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Linhagem de Gonzagão pode chegar ao final

reidobaiao.com.br

Joaquinha Gonzaga

Apenas três descendentes diretos de Januário, pai de Luiz Gonzaga, permanecem na carreira musical

JOSÉ TELES

No auge do sucesso do baião, Luiz Gonzaga apresentou com a família, na Rádio Tamoio, o programa Os Sete Gonzaga, com participação do pai Januário, as irmãs Raimunda (chamada de Muniz), Geni e Chiquinha Gonzaga e os irmãos Aluizio, Zé Gonzaga e Severino Januário. Dos sete, só Chiquinha Gonzaga e Muniz continuam vivas e apenas a primeira trabalha com música. Da geração seguinte da família do Rei do Baião poucos mostraram inclinação em seguir a carreira. Hoje, a linhagem musical dos Gonzaga limita-se a Chiquinha Gonzaga, 80 anos, seu filho Sérgio e o sobrinho Joquinha. Os três estão lançando discos novos, Oito & oitenta (Chiquinha), Cantos e causos de Gonzagão (Joquinha), e Forró, do meu avô e Reza, da minha avó (Sérgio).

Chiquinha Gonzaga era muito pequena em 1930, quando Luiz Gonzaga fugiu de casa, em Araripe, no município de Exu, para 15 anos mais tarde ser um dos maiores nomes da MPB em todos os tempos. Ela lembra que ia crescendo e manifestando vontade de tocar no oito baixos do velho Januário, algo que a mãe, Santana, não permitia: “Naquele tempo mulher não tocava sanfona, mas depois que comecei, nunca senti discriminação, não”, conta Chiquinha, que cantava os primeiros sucessos do irmão bem antes de eles serem conhecidos do País inteiro: “Aquelas músicas a gente já sabia no Araripe. Juazeiro, Asa branca, eram tocadas pelo meu avô. Juazeiro se chamava Catingueira. Um coco que Zé Gonzaga gravou (cantarola) ‘camarão é peixe bom, camarão’, minha avó cantava para nós, botava a gente para dançar com este coco”, relembra.

As oito décadas parecem ter aguçado a memória de Chiquinha, que narra com detalhes a saída da família de Exu, em 1949, durante uma das muitas rixas entre os Alencar e os Sampaio,: “Foi quando eu conheci o Recife. Gonzaga mandou o cunhado dele, irmão de Helena, comprar um caminhão para levar a família para o Rio porque minha mãe não aceitava ir de navio. Esse caminhão foi consertado, reformado, ficou um pau-de-arara bem ajeitadinho. Levamos oito dias para chegar ao Rio”. Chiquinha diz que quem a incentivou a seguir a carreira de cantora foi Luiz Gonzaga, inclusive conseguindo com que ela gravasse o primeiro disco, um 78rpm, com Pronde tu vai Lui? em dueto com o irmão famoso. Com o casamento ela parou com a profissão, só retornando com o falecimento do marido: “Passei uns dez só fazendo show, até Gilberto Gil me convidar para participar do documentário Viva São João. Aí comecei a gravar de novo”, conta Chiquinha.

Ela encontrou, obviamente, um mercado muito diferente e, segundo sua opinião, não para melhor: “Está tudo se perdendo, com esse monte de banda no meio do mundo. Eu chego lá no Exu, vou no parque Asa Branca e está cheio de ônibus de bandas. A gente foi tocar no Araripe (povoado, onde Luiz Gonzaga e os irmãos nasceram), porque o povo de lá é carente de um bom forró, aí chega um sujeito com uma caminhonete e bota um som que não deixa ninguém ouvir nada que a gente canta”. A irmã de Gonzagão estranha também o forró que é feito hoje pelos forrozeiros autodenominados de pé-de-serra: “Eu estava com Xico Bizerra vendo um show e aí perguntei para ele: ô Xico tu prestou atenção no tanto de gente que já subiu neste palco e não tocou nada ainda, só xote? Eu gosto de xote, mas estou com 80 anos e ainda aprecio muito um forrozinho”, comenta Chiquinha Gonzaga, que há cinco anos veio para o Recife.

