Quixote nordestino
Depois do
sucesso de ´Hoje é dia de Maria´, agora é a
vez de ´A Pedra do Reino´ emocionar o
público brasileiro. Baseada na obra de
Ariano Suassuna, a microssérie, que estréia
na próxima terça, dia 12, traz à tona um
sertão encantador, cheio de cores,
personagens lúdicos e com muitas histórias
para se contar, ao contrário do lugar
desgarrado, comumente retratado pela mídia.
Quem assina a direção é Luiz Fernando
Carvalho
Quando o ator Irandhir Santos viu as
chamadas da minissérie ´A pedra do reino´,
que estréia dia 12, ficou boquiaberto.Um
velho palhaço de circo chamava o público
para contar suas memórias do alto de uma
carroça cigana. O palhaço era ele e era a
primeira vez que o ator via seu próprio
rosto na TV
Pernambucano, 28 anos, desconhecido do
público, Irandhir é o protagonista da
minissérie ´A Pedra do Reino´, dirigida por
Luiz Fernando Carvalho, um projeto ousado
que rompe com os padrões tradicionais da
teledramaturgia.
´Foi um baque para mim. Foram cinco meses de
trabalho, mas ver aquilo pronto, na TV, foi
uma grande emoção. Aquelas imagens
imediatamente me conquistaram´, conta
Irandhir.
Todo o elenco da minissérie, baseada na obra
de Ariano Suassuna, é nordestino e, assim
como Irandhir - ator que teve como principal
escola o teatro de rua - a maioria nunca fez
TV. O protagonista foi selecionado a partir
de um teste feito há três anos, mas só no
ano passado teve sua primeira conversa com
Carvalho.
Irandhir disse que não havia lido “A pedra
do reino” e, na mesma hora, ganhou o livro
de presente do diretor. Devorou o romance em
quatro dias, enquanto percorria Pernambuco
de ônibus com um espetáculo popular.
Apaixonou-se por Quaderna, personagem
quixotesco, de antepassados trágicos, que se
autoproclama herdeiro do trono do sertão e
do Brasil.
No segundo encontro com o diretor, disse
como havia compreendido o herói e sua luta
para se encontrar e ouviu de Carvalho:
´Irandhir, o Quaderna é seu´. ´Fiquei
catatônico. Durante dez minutos não consegui
dizer nada, enquanto o Luiz só ria´,
relembra o ator.
Preparação
A intensa preparação do elenco -uma marca
registrada do diretor de ´Hoje é dia de
Maria´ - e as gravações aconteceram em
Taperoá, cidade paraibana no sertão do
Cariri, onde Suassuana viveu com a família
ainda criança, após o assassinato do pai.
A princípio, Irandhir viveria apenas o
Quaderna jovem, mas Carvalho decidiu que
seria o ator quem deveria interpretar também
o protagonista velho, um personagem que não
existe no livro. Velho que assume a forma de
um palhaço com trajes medievais e percorre o
sertão contando suas memórias. Ele é o fio
condutor de uma narrativa não linear, que
respeita o ritmo vertiginoso da obra de
Suassuna. ´O Quaderna velho é mais lúdico.
Fisicamente ele me exigiu mais, pois andava
agachado, como se o tempo pesasse para ele.
Mas, ao mesmo tempo, tudo era muito
brincante´, conta Irandhir, que diz ter
mudado sua maneira de ver o sertão.
´Eu cresci ouvindo que o sertão não é lugar
para se viver, mas depois de ler o livro vi
um sertão cheio de cores, com suas próprias
regras. Passei a ver um sertão mais alegre
´, afirma.
Ele impressionou Suassuna com sua definição
de Quaderna - um homem cujas buscas eram
realizadas na direção de Deus -e levou o
escritor a declarar: ´Foi a primeira vez que
um ator foi tão profundamente no caráter de
Quaderna. Já vi que o juízo dele é tão
perturbado quanto o meu´.
Irandhir parece ser mesmo uma unanimidade
entre a equipe que participou da minissérie.
Para Ricardo Blat, responsável pela
preparação do elenco, é um ator de uma
imensa generosidade e que, durante os meses
em que conviveram em Taperoá, comportou-se
de maneira simples, sem deslumbramentos, sem
medo de se expor, e contribuindo no
desenvolvimento do processo.
