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 A vida íntima de Gilberto Freyre

 Gilberto Freyre em sua casa
 

Espécie de diário escrito a partir dos 30 anos, De menino a homem trará revelações polêmicas do sociólogo

Bruno Albertim
balbertim@jc.com.br

Gilberto Freyre nunca teve medo de desafinar no coro dos contentes. Admitia mesmo ter um certo prazer em fomentar e – por que não? – protagonizar polêmicas. “Eu temo ser considerado um bonzinho que agrada a todo mundo, um convencional que não arrepia nenhuma convenção. Creio que quem tem atitudes precisa se conformar com o fato de desagradar a alguns”, disse ele, numa entrevista antológica para a revista Playboy, ao jornalista Ricardo Noblat, quando completou oito décadas de vida. Com o relançamento paulatino de suas obras pela Editora Global, não só os conceitos do intelectual estão mais acessíveis como também chega ao público novas doses de intimidade do homem que desenhou uma das mais completas ultra-sonografias da gestação de seu país. Está confirmada a publicação, até o segundo semestre, de De menino a homem, espécie de diário íntimo de Freyre escrito a partir dos 30 anos.

No título até então inédito, não faltarão passagens da vida mundana do autor que misturou o público e o privado para explicar o Brasil. Nele, G. F. abre mão de qualquer pudor para comentar, por exemplo, suas experiências homossexuais. “O livro não é exatamente sobre a vida sexual de Gilberto Freyre, embora haja passagens a respeito, o que sempre chama a atenção. É a continuação de Tempo morto e outros tempos, seu diário de adolescente. Anotações que ele fez até o fim da vida”, diz o editor Gustavo Tuna, responsável pela atualização de obras de Freyre como Olinda, 2º guia prático, histórico e sentimental de cidade brasileira, recém-lançado, e o guia nos mesmos moldes sobre o Recife. Este deve chegar às livrarias também no início do próximo semestre.

“No livro, Gilberto comenta uma experiência homossexual que teve na Alemanha e também o encontro que teve com uma ‘loirinha germanicamente loira’. Sem qualquer alarde”, continua o editor. Em De menino a homem, G.F. está longe de ficar apenas na alcova. Comenta influências literárias, como a descoberta de Proust, e episódios como o convite feito por Getúlio Vargas para ser ministro da Agricultura. “Ele já percebia o declínio político de Vargas e não aceitou o convite”, comenta Tuna.

Colecionador de homenagens em vida, Gilberto Freyre foi um dos mais internacionais brasileiros de seu tempo. Laureado em universidades da Europa e dos Estados Unidos, recebeu também o título de sir da monarquia inglesa. Ele fala também de como se valeu do reconhecimento no exterior para valorizar Casa-grande e senzala diante das críticas recebidas dentro do Brasil.

Com a mesma desenvoltura, fala sobre a temperatura de seus hormônios. “Gilberto Freyre era um homem bastante aberto para o tempo dele. Ele foi dos poucos intelectuais que falou sobre sexualidade. Não apenas sobre homo ou heterosexualidade, mas sobre a sexualidade brasileira no geral. Sobre, por exemplo, a vida sexual dos senhores de engenho com suas escravas. Disse mesmo que o Brasil chegou a ser sifilizado, antes de civilizado”, conta.

“Vejo que fui um menino relativamente puro”, disse ele, na referida entrevista, sobre a meninice no meio rural pernambucano, povoada por histórias de garotos satisfazendo impulsos com animais ou um certo “buraco na bananeira como substituto do sexo de mulher para a prática da masturbação”. Segundo suas próprias palavras, sua iniciação sexual aos 15 anos “foi bem brasileira”, com uma empregada doméstica, “como muitos outros brasileiros”. Só muito tempo depois, ele ampliou o repertório sexual. “Você pode imaginar alguém como eu, interessado em tudo o que é humano... e, portanto, tive a curiosidade de ver o que era o amor não heterossexual, umas poucas e não satisfatórias aventuras”.

Antes de ser lançado, o livro provoca reações. “É claro que para um filho ler sobre isso é meio chocante. Mas, se ele próprio assinou embaixo, se contou ter feito o que fez, não sou eu que vou desmenti-lo”, diz a filha e presidente da fundação que leva o nome do pai, Sônia Freyre. “É comum que os filhos não pensem sobre a vida sexual dos pais. Muito menos sobre aspectos menos convencionais”, continua.

Autor de um longo artigo acadêmico sobre a preferência brasileira pelas nádegas, Freyre se dizia um apaixonado pelos pés das brasileiras. “Pés bonitos de mulher são uma de minhas fixações sexuais. Quando fui para os Estados Unidos e para a Europa e comecei a ver mulheres de pés grandes, isso foi um dos contrastes favoráveis ao Brasil que mais me impressionaram, o de não encontrar por lá aqueles pés bonitos, bem torneados, que são uma característica de grande parte das brasileiras”. Casas-grandes, senzalas, Nordeste, o açúcar na formação da identidade regional... Gilberto Freyre, neste livro póstumo, segue a tônica dos títulos publicados em vida. Vai sempre além dos pés.

(© JC Online)

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