Às vésperas de seu 80º aniversário, Ariano
Suassuna volta à poesia em "livro 1" da saga "A
Pedra do Reino"; minissérie, aulas-espetáculo e
teatro marcam homenagens ao escritor
EDUARDO SIMÕES
ENVIADO ESPECIAL A RECIFE
Às vésperas de completar 80 anos, o romancista,
dramaturgo e poeta paraibano Ariano Suassuna parece
viver cercado de sua obra. À saída de sua casa em
Recife -uma mansão de 1870, cuja coleção de arte
popular seria cenário perfeito para suas peças e
livros-, a reportagem da Folha se deparou com
um "personagem" que poderia facilmente pertencer à
galeria de tipos picarescos de Suassuna, como João
Grilo e Chicó, de "O Auto da Compadecida. Espécie de
Sancho Pança do quixotesco autor, o taxista Ademir
Chacon, 47, costuma transportar, em seu xucro Gol
1996, os visitantes, a família e o próprio "seu"
Suassuna, que assevera: "O carro não é novo, mas o
motorista é de confiança".
Curiosamente, Chacon também é o nome da rua que há
quase 50 anos é o endereço recifense do escritor,
nascido no dia 16 de junho de 1927 em Nossa Senhora
das Neves, hoje João Pessoa, na Paraíba. Ali, num
dos 12 cômodos da casa de pé-direito altíssimo,
cercado de manuscritos e ilustrações empilhados em
cadeiras, uma escrivaninha e uma cama, Suassuna
corre para concluir seu epopéico projeto de escrever
"preqüências" e seqüências para "A Pedra do Reino",
romance de 1971, em que promete voltar à poesia.
Autor retomou saga dos Quaderna depois de adaptações de Luiz
Fernando Carvalho à TV e Antunes Filho ao teatro
Escritor termina versão do novo romance até o final do ano;
minissérie estréia em junho com conclusões para histórias em aberto
DO ENVIADO A RECIFE
Ariano Suassuna espera entregar até o fim do ano à editora José
Olympio a versão final de seu "livro 1", a "preqüência" de "A Pedra do
Reino". Narrado como autobiografia do personagem Dom Pedro Dinis
Ferreira-Quaderna, o livro conta a saga de uma família que se
auto-proclama verdadeira descendente dos reis brasileiros, que nada têm
a ver com "imperadores estrangeirados e falsificados da Casa de
Bragança".
A narrativa é inspirada ao mesmo tempo em romances de cavalaria,
literatura de cordel e outros elementos da cultura popular brasileira,
que Suassuna defende, desde o início da década de 1970, em seu Movimento
Armorial.
Reeditado no fim de 2004, no ano passado o alentado livro de mais de 700
páginas foi adaptado para o teatro por Antunes Filho e em junho chega à
TV pelas mãos do diretor Luiz Fernando Carvalho, que em 1994 já havia
transformado em especial "A Mulher Vestida de Sol", a primeira peça de
Suassuna, escrita há 60 anos.
"A Pedra do Reino", a minissérie, terá cinco capítulos e está programada
para terminar no dia 16 de junho, quando Suassuna festeja seus 80 anos.
Retomada
Antes da adaptação, assinada por Bráulio Tavares e Luís Alberto de
Abreu, Suassuna propôs ao diretor finalizar "algumas coisas que ficaram
inconclusas" nos originais de "A Pedra do Reino". Como o crime em que o
personagem Dom Pedro Sebastião, tio e padrinho de Quaderna, aparece
morto em um quarto fechado e não se sabe como ele morreu. E ainda a
história de amor entre os personagens Sinésio e Heliana.
"Com essa retomada, eu me empolguei. Resolvi reintroduzir "A Pedra do
Reino" no meu plano original, de cinco livros, que podem ser lidos
independentemente. Fico até com vergonha, um homem de 80 anos fazendo
uma previsão dessas", brinca Suassuna, que escreve à mão, todas as
manhãs, e promete uma novidade.
