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Foto:
Benjamin Abrahão, 1936. Acervo Aba Film, Fortaleza
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Na memória popular do
Nordeste, ficaram para sempre as histórias
de Maria Bonita, Dadá e muitas mulheres que
deram um toque de delicadeza à violência do
cangaçopor
Janaina Mello e Mônica dos Santos
Ao fiar do artesanato de
bilro dos sertões alagoa-nos, vozes
femininas cantam suas memórias ritmadas no
sol forte da caatinga. Memórias que falam,
entre outras histórias, do cotidiano de
mulheres fortes: as “Marias cangaceiras”,
que jamais perderam a ternura, mesmo quando
precisaram empunhar armas de fogo para
defender seus homens, seus amores, sua
liberdade.
No embate entre a história acadêmica e a
memória popular, o cangaço recebe leituras
diversas, ora glorificado como um movimento
heróico, contrário à injustiça social do
coronelismo latifundiário, ora condenado
como um banditismo sanguinário, sem
escrúpulos. Atuando como guardiãs das
lembranças dos excluídos da historiografia
tradicional, as cantigas sertanejas em seus
enredos musicais apresentam mulheres como
Maria Bonita, Dadá, Áurea, Enedina,
Inacinha, Otília, Neném e tantas outras que
se embrenharam pelas matas com seus
companheiros, fosse pelo rapto ou
consentimento, construindo uma vida
alternativa ao padrão de submissão que o
patriarcalismo ruralista lhes impunha.
Entre 1870 e 1940, a intensidade da
desigualdade econômica teve como resposta a
violência do cangaço, um movimento
proveniente das questões sociais e
fundiárias do Nordeste brasileiro,
protagonizado por grupos ou indivíduos
isolados que assaltavam fazendas,
seqüestravam coronéis (grandes fazendeiros),
saqueavam comboios e armazéns, realizavam
castrações e assassinatos. Sem moradia fixa,
perambulavam pelo sertão, praticando essas
ações, fugindo e se escondendo. O cangaço se
dividia em três subgrupos: os que faziam
serviços esporádicos para os latifundiários;
os “políticos”, representando o poder dos
grandes fazendeiros; e os cangaceiros
independentes, com características de
banditismo.
No interior de tanta brutalidade, a presença
feminina surge como elemento fundamental
para aliviar as tensões e suavizar
discordâncias. Apesar da vida dura, essas
mulheres não perdiam sua feminilidade,
percebida no cordel do escritor Franka,
apresentado em vaquejadas no interior do
Brasil:
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Imagem: Benjamin
Abrahão, 1936. Coleção Frederico
Pernambucano de Mello, |
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Maria Bonita e
Lampião |
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Maria, a mais bonita
que uma bola prateada,
usava batom e fita
E andava bem armada,
se um carro dirigia,
A Ford toda rangia,
em tudo foi ela ousada.
Até o final de 1929 e início de 1930 não se tem notícias da presença feminina no
cangaço. Contudo, após uma batalha na Fazenda Favelas, perto da cidade de
Juazeiro, na Bahia, os soldados que inspecionaram o local encontraram um lenço
cor-de-rosa perfumado. Era o primeiro vestígio da existência de mulheres nos
bandos cangaceiros, marcando também o início de muitas mudanças.
A primeira mulher a se juntar aos bandos de cangaceiros foi Maria Gomes de
Oliveira, que ficou conhecida pelo apelido de “Maria Bonita”, dado por Lampião.
Era chamada de “Dona Maria” pelos cangaceiros, em sinal de respeito, pois era a
mulher do chefe. Também foi chamada de “Santinha” por seu homem nos momentos de
carinho e felicidade.
Morena de uma beleza tipicamente sertaneja, olhos e longos cabelos escuros,
corpo de formas recheadas, assim ela era descrita nos sertões e na literatura do
assunto. De seu primeiro casamento, com o sapateiro José Neném, provinham
constantes desavenças e surras.
Maria Gomes, como a maioria das moças
de sua época, vivia a escutar os “feitos heróicos” dos cangaceiros,
especialmente do capitão Virgulino, por quem passou a nutrir certa “paixão
platônica”. Fugindo às agressões físicas do esposo, Maria se escondeu na casa
dos pais, que lhe apresentaram Lampião, que por ela também se apaixonou. Quando
o cangaceiro levantou acampamento, levou na garupa de seu cavalo aquela que foi
seu grande amor.
Esta mulher deu início a uma nova fase no cangaço, pois era um misto de beleza,
coragem e valentia. Dedicou-se totalmente a Lampião e nem a morte os separou,
pois no cerco a Angicos (SE), em 1938, eles morreram juntos.