Sérgio Gonzaga, filho de Chiquinha, também tocou com o tio Gonzagão, nos anos 70: “Dirigia o carro dele e tocava zabumba, mas só nas férias, naquela época eu fazia o científico”. Aos 50 anos, somente agora Sérgio estréia em disco. Aliás, com dois discos. No primeiro, gravou forrós compostos por ele. No segundo, resgatou, literalmente, os benditos que eram cantados nas novenas na casa da avó Santana e pelas tias, um repertório que remonta ao século 19 (os discos devem ser lançados em julho).

A 600 km da capital, em Exu, vive Joquinha Gonzaga que, como quase todos da segunda geração da família, nasceu no Rio. Ele é o mais atuante desta geração. Sua carreira solo começou em 1980 e já contabiliza uma discografia de dez títulos e incontáveis quilômetros rodados País afora. Filho de Raimunda Gonzaga, a primeira dos Sete Gonzaga que trocou a carreira pelo casamento, ele, até os 14 anos, raramente pegava numa sanfona. Foi então que Luiz Gonzaga descobriu no sobrinho qualidades insuspeitas de artista: “Ele me presenteou com um oito baixos. Um ano depois me deu uma sanfona de 80 baixos. Em 1975, quando dei baixa do Exército, me convidou para acompanhá-lo”, conta Joquinha. Foram cinco anos viajando com Luiz Gonzaga, acumulando experiências e histórias, que ele começa a reunir em livro: “Estou escrevendo os causos que testemunhei durante os anos que trabalhei com tio Gonzaga. Escolhi três deles para contar no meu disco novo”, diz Joquinha.

Assim como a tia, Chiquinha, ele nutre particular ojeriza às bandas do chamado forró eletrônico: “Forró eletrônico era o que fazia o LG Som, o grupo que Tio Gonzaga montou nos anos 70, com guitarra, baixo e bateria, além dos instrumentos do forró. Estas bandas entraram no mercado quando Gonzaga morreu. Infelizmente, dominaram o mercado, com produtores bancando tudo e o forró, a verdadeira cultura, foi ficando para trás, precisando de patrocínio para sobreviver”, lamenta. Ele reconhece que em tecnologia o forró tradicional perde fácil para as bandas: “Os caras botam no mesmo palco Joquinha Gonzaga e Calcinha Preta. Só que ninguém vai olhar para Joquinha. Os próprios músicos da banda olham com desdém”, analisa, e continua: “Mais triste ainda é que você faz um disco, leva numa rádio pensando que vão tocar, e os caras cobram. Se não pagar não toca”.

(© JC Online)


Muito respeito ao oito baixos

Todos na família tocam um instrumento, mas é a neta de Arlindo a única a seguir os passos do avô. Ela já sonha em montar sua banda

OLÍVIA MINDÊLO
Especial para o JC

Em quase todo ritmo popular brasileiro que se preze, a música brota de forma espontânea – nas ruas, nas calçadas e principalmente no quintal de casa, isto é, entre os familiares. O samba, nem precisa citar, várias vezes é assim. Com o forró, também. Pelo menos entre vários forrozeiros do Nordeste. É o caso, por exemplo, de Arlindo dos Oito Baixos. Por trás da badalação de sua casa em Dois Unidos, que lota num domingo como este para receber mais de 500 pessoas que vão ao local arrastar o pé, existe uma família que cresceu ouvindo e tocando o gênero.

Arlindo teve três filhos, dois homens e uma mulher, e oito netos. A maioria tem afinidade com algum instrumento do forró, particularmente de percussão, e muitos têm, ou ainda querem ter, a música como profissão, meio de sobrevivência. É o caso de Dayane Macedo. Neta do forrozeiro, ela tem apenas oito anos e já sonha em ser musicista. O que a menina tem de especial é que, diferente dos demais parentes, ela é (ironicamente) a única seguidora de Arlindo: escolheu a sanfona como sua companheira. É verdade que o avô trocou a sanfona pelo instrumento de oito baixos, mas nenhum de seus filhos ou netos quis levar o principal elemento do forró, o harmônico, a sério.

