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"Árido" Ortinho mostra seu novo álbum em SP

O caruaruense Ortinho se apresenta em São Paulo

No espetáculo, cantor fala sobre política, cultura e o que restou do mangue beat

Depois de "Ilha do Destino", o músico toca faixas de "Somos", trabalho que tem influências de nomes como Gilberto Gil e Lou Reed

JOSÉ ALBERTO BOMBIG
DA REPORTAGEM LOCAL

Sempre que o pernambucano Ortinho aporta em São Paulo, a terra treme, nem que seja apenas sob os palcos ou mesas nas quais o "árido músico" detona seu som e destila opiniões a respeito de cinema, política, patrocínio cultural e, é claro, o que restou hoje da cena mangue beat.

Egresso do movimento que teve em Chico Science (morto em 1997) seu maior expoente, desta vez ele está na capital paulista para lançar "Somos", seu novo álbum solo, que traz a faixa "A Terra Tremeu" como um dos carros-chefes. Hoje, Ortinho e banda apresentam o trabalho inédito no Studio SP.

Feito na raça, já que o próprio autor correu atrás dos recursos, o disco independente teve a camaradagem de muitos músicos, como Pupilo, da Nação Zumbi, e o patrocínio de estatais federais (especialmente em ano eleitoral) e de uma única empresa privada.

Nem assim Ortinho poupa os governos de críticas. "Os artistas tornaram-se dependentes da verba pública. Não deixa de ser uma maneira de calar todo mundo", diz ele. E alfineta o ministro Gilberto Gil (Cultura): "Falta ousadia, talvez um Lobão [cantor e compositor] ao lado dele desse jeito".

Linguagem de cinema

Após a elogiada participação como ator no filme "Árido Movie", de Lírio Ferreira, no qual ele interpreta o líder de uma gangue de motoqueiros, Ortinho incorporou algo da linguagem cinematográfica às novas composições.

Prova disso são a própria "A Terra Tremeu", em que homenageia standards de Pernambuco -Vitalino, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro-, e "Cirandagem", canções que poderiam perfeitamente ter pontilhado o road movie de Ferreira. Irônico, ele não deixa de sublinhar a influência de "Back in Bahia", de Gil, na primeira. "Lembra bem, não lembra?", pergunta.

As duas faixas abrem o novo CD, sucessor de "Ilha do Destino", acompanhadas de "Solto no Tempo", na qual há uma escancarada citação ao clássico "Walk on the Wild Side", de Lou Reed. Em se tratando de Ortinho, a lembrança realmente faz sentido.
Ex-líder do Querosene Jacaré, banda da fase heróica do mangue beat, Ortinho experimentou a solidão de São Paulo e um certo ostracismo após o ápice do movimento no início dos anos 90. Foi garçom na metrópole, morou de favor na casa de amigos e trocou farpas e sopapos com músicos, escritores, cineastas e teatrólogos nas noites paulistanas.

"Nunca deixei de falar o que penso, ainda que isso tenha desagradado muita gente. Tenho medo, por exemplo, de que a música de Pernambuco se torne totalmente dependente do patrocínio estatal ou se transforme em um bibelô das elites paulista e carioca", diz.

Os tambores de maracatu do mangue beat ficaram fora do disco. No lugar deles, entrou a bateria segura de Pupilo e de Simone Soul, as guitarras em estilo "retrô" de Luiz Chagas e Gustavo Ruiz e o baixo de Mazinho (Mestre Ambrósio). "Hoje, acho que o mangue beat foi um caranguejo, eu, talvez, seja um calango, um ser do sertão, já que sou de Caruaru [interior de Pernambuco]", diz. "Um ser que vive e se alimenta da aridez", completa.

Outros destaques do CD são "Avenida Norte", uma espécie de manifesto do que realmente interessa ao artista, "Há vidas secas nos sertões/E o sol que queima a alma ensina/que o mundo é fogo, vento, água/ chão e avenidas", e o frevo "Não me Ame", no melhor estilo que marca o Carnaval pernambucano: "Vou fazer pirraça/vou deixar sem graça o teu coração".


SOMOS
Quando:
hoje e dia 27, às 23h30
Onde: Studio SP (r. Inácio Pereira da Rocha, 170, tel. 3817-5425)
Quanto: R$ 15 ou R$ 10 (com nome na lista pelo e-mail studiosp@studiosp.org.br)

(© Folha de S. Paulo)

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