Quando levou Maria Bonita para o bando, Lampião deu oportunidade para que seus
homens fizessem o mesmo. Alguns cangaceiros já possuíam relacionamentos afetivos
antes de ingressar no grupo, mas suas mulheres não eram bem-vistas pela
população. Ao participarem do cangaço, regularizavam sua situação esperando ser
mais respeitadas.
Dentre os casais que ficaram conhecidos no cangaço estão: Corisco e Dadá, José
Sereno e Sila, José Bahiano e Lídia, Gato e Inacinha, e Cajazeiras e Enedina.
Com o ingresso feminino no cangaço, um ar de romantismo invadiu o sertão
nordestino, e muitas “Marias” também sonhavam com a liberdade que poderiam
conquistar. Não que a vida de “bandoleira” fosse fácil, pois essas mulheres
enfrentavam longas caminhadas a pé pelas caatingas, vivendo a céu aberto,
expostas ao sol e à chuva, passavam dias sem comer e sem beber, sem banho e
sofrendo com as constantes perseguições empreendidas pelas volantes – patrulhas
armadas que se embrenhavam pelo sertão atrás dos cangaceiros. Mesmo assim, elas
procuravam manter sua feminilidade, adornando-se com muitos anéis e colares,
tomando banhos de perfume, porém sempre com suas pistolas presas à cintura,
prontas para serem usadas em caso de necessidade.
Diversos foram os caminhos que as
levaram para o cangaço, e nem sempre a paixão era um deles. Muitas vezes o medo
que os cangaceiros despertavam estava por trás das uniões, com o consentimento
da família. Quando as “noivas” eram escolhidas, ainda em sua meninice, os
familiares eram avisados do dia em que o pretendente viria conhecê-la. Na
ocasião se marcava a data em que o futuro marido viria buscar a moça. E o
consentimento dos pais era dado por medo de que acontecesse alguma tragédia.
O caso de Sila foi um dos mais curiosos. O cangaceiro José Bahiano, em conversa
com o irmão dela, marcou o dia de conhecê-la. Depois do encontro, combinou a
data para levá-la. No dia marcado, porém, quem apareceu foi José Sereno, que a
tomou como companheira, sendo separados apenas pela morte.
O “seqüestro” de meninas por cangaceiros também contribuiu para a entrada de
mulheres nos bandos. Corisco se apaixonou por Sérgia, que era comprometida com
um parente dele e, em um ato de extrema violência, matou o rapaz e o irmão
deste, levando a moça com ele para ser sua eterna companheira. No cangaço,
Sérgia recebeu o nome pelo qual ficou conhecida: “Dadá”.
A despeito do início brutal, o amor de ambos foi intenso – eram a única dupla
que, ainda no cangaço, se casou na igreja. Em 5 de maio de 1940, quando o que
restava do bando de Corisco foi cercado por uma volante na Bahia, Dadá, de fuzil
em punho, defendeu o marido, gravemente baleado e com um braço atrofiado por um
ferimento anterior. Corisco morreu e Dadá foi presa com um tiro no pé, que
acabaria amputado. Ela se casou novamente e morreu apenas em 1994.
Por amor, seqüestro ou consentimento,
seja qual for a razão, essas mulheres aprenderam a amar seus homens e tentaram
levar uma vida digna com eles. A sua presença contribuiu para uma melhor
aceitação dos cangaceiros na sociedade, humanizando-os.
A figura do cangaceiro, apesar de despertar certa admiração, era também muito
temida por seus atos de fúria. Com a participação feminina, esse temor cedeu,
pois ao lado dos cangaceiros estavam também suas esposas, como força
apaziguadora, interferindo nas questões sempre que podiam, tentando suavizar
momentos de violência e crueldade. Estas cangaceiras representavam uma pequena
parcela de mulheres do interior do Nordeste que possuíam liberdade de expressão
e com isso conseguiam salvar muitas vidas.
Um exemplo foi a vingança de Corisco contra a família do vaqueiro Domingos (a
quem o cangaceiro atribuía a morte de Lampião), quando Dadá, em sua companhia,
salvou uma mulher e duas crianças da cólera de seu marido. Também na chacina
cometida por Gato na ocasião da prisão de sua esposa, quando ele invadiu a
cidade de Piranhas (AL), matando muitas pessoas, outro pedido de Dadá salvou a
vida de um menino chamado Patrocínio.