Raminho, um de seus filhos, é zabumbeiro. Além de acompanhar a banda do pai, já tocou com grupos como Quinteto Violado e a banda de Santanna. Adilson, o irmão, também é músico profissional, mas toca contra-baixo. Érika, caçula de Arlindo e mãe de Dayane, por sua vez, gosta de triângulo, zabumba e agogô, embora só toque “de brincadeira” nas festas em família. “Eu tinha interesse em ensinar safona aos meus filhos e eles até levam jeito, mas nem Raminho nem Adilson quiseram. Dayane começou (aos seis anos) pegando no instrumento sem eu nem mandar. Fazia tudo certinho, sem ninguém dizer nada. Aí notei que ela tinha jeito e que valia a pena ensinar”, conta Arlindo, de 65 anos.

Desde então, a netinha não parou mais. Quando o avô tem tempo, entre uma folga e outra com os alunos de sua escolinha, dá aula a ela. Mas, pelo jeito, nem vai precisar tanto. Dayane conta que começou a aprender olhando Arlindo botar “os dedos nos botões” da sanfona. “Eu via meu avô tocando, aí fazia igual. Eu gosto do som”, diz a sanfoneira mirim. Até agora, ela só tem três músicas no repertório – Asa branca, Sanfona dos oito baixos e Sabiá – e está aprendendo Brasileirinho. O número de músicas parece pouco para dois anos de aprendizado, mas o de participações em shows de Arlindo e outros forrozeiros, é grande, embora ninguém saiba quantas ao certo. O fato é que, em quase toda apresentação do avô, ela dá uma canja – e leva jeito. Nessa época de São João, então, é fácil vê-la em Dois Unidos, ou em outros pólos da cidade.

O interessante é que, além dela, mais três crianças da família Arlindo arriscam um som no salão. São eles: Vítor Vinícius, Artur (ambos filhos de Raminho) e Tomas (de Adilson). Eles preferiram a percussão e, ao lado da prima, podem formar um trio, ou melhor, um quarteto de forró pé-de-serra da nova geração. “A banda vai se chamar Dayane e seus meninos”, adianta a “líder”.

O avô sempre aconselha os netos a serem forrozeiros. “O meu pai não queria que eu tocasse sanfona, porque não via futuro em ser músico no interior. Agora, não tem isso. Quem toca bem, vive bem. Então, eu incentivo, quero que eles toquem”, diz Arlindo.

(© JC Online)


Repertório sofre com pouco espaço para novos autores

Intérpretes que gravam discos de forró normalmente recorrem a nomes consagrados como Luiz Gonzaga e a pouquíssimos talentos da nova geração. O resultado é que a maioria termina soando muito parecida

JOSÉ TELES

Há anos que nenhum cantor ou compositor de forró lega ao gênero um clássico junino. Este ano não está sendo diferente. As músicas mais tocadas (em duas ou três rádios, se muito, principalmente a Rádio Jornal) são xotes com Santanna O Cantador, Se você quiser (Xico Bizerra), Me dá teu coração (Accioly Neto), de Irah Caldeira, Quero ter você (Pekin e Mourão Filho), e Daniel Bueno, Não chores mais, (versão de Gilberto Gil). Nenhuma delas faz a menor alusão ao padroeiro da festa. Por outro lado, nunca se lançaram tantos títulos de forró. A dificuldade é alcançar o rádio, ainda o principal canal entre o artista e o público. Um obstáculo que muita gente boa nem está tentando mais vencer, deixando o disco em segundo plano. Caso do cantor e compositor Maciel Melo, um dos destaques do forró atual, que passou dois anos sem lançar nada inédito e que vai divulgar o CD novo durante os shows que fará nos festejos juninos pelos Brasil. Eis alguns dos mais recentes lançamentos, poucos dos quais, certamente, o leitor ouvirá no rádio.

Forró popular brasileiro (Atração Fonográfica) – Com Santanna O Cantador – O nome de maior projeção do forró nos últimos dez anos, o cearense Santanna fez um disco emblemático, trazendo no repertório as qualidades e defeitos do forró atual. Os compositores, com raras exceções, esqueceram-se dos vários ritmos embutidos no termo forró (rojão, baião, xaxado, coco, marcha-de-roda) e limitam-se aos xotes. Felizmente, o disco começa com dois bons xotes, Se tu quiser (Xico Bizerra) e Me dá meu coração (Accioly Neto). E aí aparecem as fraquezas. Tirando o xote de Xico Bizerra, as músicas de destaque do disco são antigas. A de Acciolly já havia sido gravada por ele e por Eliane (a rainha do forró alambadado). E o melhor do disco, além das duas faixas citadas, acaba sendo as regravações. Santanna regrava Almir Sater (Tocando em frente), Luiz Bandeira (Fulô da maravilha), clássicos de Luiz Gonzaga, e, ao vivo, seus dois maiores hits, as já meio exauridas, Tamborete de forró (um lado B de Gonzagão), Ana Maria (regravação de um sucesso dos Três do Nordeste, de 1973). Em suma, o forró hoje em dia vive de exceções e regravações, com inevitáveis e cada vez mais redundantes citações a São Luiz Gonzaga.

