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Marinês e o canto de sua gente  

Fotomontagem: JC Online

Marinês, com Luiz Gonzaga e Elba Ramalho; ao centro, Genival Lacerda

Ao lado de seu contemporâneo Genival Lacerda, a pernambucana Marinês defende com garra o gênero imortalizado por Luiz Gonzaga


JOSÉ TELES

Juntos, os dois somam mais de um século de serviços prestados ao forró. Começaram no mesmo ano, no mesmo progama (na Rádio Cariri de Campina Grande), dividiram o mesmo prêmio e lançaram disco em 1956. Hoje, A pernambucana (de São Vicente Férrer) Inês Caetano de Oliveira, ou Marinês, e o paraibano (de Campina Grande) Genival Lacerda têm ainda em comum o fato de serem dos poucos remanescente da segunda geração do forró, surgida no auge do baião nos anos 50, ainda em atividade. Os dois, no entanto, logo cedo tomaram rumos diferentes, embora com o mesmo objetivo: cantar forró. Marinês, fissurada pela música de Luiz Gonzaga, conheceu o sanfoneiro Abdias (com quem casaria). Com o zabumbeiro Cacau formaram um trio, que ficou conhecido como Patrulha de Choque, pioneiro em mostrar o forró ao vivo, com a formação instrumental idealizada por Gonzagão, tocando o repertório do Rei do Baião. Já Genival Lacerda, em 1954, veio para o Recife (onde mora atualmente), que abrigava, além da Rozenblit, o mais importante conglomerado de comunicação do Nordeste, o Sistema Jornal do Commercio, onde se integrou a uma turma da qual faziam parte Jackson do Pandeiro e Jacinto Silva.

A primeira vez que Marinês viu Luiz Gonzaga foi num show na Praça da Bandeira, no centro de Campina Grande. Era um “showmício”: “Eu era tão pequena que assisti escanchada no ombro do meu pai”, lembra. Gonzaga participava da campanha de Argemiro de Figueiredo, candidato a governador, e Pereira Lyra, candidato ao senado (foi para eles que Gonzagão fez com Humberto Teixeira o baião Paraíba, hoje um clássico). Foi em 1952, que ela e Abdias encontraram-se na Rádio Borborema, de Campina Grande. Casaram-se e se mudaram para a Maceió, onde apresentaram na Rádio Difusora de Alagoas o primeiro programa de forró do Nordeste, ao mesmo tempo faziam shows pelas cidades interioranas, com a Tropa de Choque.

Marinês voltaria a ver Luiz Gonzaga em 1955, em Propriá, Sergipe. Gonzaga já havia ouvido falar da Tropa de Choque. O prefeito da cidade foi quem levou o trio para conhecer Luiz Gonzaga. No dia seguinte, Marinês, Abdias e Cacau dividiram o palco com o Rei do Baião. Generoso quando reconhecia talentos, Luiz Gonzaga sugeriu que a cantora e o sanfoneiro fossem para o Rio de Janeiro. Marinês, Abdias pasaram a tocar, com outro paraibano, Zito Borborema, na banda de Luiz Gonzaga. Em 1956, ela começou a carreira solo. Recebeu de Gonzagão o título de Rainha do Xaxado. Com Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, Marinês forma a tríade que sedimentou o forró como gênero.

Meio século mais tarde, Marinês está de volta a Campina Grande. Sua agenda junina está movimentada, mas ela diz que não faz muita questão de viajar, mesmo assim tem 13 shows a cumprir neste período (um deles com o amigo Genival Lacerda, em Brasília). Dos mais de 40 discos que lançou, quase todos estão fora de catálogo. Dois anos atrás, a Sony BMG relançou cinco títulos dos anos 60, porém foram feitas apenas 500 cópias de cada. Uma óbvia discriminação contra a música nordestina, algo que Marinês recorda que acontecia mesmo na época em que o baião era o ritmo do momento: “Uma vez, no Rio, fui convidada para cantar num progama de TV. Pensava que era para cantar o meu repertório. Mas me pediram para cantar uma outra coisa, que não tinha nada a ver comigo. Uma falta de respeito que continua. Um dia desses eu quase desligo a TV, no Programa do Faustão. Mostravam aquela dança, e tocavam Feira de Mangaio (Sivuca e Glorinha Gadelha), e ninguém sabia que quem gravou esta música pela primeira vez foi Clara Nunes. É por isto que Sivuca me disse recentemente que gostava de fazer forró quando o forró era respeitado, agora ele não tem mais interesse”, comenta, a Rainha do Xaxado, que ao longo dos anos viu músicas gravadas por ela, uma forrozeira, tornarem-se sucessos nacionais na voz de astros da MPB. Casos de Só quero um xodó, que estourou com Gilberto Gil, e Bate coração, que embalou a carreira de Elba Ramalho. Agora vê o forró preterido pelas bandas: “Não tenho nada contra ninguém, acho que todos têm direito ao sol, mas há muito mais bunda do que banda, e não deveriam botar o nome de forró nesta música delas”, critica Marinês, que também não morre de amores pelo que chamam de forró pé-de-serra: “Isto é uma invenção deles. O forró foi urbanizado por Luiz Gonzaga, por Dominguinhos. Este negócio de instrumento não tem importância, o primordial é que se faça forró autêntico, Luiz Gonzaga usava guitarra no grupo dele, eu uso baixo no meu, antigamente o banjo era um dos instrumentos que se usava muito no forró. Pé-de-serra que nada!