Dentro do cangaço estas mulheres não tinham obrigações como em suas casas,
possuíam liberdade de escolha. Se costuravam e bordavam, era por necessidade e
prazer, mas os homens também as auxiliavam cozinhando. Faziam os enxovais umas
das outras quando tinham filhos e prestavam grande ajuda como parteiras. Quando
alguém era ferido, eram elas que cuidavam das lesões, pois não se podia ir ao
médico. Usavam nos curativos diversas ervas que encontravam com facilidade na
flora sertaneja.
Para seus companheiros essas mulheres
eram exemplo de coragem, valentia e dedicação, eles as amavam e, quando as
perdiam, enlouqueciam, pois sabiam o que iria acontecer a elas. Nas palavras de
Dadá, os motivos do temor masculino: “Vivas ou mortas, era um horror. [Se
mortas] os ‘macacos’ punham os cães para devorarem a gente e faziam outras
barbaridades. Cortavam certos lugares da gente e apresentavam num vidro com
álcool. Se estava viva, aí era aquela falta de respeito”.
O adultério dentro dos bandos era inadmissível, as mulheres tinham de ser fiéis
aos seus homens, caso contrário morreriam. Resquícios da sociedade patriarcal
que também estendia seus tentáculos no cangaço. Um dos casos que mais chama a
atenção é o de José Bahiano, que, ao saber da traição de sua mulher Lídia,
enlouqueceu e a matou a pauladas. Deste momento em diante, tornou-se rancoroso e
marcava com ferro em brasa, contendo suas iniciais, todas as sertanejas que
caíam em suas mãos.
A passividade dos sertanejos em geral, vistos como “massa de manobra” dos
grandes coronéis do Nordeste, pode e deve ser questionada, não se aplicando a
essas mulheres que aprenderam desde cedo a usar o medo como mecanismo de defesa.
Quando acuadas pelas volantes, algumas escolheram fugir, outras combater por sua
sobrevivência.
Num embate com as forças legais em Sergipe, Corisco foi metralhado no braço
esquerdo e quem o ajudou foi Dadá, que em meio ao tiroteio enfaixou o ferimento
do marido com uma coberta, tirando-o do fogo cruzado, tomando-lhe o fuzil e
assumindo o comando do enfrentamento. Ambos escaparam com vida, graças a essa
mulher corajosa.
O maior sofrimento para estas
cangaceiras era entregar seus filhos para outras pessoas criá-los, uma vez que
não seria possível mantê-los a salvo na rotina de tantas perseguições e lutas
armadas. Mas nem isso lhes tirou a alegria de ser mãe e não há relatos de que
alguma gravidez fosse interrompida, a não ser de forma natural e espontânea por
conta da árida vida que levavam.
Os filhos nasciam no mato, muitas vezes no momento em que eram travados intensos
tiroteios, com partos feitos por elas mesmas. Logo eram obrigadas a fugir a
cavalo ou a pé. Quando entregavam seus filhos, sabiam que poderiam nunca mais
vê-los, mas era um mal necessário, porque achavam que estas crianças precisavam
de educação, de um lar normal e seguro, onde pudessem brincar, crescer e começar
uma vida diferente de seus pais.
A penosa vida que levavam, nas correrias pelas caatingas entre xiquexiques,
facheiros e mandacarus, dormindo no chão e convivendo diariamente com os
horrores da morte, nunca as impediu de serem femininas. Eram mulheres que
amansavam homens que mais pareciam feras, mulheres que perfumaram o sertão com
sua ousadia e se tornaram “guerreiras” perante a tradição oral.
A ferocidade dos combates entre os
“bandoleiros errantes” do cangaço e as volantes da legalidade governamental
levou a episódios cruéis, como o fim fatídico de Maria Bonita, que não morreu na
batalha em que tombou de imediato Lampião. Foi ferida por um tiro nas costas.
Mas, em vez de presa, foi degolada. Narrativas de violências, como essa, ainda
hoje ressoam na rima do cordel de Franka:
O destino de Cristina
foi morrer assassinada.
Diferente de Enedina
que morreu duma rajada.
Da volante, ou traição,
elas morriam no sertão.
Faca, pau, bala crivada.
Rosinha, Lili e Lídia,
Nesta “LEI” assassinaram
Canjica, Áurea, Maria,
Pela volante tombaram.
Muitas como Zabalê
E também como a Nenê
da luta participaram.
Janaina Mello e Mônica dos Santos
Janaina C. Mello é doutoranda em história social
pela UFRJ e professora de história do Brasil da Universidade Estadual de
Alagoas. Mônica dos Santos é graduada em história e autora da monografia
Quando o sertão se fez mulher: a participação feminina no cangaço.
(©
BR História)
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