´É um dos atores mais talentosos da
atualidade. Foi um exemplo para todos nós´,
diz Blat, que contou ter se emocionado e
chorado várias vezes com o desempenho de
Irandhir. ´Ele ia fazendo a renda dele,
tecendo ponto por ponto, sempre se
exercitando, buscando novos caminhos. E
quando se ouvia a palavra ´ação´, tudo o que
saía era muito bom´, relata Blat. Irandhir,
que há dois anos percorre o país com o
espetáculo popular ´Quem tem medo, tem´, diz
que nunca sonhou em ser estrela de TV, mas
não minimiza o impacto que o veículo pode
ter na sua carreira.
´Olha, eu não programei isso e nem nunca
parei para pensar na fama que a TV traz.
Acho que fui feito para novas experiências´,
diz ele, que também pode ser visto em
´Baixio das bestas´, do conterrâneo Claudio
Assis.
Criado em Limoeiro, a 50 km de Recife,
Irandhir, por enquanto, não sentiu vontade
de sair de Pernambuco, onde diz se encontrar
com sua vida de teatro. Em relação ao pouco
juízo apontado por Suassuna, ele diz:´ Se
estar sempre buscando o encontro com sua
origem primeira, como o Quaderna, é loucura,
eu acho que sou louco, sim´, afirma,
gargalhando.
(©
Diário do Nordeste)
Em tintas e
máscaras
Claudia
Sarmento
Agência Globo
Uma pintura que funde cores e alegorias
para dar forma à fértil imaginação do
protagonista, Quaderna. Com essa idéia na
cabeça, Vavá Torres tratou de dar à
caracterização da microssérie ´A pedra do
reino´ um tom beirando o circense. Nessa
´viagem´, usou perucas, máscaras, tintas,
próteses faciais, massas de modelar e
apliques.
´É uma caracterização quase teatral, que
forma um quadro nada realista. Afinal, tudo
tem um clima de um sonho´, diz Vavá. ´Usamos
caneta especial para envelhecer os atores, e
pincel e esponja para pintar a pele.
Principalmente a personagem Moça Caetana
(Mayanna Neiva), que teve o corpo pintado de
vermelho e preto´.
A personagem mítica é uma das facetas da
morte: é linda, tem dorso de onça e o
pescoço envolto em uma cobra. No meio das
gravações, em Taperoá, Mayanna foi
surpreendida por uma idéia de Vavá: raspar a
cabeça. A imagem que não sai da cabeça de
Vavá é a da figura de Quaderna velho. De
todas as caracterizações que fez, foi a que
mais o impressionou.
Mas trabalhoso mesmo foi o visual do juiz
Corregedor, interpretado por Cacá Carvalho.
Além de envelhecê-lo, a equipe de
caracterização criou uma peruca longa,
puxando para um branco amarelado e acertou o
tom de sua pele de quem não pega sol.
´Eu e Cacá queríamos a todo custo eliminar
aquela imagem forte do Jamanta, seu
personagem mais famoso na TV. Como ele não
ficou o tempo todo em Taperoá, minha
primeira providência foi fazer um molde de
gesso de seu rosto. Aí, quando ele não
estava, eu ficava olhando para o molde e
viajando´.
(©
Diário do Nordeste)
A
estranha cavalgada da “Pedra do Reino”
“Romance d’A Pedra do Reino” assemelha-se ao “Grande sertão:
veredas” de Guimarães Rosa, com o qual às vezes é comparado, no sentido
de ter uma narrativa labiríntica, com idas e voltas
O livro de Rosa, no entanto, tem um texto uniforme, não interrompido por
subdivisões ou subtítulos; o de Suassuna tem uma estrutura mais visível,
e é mais fácil de mapear para referências e releituras. Ele se divide em
cinco livros, subdivididos em 85 “folhetos”. Os livros são: “I — A Pedra
do Reino”; “II — Os emparedados”; “III — Os três irmãos sertanejos”; “IV
— Os doidos”; “V — A demanda do sangral”.
