livrosite, um achado em termos de
trocadilho, uma vez que ele não poderia voltar a usar o nome Livro 7
legalmente. Tarcísio investia na venda à distância, por telefone ou
internet. O empreendimento não vingou.
Tarcísio não entregou os pontos: em 2002, ele topou uma nova parada: foi
convidado pelo Grupo Elógica, de informática, para dirigir o projeto da
Livro Rápido, com a qual viabiliza a publicação de autores independentes,
imprimindo tiragens pequenas. Com o bom-senso de sempre, Tarcísio orienta,
dá sugestões com a experiência de quase cinco décadas no mercado livreiro. A
Livro Rápido, se necessário, faz toda a parte de programação visual e
preparação de texto da obra. Auxilia também na comercialização do livro, com
a venda on-line e paga os direitos autorais pela venda dos livros.
A Livro 7 deixou muitas lições para Tarcísio Pereira. Ele deve guardar
algumas mágoas ou trazer consigo cicatrizes. Folião inveterado, extravasa
com humor as mazelas da vida na anárquica agremiação carnavalesca “Nois
Sofre Mais Nois Goza”, que há 30 anos arrasta multidão, saindo da mesma Sete
de Setembro que viveu as glórias da Livro 7.
Marcelo Pereira é poeta e jornalista
(© Continente
Multicultural) |
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