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 Sertão perfumado

Foto: Benjamin Abrahão, 1936. Acervo Aba Film, Fortaleza

 Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, foi a primeira mulher a se unir ao cangaço. Foi morta com Lampião em 1938
 

Na memória popular do Nordeste, ficaram para sempre as histórias de Maria Bonita, Dadá e muitas mulheres que deram um toque de delicadeza à violência do cangaço

por Janaina Mello e Mônica dos Santos

Ao fiar do artesanato de bilro dos sertões alagoa-nos, vozes femininas cantam suas memórias ritmadas no sol forte da caatinga. Memórias que falam, entre outras histórias, do cotidiano de mulheres fortes: as “Marias cangaceiras”, que jamais perderam a ternura, mesmo quando precisaram empunhar armas de fogo para defender seus homens, seus amores, sua liberdade.

No embate entre a história acadêmica e a memória popular, o cangaço recebe leituras diversas, ora glorificado como um movimento heróico, contrário à injustiça social do coronelismo latifundiário, ora condenado como um banditismo sanguinário, sem escrúpulos. Atuando como guardiãs das lembranças dos excluídos da historiografia tradicional, as cantigas sertanejas em seus enredos musicais apresentam mulheres como Maria Bonita, Dadá, Áurea, Enedina, Inacinha, Otília, Neném e tantas outras que se embrenharam pelas matas com seus companheiros, fosse pelo rapto ou consentimento, construindo uma vida alternativa ao padrão de submissão que o patriarcalismo ruralista lhes impunha.

Entre 1870 e 1940, a intensidade da desigualdade econômica teve como resposta a violência do cangaço, um movimento proveniente das questões sociais e fundiárias do Nordeste brasileiro, protagonizado por grupos ou indivíduos isolados que assaltavam fazendas, seqüestravam coronéis (grandes fazendeiros), saqueavam comboios e armazéns, realizavam castrações e assassinatos. Sem moradia fixa, perambulavam pelo sertão, praticando essas ações, fugindo e se escondendo. O cangaço se dividia em três subgrupos: os que faziam serviços esporádicos para os latifundiários; os “políticos”, representando o poder dos grandes fazendeiros; e os cangaceiros independentes, com características de banditismo.

No interior de tanta brutalidade, a presença feminina surge como elemento fundamental para aliviar as tensões e suavizar discordâncias. Apesar da vida dura, essas mulheres não perdiam sua feminilidade, percebida no cordel do escritor Franka, apresentado em vaquejadas no interior do Brasil:

 
Imagem: Benjamin Abrahão, 1936. Coleção Frederico Pernambucano de Mello,
Maria Bonita e Lampião

Maria, a mais bonita
que uma bola prateada,
usava batom e fita
E andava bem armada,
se um carro dirigia,
A Ford toda rangia,
em tudo foi ela ousada.

Até o final de 1929 e início de 1930 não se tem notícias da presença feminina no cangaço. Contudo, após uma batalha na Fazenda Favelas, perto da cidade de Juazeiro, na Bahia, os soldados que inspecionaram o local encontraram um lenço cor-de-rosa perfumado. Era o primeiro vestígio da existência de mulheres nos bandos cangaceiros, marcando também o início de muitas mudanças.

A primeira mulher a se juntar aos bandos de cangaceiros foi Maria Gomes de Oliveira, que ficou conhecida pelo apelido de “Maria Bonita”, dado por Lampião. Era chamada de “Dona Maria” pelos cangaceiros, em sinal de respeito, pois era a mulher do chefe. Também foi chamada de “Santinha” por seu homem nos momentos de carinho e felicidade.

Morena de uma beleza tipicamente sertaneja, olhos e longos cabelos escuros, corpo de formas recheadas, assim ela era descrita nos sertões e na literatura do assunto. De seu primeiro casamento, com o sapateiro José Neném, provinham constantes desavenças e surras.

Maria Gomes, como a maioria das moças de sua época, vivia a escutar os “feitos heróicos” dos cangaceiros, especialmente do capitão Virgulino, por quem passou a nutrir certa “paixão platônica”. Fugindo às agressões físicas do esposo, Maria se escondeu na casa dos pais, que lhe apresentaram Lampião, que por ela também se apaixonou. Quando o cangaceiro levantou acampamento, levou na garupa de seu cavalo aquela que foi seu grande amor.

