O pernambucano Otto - e sua banda, com quatro cearenses - é a atração
deste fim de semana no Dragão do Mar. O show de abertura é com Isaac
Cândido
Demorou! Mas ele vem, quebrando tudo, no bom sentido, em dois shows
no Anfiteatro do Dragão do Mar (projeto MPB Petrobras). Otto, apenas. De
nome todo - Otto Maximiliano Pereira de Cordeiro Ferreira, nascido sob o
signo de câncer, no ano de 1968, em Belo Jardim, agreste pernambucano,
ali por perto de Caruaru. Uma lapa de homem, agalegado, mistura de
holandês com índio, que antes de cair na estrada, solo, fez parte da
cena Mangue Beat, que mexeu com as estruturas musicais, a partir das
bandas Nação Zumbi e mundo livre s/a (ele tocou percussão em ambas), mas
antes disso tudo cruzou os mares, pra triscar a pele tesa do tambor na
França. De Aracaju, parada antes de chegar aqui, Otto contou, por
telefone, como foi esta história. Começo da tarde de quarta-feira, ele
boceja, da canseira da noite anterior. Mas foi tremendamente simpático.
Diga aí, esse lance de Paris, como é que foi.
"Quando eu fui pra Paris, já gostava muito de batucar. E tocava muito
bem. Um amigo me deu um atabaque, e eu fui. Pra uma cidade praieira,
perto de Bordeaux. No mesmo dia em que eu ia, ia uma banda de
brasileiros, uma família mambembe, mas não eram amadores não, tocaram
até com Nana Caymmi. Eles começaram a tocar num café, lá, fui me
aproximando, tocando num copinho... O Paulo, dessa banda, me convidou
pra tocar com eles, mas de graça. Eles pagavam o camping. Eu tinha 20,
20 e poucos anos, sou ruim de números... Em Paris, depois, cheio de
brasileiros tocando, em tudo que era lugar. Mas não toquei em metrô,
aquela lenda do metrô... Mas toquei! Cheguei em Recife, encontrei os
moleques, a melhor turma da cidade, Chico Science, Fred Zero Quatro,
músicos, artistas, jornalistas inteligentes. Fred e Chico foram dois
mestres pra mim. Tive a sorte de ter sido criado nestas duas bandas. Sou
um cara privilegiado".
"Ela é do tempo do bob/ lá do Pina de Copacabana", me vem o verso de
Bob, do Otto, na cabeça, e fica aí, feito um mantra psicodélico, a
conversa todinha. Pergunto sobre esta mistura, que nem começou no mangue
(viva seu Luiz Gonzaga), mas que o mangue, nos anos 90, atualizou: a
música pop-contemporânea e aquela enfieira de belezas da tradição
popular. "Vivi todas essas coisas, 23 anos da minha vida passei em
função do interior onde nasci, de Recife, da cultura nordestina. Não dá
pra não dar conta. Eu tinha este som, das cirandas, do maracatu, forró.
A gente tem todos os sons, todos os santos. E isto faz a diferença. A
eletrônica, no meu primeiro disco, foi o modus operandi mais fácil e
barato. Apollo 9 e Antônio Pinto, que é filho do Ziraldo, tinham toda
esta aparelhagem, comecei a aprender. Hoje sei lidar com estes truques.
Ou você fica velho e fechado ou jovem e aberto".
Casado com a atriz Alessandra Negrini, eles têm uma filha, Betina. A
paternidade, reflete Otto, "é uma coisa bonita, é alguém que tenho,
minha família. Tô morrendo de saudade, mas tenho que trabalhar. A
saudade dói, mas é ótimo. Ter filho é alguma coisa de eterno". E pra
compor, dá pra criar alguma coisa no meio da turnê? "Pode até ser que
role. Penso, guardo pra trabalhar depois. Ontem (terça-feira) comecei
uma música... mas não tô lembrando agora. Geralmente vem toda, o ritmo,
a letra. Mas tudo começa com um fio de pensamento, desconjuntado. O
fio... pra você pensar. Sobre este ser humano, tão medíocre, preso ao
sistema. A fuga é a arte, é fazer coisas bonitas, mesmo dentro da
tragédia, da pobreza, do preconceito". Nos últimos dias, vivendo a
roda-viva, conta ele. O contato com "mil pessoas em Maceió, 1500 em
Salvador, 600 em Aracaju. E ainda falta aí e Recife. É muita energia, um
esforço físico, acordo com o corpo quebrado", diz, com sua voz
deliciosamente grave.
E a banda que acompanha você, com três cearenses... "quatro", corrige
Otto. Fernando Catatau e Júnior Boca, nas guitarras; Rian Bezerra, no
baixo, e o baterista Beto Apinéia. Além destes, tem ainda a percussão
com Marcos Axé e André Male, e Daniel Ganjaman nos teclados. Novidade?
"Tem, mas não feita agora. Sou um homem de um show. E aí vou colocando
outras, minhas músicas não redundam. A gente vive com um repertório, mas
muda sempre. Posso cantar minha história musical, com esta banda
maravilhosa. Depois de cinco shows, vamos chegar aí envenenados. Vou com
sede, a banda vem com vontade. A gente vem pra lascar". Mas aí, Otto se
indigna. Repare.
"O que eu vou dizer? Quase dez anos depois, vou aí de novo, um absurdo!
Poderíamos ter ido mais vezes... Sou um cara da região, tenho uma banda
com quatro cearenses... Eles chega ficam constrangidos, uns caras com
personalidade! Catatau é um grande artista, um dos mais atuais, meu
amigo, estamos tocando juntos há seis anos. Em Recife, a gente
conquistou um espaço bom. Aí em Fortaleza, toquei uma vez, num festival
(Ceará Music). Esses shows, sempre os mesmos caras! E não se renova. É
difícil! Quero que os produtores venham ao show, pra ver se ando mais
por aí". Ô, tomara, véio! Abrindo o show de Otto, o cantor e compositor
Isaac Cândido, que fará cerca de dez canções, das mais de 250 que
compôs, sozinho ou com parceiros, bem acompanhado pelos músicos Lu de
Sousa (guitarra e violão), Miquéias dos Santos (baixo), Ítalo Almeida
(acordeão) e Ricardo Pontes, na bateria.
SERVIÇO
OTTO & BANDA - em duas apresentações (projeto MPB Petrobras), no
Anfiteatro do Dragão do Mar - rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema.
Show de abertura com Isaac Cândido e banda. Amanhã, às 21h; domingo, às
20h. Ingressos: R$ 14 (inteira) e R$ 7 (estudantes). Inf.: 3488.8600.
Produção local, Free Lancer.
(©
O Povo)