Embora o livro tenha longas discussões históricas e genealógicas,
citações de obras literárias, e flashbacks da infância do narrador
Quaderna, a maior parte da ação ocorre em duas datas: 1 de junho de 1935
e 13 de abril de 1938. Na primeira, ocorre o episódio referido como “A
estranha cavalgada”, descrito a partir do folheto II, em que um bando de
homens a cavalo entra na Vila de Taperoá, causando conflitos armados e
confrontos políticos entre grupos antagonistas do local.
Em 13 de abril de 1938, Quaderna presta depoimento a um juiz corregedor
sobre os crimes ocorridos na Vila, antes, durante e depois daquela data
de 1935, crimes nos quais ele está envolvido, pela sua reivindicação de
ser o herdeiro do trono do Brasil, como legítimo descendente do fanático
que em 1838 criou o Reino da Pedra Bonita no sertão de Pernambuco. Nesse
depoimento, que vai do folheto XLIX até o último, o folheto LXXXV,
Quaderna faz todos os flashbacks necessários à explicação da sua
“descendência real” e de sua vida atribulada. E conta o fato que
considera “o núcleo de fogo e sangue da minha narrativa”: o assassinato
do seu tio e padrinho, Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto, em 24 de
agosto de 1930, e o simultâneo desaparecimento do filho mais novo dele,
Sinésio, que é dado como morto, mas cujo reaparecimento é aguardado com
fé e devoção por muitas pessoas como se fosse um novo D. Sebastião de
Portugal.
O livro I, “A Pedra do Reino”, conta o surgimento da Estranha Cavalgada
rumo a Taperoá, faz um resumo dos vários “Impérios da Pedra do Reino” de
onde descende o tronco paterno da família de Quaderna (folhetos V a X),
e resume a infância deste (folhetos XI a XV). Do folheto XVI ao XXII,
Quaderna narra o episódio, já em 1930, em que ele viaja pela primeira
vez à Pedra do Reino e se autocoroa rei.
O livro II, “Os emparedados”, volta no tempo para reconstituir a
história da família Garcia-Barretto, à qual pertence a mãe de Quaderna,
e introduz os professores Samuel (católico e integralista) e Clemente
(comunista e ateu), agregados da fazenda Onça Malhada, onde Quaderna
vive sob a proteção de seu tio Dom Pedro Sebastião. Os três fundam a
“Academia dos Emparedados” e discutem política e literatura, enquanto
Quaderna planeja escrever sua Obra Máxima da Literatura Brasileira.
Penicos usados como armas
O livro III, “Os três irmãos sertanejos”, abre-se em 1938, no dia em que
Quaderna vai depor ao corregedor. Antes disto, ele ajuda na realização
de um “ordálio” ou duelo entre Samuel e Clemente, no qual são usados
penicos como armas. A partir do folheto XLIX, o romance tem numerosos
flashbacks, mas segue uma linha contínua envolvendo Quaderna, o
corregedor e a escrevente Margarida. No folheto LV, Quaderna retoma a
história da invasão de Taperoá pela Estranha Cavalgada, cujos
desdobramentos irão surgindo nos demais livros, até o folheto LXXXIV, o
penúltimo do romance.
O livro IV, “Os doidos”, prende-se às conseqüências da invasão de
Taperoá; dois folhetos (LXVI e LXVII) são de importância especial,
porque introduzem a família de Antonio Moraes, inimigo dos
Garcia-Barrettos e vilão da história. Nos folhetos LXXII até LXXV,
Quaderna apresenta ao juiz o álibi com que procura se livrar de qualquer
relação com a cavalgada, afirmando que estava almoçando e praticando
rituais religiosos fora da vila.
O livro V, “A demanda do sangral”, mostra os líderes da Cavalgada
negociando com os líderes da oposição local (Quaderna, Samuel e
Clemente) visando à reinstalação dos Garcia-Barretos no poder e à busca
do tesouro escondido por Dom Pedro Sebastião. No folheto LXXXIV, a Vila
é invadida por um bando de cangaceiros, e a cavalgada retira-se
estrategicamente para um tabuleiro próximo. Neste ponto, o juiz
interrompe o depoimento e marca sua continuação para o dia seguinte. O
último folheto, o LXXXV, mostra Quaderna descansando em casa, e sonhando
com sua consagração literária.
