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Nassau não descansa em paz


Síntese feita pelo historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello sobre o governante holandês divide opinião de especialistas

SCHNEIDER CARPEGGIANI

NASSAU GOVERNADOR DO BRASIL HOLANDÊS - COL. PERFIS BRASILEIROSMaurício de Nassau foi personagem de momento chave da história da humanidade: O início de formação dos Estados Nacionais europeus, em plena partilha do (Novo) Mundo. No entanto, o nobre alemão ficou registrado para os pernambucanos como a personificação de uma realeza ancestral, que evoca todo tipo de nostalgia e (sobretudo) de lendas. Chega a ser difícil encontrar o verdadeiro homem por trás da espessa cortina mitológica que o cerca. Principal historiador brasileiro em atividade, Evaldo Cabral de Mello se debruçou na tarefa de desvendar o nome mais célebre do passado açucareiro do Estado.

No livro Nassau, pela série Perfis brasileiros da editora Companhia das Letras, Evaldo encara o mito apenas por um lado: sua atuação pública. O autor preferiu se esquivar de especulações sobre a vida particular do nobre. Essa, nas palavras do historiador, “é uma obra de síntese”.

“Embora o autor tenha buscado evitar transformá-la em monótono relatório administrativo, a vida pública de Nassau absorve quase todas as suas páginas, para frustração dos leitores curiosos de vida privada, sobretudo na sua vertente salaciosa. Nassau é, aliás, daqueles que bem se prestam à biografia do tipo convencional, pouco inclinada a devassar a intimidade de grandes homens, seja para engrandecer-lhes os feitos, seja simplesmente por falta de informações de natureza particular”, destaca Evaldo no prefácio do livro.

Desde a primeira linha, fica clara a intenção de Evaldo em fugir das mitificações que cercam Nassau. Primeiro ponto: sua nacionalidade – “Trata-se de um erro corriqueiro supor que João Maurício de Nassau-Siegen era holandês, quando na verdade descendia de uma linhagem alemã fixada há séculos na região renana, embora na época do seu nascimento, em 1604, parentes seus, inclusive seu avô e seu pai, já se houvessem distinguido, do outro lado da fronteira norte, combatendo a Espanha no Exército neerlandês, ou seja, dos Países Baixos.”

Apesar de ter nascido conde, muitas vezes Nassau é chamado de príncipe. Para os pernambucanos, ele foi o protótipo de “príncipe gentil” – “O tratamento de príncipe era-lhe dado pelos habitantes do Brasil holandês no propósito de afagar-lhe a vaidade, embora a vaidade afagada não fosse só de Nassau, pois à aceitação que ele teve da parte dos colonos luso-brasileiros não foi estranha a satisfação de se verem governados por alguém de alta linhagem aristocrática”, esclarece o livro. Nassau entrou para história não só por ser um governante competente, e sim por ter mais “charme” que todo império português junto.

Talvez o ponto mais forte da biografia escrita por Evaldo tenha a ver com a investigação sobre a relação afetiva entre Nassau e Pernambuco. Para o autor, o “príncipe gentil” era antes de tudo um governante com faro mercantilista e muito menos o homem apaixonado pelas paisagens pernambucanas ou o amante da arte, como ele entrou para o imaginário do Estado.

Apesar de conjugar com as idéias renascentistas de valorização do indivíduo e de seu notório interesse por grandes obras paisagísticas, Nassau não se descuidava na formação de um patrimônio pessoal, que ele buscou arrecadar até o fim da vida, segundo Evaldo. Para o historiador, o melhor exemplo disso foi o oferecimento dos “retratos de todo o Brasil” a Luís XIV, aconselhando-o a utilizar a obra dos artistas que manteve durante seu governo no Brasil. Essa atitude seria mais uma medida econômica do que de preservação do acervo das paisagens pernambucanas.

No entanto, o esforço de Evaldo bate de frente com a forte mitologia criada em torno de Nassau, que por inúmeras vezes foi transformado num personagem em que ficção e história se misturam. A escritora Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque foi uma das que criaram o seu próprio “príncipe gentil”, no romance histórico, ou de ou “metaficção historiográfica” (como a própria autora prefere), O príncipe e o corsário. O livro é narrado pelo judeu português Gaspar Dias Ferreira, que foi secretário de Nassau no período em que o conde alemão governou Pernambuco.

“Evaldo é um grande historiador. Mas há uma diferença grande entre escrever história e fazer ficção. No seu ensaio, ele frisa que Nassau ofereceu as obras a Luís XIV apenas por interesse econômico. Ora, isso não foi dito expressamente por Nassau. Evaldo está fazendo, nesse caso, uma interpretação do fato, e não o desvendando. Esse é o papel de um romancista”, aponta Maria Cristina. “Nassau foi um apaixonado por Pernambuco, as obras que ele fez eram fruto do trabalho de alguém que gostaria de fixar residência aqui, e não de um governante temporário”, completa.

(© JC Online)


Um Nassau mitológico e mecenas seduz estudiosos

Romancista Luzilá Gonçalves escreveu história de amor entre o nobre holandês e a dona de engenho Ana Paes. Pesquisadora Geórgia Quintas estuda a importância dele como mecenas

A escritora Luzilá Gonçalves também criou seu Maurício de Nassau ficcional, no romance A garça mal-ferida, que conta a história de Anna Paes, a senhora do Engenho de Casa Forte, e suposta amante do nobre alemão. “Nassau é um personagem fascinante, como administrador, como figura não linear, meio contraditório, ótimo para ser figura de um romance. Soube administrar o Nordeste, orientar estratégias mas também oferecia festas suntuosas em seus jardins, onde hoje é o Campo das Princesas. Barléus fala nisso: a sociedade vinha ali ver as plantas, ouvir concertos, teatro (nem sempre entendiam as falas, em língua estrangeiro, mas riam assim mesmo). O fato dele convidar a sociedade pernambucana, é claro sinal de afeto”, atesta a autora, distanciando-se do Nassau de Evaldo Cabral de Mello, mais preocupado em encarnar uma alternativa progressista ao projeto colonial português. “Por ser tão fascinante é que fiz dele personagem de A garça mal ferida e imaginei o amor de Anna Paes por ele”, completa.

Para a mestre em antropologia pela UFPE Georgia Quintas, Nassau, além de governante, era, sim, um mecenas. “Os artistas que ele trazia para o Brasil são uma clara prova que Nassau via na arte um campo de deleite pessoal. Em documentos, ele chegou a se referir ao Brasil como o ‘país mais belo do mundo’. Isso deixa evidente que o Brasil exerceu um fascínio na sua personalidade”, diz Georgia, que desenvolve estudo sobre o lado estético dos primeiros momentos da colonização.

De acordo com o historiador Marcos Galindo, organizador do livro Viver e morrer no Brasil holandês, o principal trunfo do mito que cerca Maurício de Nassau vem do seu charme pessoal. “Nassau não é um herói do mesmo patamar de Felipe Camarão, de Fernando Vieira, dos restauradores pernambucanos. Ele não é um herói triunfalista, não há nenhuma grande obra dessa sua passagem. A construção desse mito é bastante recente. Ele encarnou a figura do príncipe gentil, de um nobre que vem de uma linhagem européia bem clara, que não está na lógica material”.

Nassau, de Evaldo Cabral de Mello, Cia da Letras, 289 páginas, R$ 37 (preço médio)

(© JC Online)

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