(© JC Online)


Rei da munganga e um mito do forró

Genival Lacerda é história viva do forró, com uma obra que vai além da música de duplo sentido

Ele já foi o “Senador do Rojão”, e agora é conhecido, como autodenomina, “O Rei da Munganga”. Genival Lacerda hoje é mais conhecido pelas “mungangas”, a barriga proeminente e os forrós maliciosos. Porém isso é apenas um capítulo da longa história deste forrozeiro que ficou marcado pelo megassucesso de Severina Xique-xique, em 1975, parceria dele com o conterrâneo João Gonçalves.

A obra de Genival Lacerda, porém, tem muito mais do que O rock do jegue ou Radinho de pilha. Com 74 anos, meio século de carreira (a contar do primeiro 78rpm), ele é dono de uma discografia que contabiliza 45 LPs, 35 compactos simples, 30 duplos, 12 78rpm, e 25 CDs. Seus discos dos anos 60 estão todos fora de catálogo, com pouca possibilidade de relançamento a curto prazo: “Vou começar a relançar minhas músicas antigas. O primeiro disco será As 20 escolhidas de Genival, com uma seleção dessas músicas. Para que gravar disco novo? Fiz um agora e tem uma música estourando sem pagar jabá. Aliás, eu não pago jabá. Quem quiser tocar meu disco que toque, mas de graça”, diz ele. O disco novo intitula-se Maristela (Independente): “Mas não foi para o São João, não, gravo é para o Brasil. Disco para São João fica logo perdido. Antigamente faziam muito disco junino, mas só quem ganhava com isto eram as gravadoras. O sujeito lança o disco, o São João acaba e aí? Além do mais, eu não faço lançamento de bolo. Todos os meus disco são muito bem-feitos, que tenho um nome a zelar”, aponta.

Apesar de tocar hoje pouco no rádio, Genival Lacerda, assim como Marinês, neste período está com uma agenda agitada (a entrevista foi feita de Juazeiro do Norte, Ceará, por telefone. Ele acabara de chegar de Campina Grande). Uma rotina que acontece desde o final dos anos 40, quando começou com Jackson do Pandeiro (seu irmão é casado com uma irmã de Jackson) no Ipiranga, lendária gafieira de Campina Grande, ainda em atividade: “Hoje restam poucos daquela época: Marinês, Dominguinhos. Compositor, os grandes quase todos já morreram: Rosil Cavalcanti, Zé Dantas, o pessoal do rádio. Hoje só tem Ivan Bulhões (da Rádio Jornal de Caruaru), que é um baluarte do forró”, diz Genival, que nos anos 40 jogou pelos times do citado Ipiranga, e do Treze, de Campina Grande: “Preferi o forró, eu era zagueiro, posição que não dá para ganhar dinheiro”, brinca.

Assim como a colega Marinês, as bandas não são bem vistas pelo “Senador do Rojão”: “Elas estão dominando tudo, né? Nem têm culpa, quem manda nisso são os grandes empresários”, comenta. Fluente nos vários dialetos do forró, Genival Lacerda lançou antológicos cocos pela Mocambo (principal selo da Rozenblit), rojões, baiões, xaxados (seu primeiro 78 trazia Coco 56 e Dance o xaxado), discos que mereciam ser reunidos em CD pela importância das gravações. Feito quase todos forrozeiros de sua geração, Genival Lacerda não engole o termo pé-de-serra. “Isto nunca existiu. Esta história toda de forró vem Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, tem um pessoal aí que pegou o bonde andando. A maioria não sabe nem colocar a voz direito, e grava de qualquer jeito”, comenta. (J.T.)

(© JC Online)

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