O “Romance d’A Pedra do Reino” é um desses livros que conquistam de
imediato o leitor pela vivacidade da escrita, pelo humor e pela
intensidade poética de muitos trechos, e pelo pitoresco dos episódios
isolados, mas cujo labirinto narrativo, cheio de desvios de rota e de
recursividade, só se deixa vislumbrar numa segunda leitura.
(©
Diário do Nordeste)
A saga do príncipe do sangue do vai-e-volta
BRAULIO TAVARES
Escritor
As vizinhas Adelina e Luzia Diniz — a primeira, secretária
aposentada e a segunda, pensionista — viram suas casas transformadas em
parte do cenário de “A Pedra do Reino”. As fachadas das casas — simples,
mas extensas e coloridas por dentro, como muitas das moradias de Taperoá
— foram cobertas para integrar a cidade-lápide erguida pela trupe de
Luiz Fernando Carvalho, onde se desenrola a maior parte da microssérie
que estréia na Globo/TV Verdes Mares na terça-feira, dia 12. Todas as
noites, dona Adelina e dona Luzia colocavam suas cadeiras na porta de
casa para assistir às gravações, que vararam as madrugadas entre
novembro e dezembro do ano passado. Era impossível dormir com o barulho
e elas ficavam ali, firmes, sempre prontas a abrir a casa para os
visitantes que quisessem um café e bolo de banana. Perguntadas se não
estavam cansadas da agitação, ambas respondiam mais ou menos a mesma
coisa:
— Cansadas? Mas Taperoá passou esse tempo todo dormindo e só agora
acordou.
O jornal O Globo acompanhou em dezembro parte das filmagens da
microssérie baseada na obra de Ariano Suassuna. Um gigantesco butterfly
— filtro de luz de tecido — cobria a cidade cenográfica, na verdade a
área mais antiga de Taperoá, onde se desenrola a saga de Quaderna,
sertanejo que quer escrever a maior obra de todos os tempos e assumir o
trono do Brasil. Fica difícil para quem viu o lugar tomado por atores,
equipamentos e figurinos meio medievais, meio sertanejos imaginar
exatamente como é o dia-a-dia no lugar onde Suassuna viveu parte da
infância. Mas os moradores da cidade, com pouco mais de 13 mil
habitantes e uma única agência bancária, se diziam esquecidos.
— Eu vivia isolada — confirma Adelina, encantada com o desfile de atores
caracterizados pelo set e sem conseguir apontar o que achava mais
bonito.
Foram três meses de trabalho, incluindo uma série de oficinas e
palestras. Gente que estava sem emprego, e que nem sabia que tinha um
talento, foi aproveitada e viu sua vida mudar. Das rendeiras aos
iluminadores, toda a mão-de-obra usada para criar a arquitetura não
realista de Carvalho era local. Os mais de 50 atores saíram de várias
partes do Nordeste — todos rostos desconhecidos, com exceção de Cacá
Carvalho.
(©
Diário do Nordeste)
FIQUE
Projeto Quadrante
´A Pedra do Reino´ inaugura na Globo o projeto Quadrante, que
levará à TV uma série de produções inspiradas em obras literárias,
percorrendo os vários cantos do país. Depois de Suassuna, será a vez de
Machado de Assis. A próxima minissérie dirigida por Luiz Fernando
Carvalho, prevista para ir ao ar no ano que vem, centenário da morte de
Machado, será ´Capitu´, a partir de ´Dom Casmurro´.
As gravações acontecerão no Rio, mas a idéia é repetir o modelo
empregado em ´A Pedra do Reino´: elenco formado por atores
desconhecidos.
´ Farei um grande ensaio sobre a dúvida. Isso é atemporal. Os
personagens estão aí até hoje, ora na gente mesmo, ora em alguém que a
gente conhece´ diz Carvalho.
Já estão previstas também as adaptações de ´Dançar tango em Porto
Alegre´, de Sérgio Faraco (RS), e ´Dois irmãos´, de Milton Hatoum (AM).
(©
Diário do Nordeste)
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