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Monjolo vai do samba ao afrobeat

Caroline Bittencour/Divulgação

Os pernambucanos do Monjolo lançam primeiro registro. Abaixo, foto de um monjolo que originou o nome da banda


Formada em São Paulo por quatro pernambucanos, a banda deixou seu som maturar até partir para gravar o disco de estréia

JOSÉ TELES

O Monjolo é uma banda atípica. Embora todos seus integrantes tenham sejam pernambucanos e tenham se conhecido no Recife, o grupo foi formado em São Paulo e começou casualmente, a partir de uma jam session que os ex-Querosene Jacaré Adelson Bala e Alfaia faziam num bar chamado Cambridge, no centro a capital paulista: “A gente havia acabado de voltar de uma turnê da Querosene Jacaré nos Estados Unidos. A idéia era continuar com a banda aqui em São Paulo, porque a gente já havia feito tudo que podia no Recife. Mas Cinval (percussionista) e Tonka (guitarrista) não quiseram sair de lá. Resolvemos, eu e Alfaia continuar tocando, formar uma banda, e ela foi se formando naturalmente”, conta, por telefone, Adelson Bala o surgimento da Monjolo, que acaba de lançar o disco de estréia, pelo selo + Brasil.

A Monjolo começou com um guitarrista paulista, Ricardo Prado, e Éder ‘O’ Rocha (ex-Mestre Ambrósio) na percussão. Ricardo voltou para a cidade dele, Campinas (hoje toca com Vanessa da Mata), e Éder dedicou-se à gravação do seu disco solo: “Quando os dois saíram, foi tempo que o Songo estava acabando. Conversamos com o percussionista, por coincidência chamado Márcio Monjolo. Depois Sasquat (roadie da Mundo Livre S/A e Nação Zumbi), irmão de Buguinha, o produtor do disco, entrou para o grupo, inicialmente com samplers, mas foi aprendendo guitarra e hoje é um ótimo guitarrista”, completa Alfaia. A Monjolo não teve pressa. Decantou sua sonoridade durante dois anos. Fazendo temporada em espaço descolados da noite paulistana como o Sarajevo, Afro Spot e SP Stúdio.

Os dois fundadores da banda admitem que o fato de serem pernambucanos levou o grupo a ser olhado com mais atenção, mas a origem também é um peso: “Ser de Pernambuco ajuda, mas tem que ter cuidado para não cair na chatice. Tem pernambucano que chega aqui e fica no gueto, no meio de pernambucanos. A gente tem amizades com o pessoal do Recife, mas fez muita brodagem com os paulistas”, comenta Adelson Bala. “Pernambuco de certa forma virou uma grife em São Paulo. Se você é do Recife facilita, mas se não tiver qualidade não vai conquistar o público”, emenda Alfaia.

GUINADA – O disco não teria parto fácil. Passaram-se dois anos até sua finalização: “É a vida independente, o dinheiro curto. As gravações foram muito espaçadas. O início foi com uma grana que a gente pegou. Entrei com Alfaia no estúdio e gravamos baixo e bateria de uma só tirada, oito horas de gravação sem parar. Começamos à noite e terminamos com o dia amanhecendo”, continua Adelson Bala. A conclusão do disco foi viabilizada pelo acerto com o selo + Brasil, de origem mineira (antes se chamava Tom Brasil).

Depois da guinada sonora que o dois deram no segundo disco da Querosene Jacaré, que passou do rock com sotaque nordestino para o funk com suingue pernambuquês, no segundo disco, a Monjolo vai de samba rock com tempero de candomblé e afrobeat, e ainda, claro, o pernambuquês: “São as influências do que ouvimos. O funk continua, porém o funk old school, e o rock sempre está comigo, é o começo da minha música”, diz Adelson Bala, que antes da eclosão do manguebeat, chegou a tocar numa banda de thrash, a Cruor. Alfaia ressalta um ponto importante na gravação do CD: “Foi a primeira vez que a gente trabalhou com um produtor para valer mesmo. Buguinha não apenas produziu, como ajudou nos arranjos, foi fundamental o trabalho dele, pela capacidade de síntese. Quando a banda mesmo produz deixa passar erros, porque acaba cansando ouvir tantas vezes a mesma coisa, na gravação, na mixagem, acaba viciando, e deixa passar erros. O produtor age como se fosse um revisor”.

(© JC Online)


Um disco que começa com sambas viajados, mas depois cai no rock

Pouco comentada, mas de influência marcante foi a vinda do baterista nigeriano Tony Allen ao Brasil, em 2004. Diretor musical da banda de Fela Kuti, Allen, um mito no cenário pop inglês, fez a maior brodagem com músicos brasileiros, e levou muita gente se voltar para a música de Fela. Raio negro, a faixa de abertura do disco do Monjolo tem muito desta influência, na percussão, nas pausas, na tensão no andamento. Mas uma sonoridade bem original, um afrobeat com sotaque manguebeat, em levada de samba, e letras bem arquitetadas.

A guitarra de Sasquat segue a linha Lúcio Maia de qualidade, com as timbragens variando faixa à faixa. Samba de seqüestro a faixa seguinte também tem metais sutis ao fundo. Dá para notar também a influência da Nação Zumbi, dos dois últimos discos, tanto no som das guitarras quanto na levada cadenciada das canções. A produção optou por um som encorpado, com um baixão pulsante, como no reggae roots.

A partir da faixa oito, muda-se bruscamente o clima cool para um rock nervoso, de batida quebrada, apropriadamente intitulado Distorção, mas que quebra a unidade rítmica do disco. O mesmo para a próxima faixa, numa levada que lembra Samba makossa, do Chico Science & Nação Zumbi. De Distorção em diante é quase como se fosse outro disco. A faixa final, Drumie & bass por exemplo, é uma curiosa liqüidificada de afrobeat com ciranda de batida quebrada (com participação de Eder “O” Rocha).

(© JC Online)

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