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O paraibano Flávio Capitulino, considerado um dos melhores
restauradores da França, vai lançar livro sobre sua vida e planeja
exposição no Recife PARIS - O restaurador Flávio Capitulino é um dos brasileiros mais vips de Paris. Relaciona-se bem com os filhos e netos de Picasso, que se emocionaram com um trabalho de recuperação que o paraibano realizou em um quadro dado como perdido feito pelo espanhol. Só viaja de primeira classe – e várias vezes ao ano – para o Brasil. Um de seus locais preferidos na cidade é a fina casa Ladurée, na Champs Elysées, especializada em chás e macaroons, espécie de biscoitos adorados por aqueles que entendem o ethos gastronômico da capital francesa. Monsieur Capitulino saiu da pobre cidade de Souza, há mais de 20 anos, para se tornar em um dos mais respeitados restauradores da França. Isso sem nunca ter realizado algum curso na área, para horror de gente como a restauradora chefe do Centro de Pesquisa e de Restauração dos Museus da França, Nathalie Volle, que anos atrás iniciou uma pesada campanha contra o rapaz de 38 anos. Mas ele, que trabalhou por mais de nove anos no Louvre, segue recebendo trabalhos importantíssimos: atualmente, restaura em Genebra um dos quadros que compõem a série das famosas mulheres nuas feitas por Modigliani. A obra custa 6 milhões de euros. Capitulino virou um personagem recorrente nas matérias voltadas para a linha “gente que faz”, e, de tanto contar sua incrível trajetória, percebeu que ela renderia mais do que fugazes entrevistas. Agora, está escrevendo um livro sobre a sua vida, obra que deve sair em setembro. Tudo o que já disse – e algumas oportunas bombinhas sobre o vaidoso meio em que vive – estarão na publicação. Outro projeto do restaurador, que tem ateliê na Rue du Marché, pertinho da Champs Elysées, é trazer parte do acervo que recuperou – que inclui Picasso, Matisse, Renoir e De Chirico – para o Recife. A exposição já foi vista em João Pessoa em 2001. “Sempre tive vontade de expor em Pernambuco”, diz. Para Capitulino, a maior “estrela” que já passou sob seus dedos lixados antes de qualquer trabalho (“As imperfeições às vezes são mínimas, é preciso muita sensibilidade para senti-las”) é o quadro Potiche de faïence avec chrysanthèmes, feito em Paris em 1886. A obra, que faz parte de uma coleção particular e está nos Estados Unidos, custa por volta de 33 milhões de euros. Uma soma assombrosa sob o comando do ex-padeiro, que chegou a Paris com apenas US$ 80 no bolso e sem pronunciar uma palavra em francês. É justamente essa trajetória repleta de detalhes novelescos que Flávio conta hoje para uma ghost-writer. Enquanto toma chá de frutas vermelhas e come seus macaroons, ele lembra que, quando criança, tinha que dividir dois pães com as oito pessoas que viviam em sua casa. Sua mãe uma vez lhe deu uma surra porque ele pronunciou o nome “Picasso” dentro de casa. “Não admito palavrão aqui”, ralhou ela. Sempre habilidoso com trabalhos manuais e extremamente observador, Capitulino, com cerca de oito anos, foi trabalhar na padaria da esquina, um ofício que lhe garantia pão e leite como pagamento. Anos depois, fazia artesanato, decoração para festa e o que aparecesse na sua frente e rendesse algum dinheiro. Acabou, aos 17 anos, conhecendo um casal de franceses que veio ao Brasil adotar uma criança. Tornou-se amigo do par. “Eles disseram que eu poderia ir para a casa deles e ficar por lá”. Não deu outra: meses após o convite e algum dinheiro guardado, ele fez as malas para a França levando consigo 160 quilos de bagagem, grande parte formada pelo artesanato que produziu para vender e se virar em Paris. “Acabei ficando preso na alfândega durante mais de quatro horas”, conta. O casal terminou encontrando Capitulino no aeroporto e levando-o para casa. O balde de água fria veio rápido: o mui amigo francês anunciou que ele poderia ficar, no máximo, durante uma semana no novo lar. “Fiquei desesperado e fui para a rua tentar contato com alguém que falasse português e me ajudasse.” Terminou arrumando um canto na Citè Universitè, nos arredores de Paris, onde ficou por um mês. Daí, foi se virando no que podia: dançava lambada com uma nega maluca em frente o Centro George Pompidou e descolava uns trocados. Agosto, mês de férias no país, terminou rendendo alguns empregos e boas histórias que o restaurador adora contar. Uma delas é o nascimento de uma receita chamada “peixe desesperado”. “Fui trabalhar como empregado de uma casa na qual a dona achava que eu cozinhava divinamente. Me disse que ia receber uns amigos e pediu que eu preparasse um peixe. Fiquei desesperado, não sabia fazer nada. Terminei misturando tudo o que eu via na minha frente, até pepino entrou na receita”, diverte-se ele, lembrando que, por conta do sucesso do prato, tinha que repetir a receita todas as sextas. “A patroa adorou, o negócio é que nunca mais consegui fazer um igual ao primeiro.” Seu talento como restaurador foi descoberto da mesma forma empírica. Trabalhando na casa de outra família, ele se ofereceu para “dar um jeitinho” em uma antiga mesa chinesa que estava em péssimo estado. Dias depois, em um jantar, sua interferência foi percebida por uma mademoiselle que tinha contatos no Louvre. “Como você fez o trabalho de reversibilidade?” perguntou ela ao futuro restaurador. Capitulino havia usado aquarela para retocar a mesa. Mas ele não sabia o que diabos era a tal “reversibilidade” sobre a qual a moça de fino trato estava falando. NO LOUVRE Foi assim que Flávio acabou conhecendo um dos ex-chefes responsáveis pela restauração de obras do Louvre, Eduard Dechellet, seu tutor durante os mais de nove anos que trabalhou na instituição. Apesar de ter chegado no ateliê de Dechellet com apenas a restauração de uma mesa no currículo, Flávio, três meses depois, era um dos comandantes do ateliê. Uma das tarefas mais complicadas era realizar a transposição de uma tela para uma nova base. Um quadro do século 17, caríssimo, estava passando pelo processo, mas Flávio não foi chamado para participar. Podia apenas ficar olhando. “Acabou que o trabalho deles não deu certo. Eu fiz a transposição de outro quadro e, quando Dechellet viu, permitiu que eu trabalhasse no outro. Eu disse que fazia, mas só se fosse sozinho”, conta, sem muita modéstia. Nove anos depois, ele anunciava que estava saindo do ateliê. Flávio não alivia sobre o motivo de sua decisão: “Eu fazia tudo e ele levava o mérito. Por isso cansei e fui embora”. Apesar de ganhar alguns desafetos por sua atitude, o restaurador acertou em sua decisão: depois de sair do Louvre, abriu seu próprio ateliê, já fechado. Hoje, realiza trabalhos para a galeria Cazeau-Béraudière, uma das mais prestigiosas da cidade. Bastante procurado, já chegou a restaurar um quadro no Líbano, por telefone. Visita constantemente a Paraíba (lá, ele tem uma chácara em Alagoa Nova repleta de cisnes e fontes). O sucesso acabou fazendo com que o próprio Capitulino esquecesse a ausência de um diploma, que ele confessa ter se cobrado durante seus primeiros anos como restaurador. “O preconceito era grande. Mas hoje sei que sou o melhor restaurador de Paris”, diz o ex-padeiro de Souza. A repórter viajou a convite da Maison de la France e da TAM |
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