"O meu teatro é bastante conhecido, principalmente "O Auto da
Compadecida", que não é minha peça predileta, mas é disparada a
predileta do público. Fiquei conhecido como dramaturgo e, um pouco
menos, como romancista. Mas minha poesia é completamente obscura. Agora
estou fundindo pela primeira vez os três gêneros, porque na minha
opinião a minha poesia é a fonte profunda de tudo o que eu escrevo,
inclusive do teatro e do romance."
Taperoá
"A Pedra do Reino" foi toda filmada em Taperoá, sertão da Paraíba,
cenário dos acontecimentos do romance e espécie de berço do imaginário
de Suassuna, que viveu ali parte de sua infância, depois de perder o
pai, o político João Suassuna, assassinado durante a Revolução de 1930,
no Rio de Janeiro. Foi em Taperoá que Suassuna iniciou a mescla do
popular -ali ele viu as primeiras peças de mamulengos (teatro de
bonecos) e desafios de viola- e erudito, que marca sua obra.
"A infância e a adolescência em geral são períodos muito importantes,
porque nessa época se forma universo mítico e interior de cada escritor.
O sertão da Paraíba foi uma experiência fundamental, principalmente
porque tive infância marcada por acontecimentos fortes. Apesar de ter
perdido meu pai muito cedo, tive forte influência dele, que era grande
leitor e nos deixou uma excelente biblioteca, o que não era comum. Foi
ali que li pela primeira vez "O Cortiço", "Os Sertões", "Os Maias" etc."
Em 1942, já adolescente, Suassuna se mudou para Recife, onde viu crescer
seu interesse pelas artes plásticas, ao freqüentar a biblioteca do
Ginásio Pernambucano e no encontro com o pintor Francisco Brennand. A
formação cultural foi ampliada e se consolidou na faculdade de Direito,
quando Suassuna formou o grupo de Teatro dos Estudantes de Pernambuco.
Faltava, no entanto, outra marca registrada da obra de Suassuna: o
humor.
Por conta dos acontecimentos da infância, diz ele, a descoberta da veia
cômica foi tardia. E ele atribui papel importante à sua mulher, Zélia.
"Até certa idade era travado, só escrevia tragédias. Depois que conheci
Zélia a impressão que tenho é a de que alguma coisa se desatou dentro de
mim. Ela me abriu os olhos para o riso e a alegria do mundo."
A guinada para o cômico se deu, conta Suassuna, quando ele, tal qual um
poeta romântico do século 19, teve tuberculose aos 21 anos. E voltou a
Taperoá, onde Zélia, com quem ainda não era casado, foi visitá-lo.
"Lá eu escrevi a primeira peça cômica da minha vida. Era uma peça em um
ato, para mamulengos, que se chamava "Torturas de um Coração ou Em Boca
Fechada Não Entra Mosquito". Fiz para recebê-la. Olhe, você veja, eu
tinha tudo para não fazer porque estava doente. Mas aí ela já tinha
desatado o nó lá de dentro. E doença de pulmão eu ia tirar de letra."
Animoso
Parafraseando seu narrador em "A Pedra do Reino", Suassuna defende que o
humor é sua defesa contra o que a vida tem de sombrio: "O riso a cavalo
e o galope do sonho são as duas armas de que disponho para enfrentar a
dura, mas fascinante, tarefa de viver", diz o escritor, sem tempo para
balanços de 80 anos. "Sou por natureza um sujeito animoso e
bem-humorado. Mesmo com 80 anos. Então continuo enfrentando a vida",
diz. "Não sou otimista nem pessimista. Acho os primeiros ingênuos e os
segundos, amargos. Eu procuro ser realista esperançoso. E é por isso que
o livro está demorando tanto. Resolvi fazer o primeiro, de jeito que, se
não conseguir fazer os outros, ele sozinho dá uma idéia do conjunto. É
esse meu projeto por enquanto." (ES)