Coração cantador – Com Roberto Cruz – A responsabilidade é das gravadoras que deixam mais de 90% da discografia do forró fora de catálogo. Resultado: forrozeiro com menos de 40 anos tem praticamente como única referência Luiz Gonzaga, e aí é feito um peladeiro espelhar-se em Pelé. Covardia! E tome xote romântico. Amor não faz mal a ninguém, mas tudo demais, até bolacha Maria, enjoa, mesmo com algumas melodias inventivas. Aqui tirando Pandeiro doido (Roberto Cruz e Xico Bizerra), um coco em dueto com Silvério Pessoa, o restante do repertório tem o amor na dezena, centena e milhar. Roberto Cruz recebeu canjas de Santanna, Geraldinho Lins, Andrezza Formiga e Bia Marinho.

Forró 3 – Com Daniel Bueno – Se o interesse comercial não falasse mais alto, talvez Daniel Bueno entrasse para o primeiro time do forró, a tirar por duas ou três composições suas neste disco. Mas ele prefere seguir a fórmula das bandas de lambada. Regravou em ritmo de xote, Não chore mais, versão do reggae No woman no cry, que Bob Marley cantou e compôs (assinando como Vincent Ford), um dos maiores sucessos da carreira de Gilberto Gil (autor da versão), e Nathalie, na versão que estourou com os Fevers há 30 anos. Os bons forrós Na fazenda do vovô (do próprio Bueno) ou regravações tais como o coco Forró no escuro (Zé Dantas) se perdem pelo oportunismo das versões convertidas ao pé-de-serra.

Veredas do forró – Com Paulinho Leite (Polydisc) – Quarto disco do arcoverdense Paulinho Leite. Segue a mesma linha dos outros, ou seja, com composições dos autores mais requisitados de hoje (Anchieta Dalí, Petrúcio Amorim, etc.), mas não deixa de pinçar figurinhas carimbadas de repertórios consolidados, no seu caso, o de Alceu Valença, de quem regravou Cinco sentidos, Tomara e Espelho cristalino. Paulinho Leite é bom cantor e acaba fazendo um bom disco pela falta de pretensão. O xote romântico manda no repertório, mas fazer o quê? Xote acaba virando sinônimo de forró.

Território nordestino – Forró universitário pernambucano, ou seja, feito por jovens de classe média que gostam realmente do gênero, mas não o conhecem o suficiente para ir além do xote romântico e regravações de canções bem-conhecidas. Para animar um forrobodó, o som do Território Nordestino é de bom tamanho, até porque não se limita ao tripé, sanfona, triângulo, zabumba, valendo-se de violão e baixo elétrico (no que estão certos, afinal, até o grupo de Marinês usa baixo). Não é forró que prime pela tradição, nem podia ser, pela origem dos integrantes, mas é mil vezes preferível ao mau gosto das letras, supostamente engraçadas, de bandas de lambadas como Saia Rodada ou Aviões do Forró. Gravado ao vivo, no Oitão Bar, a qualidade do som não é das melhores, dá apenas uma idéia do que é a banda no palco.

Meu nome é Severina, Sevy Nascimento – Sevy Nascimento canta bem, tem um timbre bem pessoal de voz e está aí bem antes desta onda de xote romântico. Se bem que o romantismo também seja o tema mais comum em sua música. Seu disco passeia pelas várias nuances do forró, do baião ao samba, não se apega tanto ao xote. Sevy assina a maioria do repertório, que traz uma rara canção de Camarão e é das poucas que não apela para o inesgotável filão de Gonzagão.

(© JC Online)

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