Esta mulher deu início a uma nova fase no cangaço, pois era um misto de beleza, coragem e valentia. Dedicou-se totalmente a Lampião e nem a morte os separou, pois no cerco a Angicos (SE), em 1938, eles morreram juntos.

Quando levou Maria Bonita para o bando, Lampião deu oportunidade para que seus homens fizessem o mesmo. Alguns cangaceiros já possuíam relacionamentos afetivos antes de ingressar no grupo, mas suas mulheres não eram bem-vistas pela população. Ao participarem do cangaço, regularizavam sua situação esperando ser mais respeitadas.

Dentre os casais que ficaram conhecidos no cangaço estão: Corisco e Dadá, José Sereno e Sila, José Bahiano e Lídia, Gato e Inacinha, e Cajazeiras e Enedina.

Com o ingresso feminino no cangaço, um ar de romantismo invadiu o sertão nordestino, e muitas “Marias” também sonhavam com a liberdade que poderiam conquistar. Não que a vida de “bandoleira” fosse fácil, pois essas mulheres enfrentavam longas caminhadas a pé pelas caatingas, vivendo a céu aberto, expostas ao sol e à chuva, passavam dias sem comer e sem beber, sem banho e sofrendo com as constantes perseguições empreendidas pelas volantes – patrulhas armadas que se embrenhavam pelo sertão atrás dos cangaceiros. Mesmo assim, elas procuravam manter sua feminilidade, adornando-se com muitos anéis e colares, tomando banhos de perfume, porém sempre com suas pistolas presas à cintura, prontas para serem usadas em caso de necessidade.

Diversos foram os caminhos que as levaram para o cangaço, e nem sempre a paixão era um deles. Muitas vezes o medo que os cangaceiros despertavam estava por trás das uniões, com o consentimento da família. Quando as “noivas” eram escolhidas, ainda em sua meninice, os familiares eram avisados do dia em que o pretendente viria conhecê-la. Na ocasião se marcava a data em que o futuro marido viria buscar a moça. E o consentimento dos pais era dado por medo de que acontecesse alguma tragédia.

O caso de Sila foi um dos mais curiosos. O cangaceiro José Bahiano, em conversa com o irmão dela, marcou o dia de conhecê-la. Depois do encontro, combinou a data para levá-la. No dia marcado, porém, quem apareceu foi José Sereno, que a tomou como companheira, sendo separados apenas pela morte.

O “seqüestro” de meninas por cangaceiros também contribuiu para a entrada de mulheres nos bandos. Corisco se apaixonou por Sérgia, que era comprometida com um parente dele e, em um ato de extrema violência, matou o rapaz e o irmão deste, levando a moça com ele para ser sua eterna companheira. No cangaço, Sérgia recebeu o nome pelo qual ficou conhecida: “Dadá”.

A despeito do início brutal, o amor de ambos foi intenso – eram a única dupla que, ainda no cangaço, se casou na igreja. Em 5 de maio de 1940, quando o que restava do bando de Corisco foi cercado por uma volante na Bahia, Dadá, de fuzil em punho, defendeu o marido, gravemente baleado e com um braço atrofiado por um ferimento anterior. Corisco morreu e Dadá foi presa com um tiro no pé, que acabaria amputado. Ela se casou novamente e morreu apenas em 1994.

Por amor, seqüestro ou consentimento, seja qual for a razão, essas mulheres aprenderam a amar seus homens e tentaram levar uma vida digna com eles. A sua presença contribuiu para uma melhor aceitação dos cangaceiros na sociedade, humanizando-os.

A figura do cangaceiro, apesar de despertar certa admiração, era também muito temida por seus atos de fúria. Com a participação feminina, esse temor cedeu, pois ao lado dos cangaceiros estavam também suas esposas, como força apaziguadora, interferindo nas questões sempre que podiam, tentando suavizar momentos de violência e crueldade. Estas cangaceiras representavam uma pequena parcela de mulheres do interior do Nordeste que possuíam liberdade de expressão e com isso conseguiam salvar muitas vidas.

Um exemplo foi a vingança de Corisco contra a família do vaqueiro Domingos (a quem o cangaceiro atribuía a morte de Lampião), quando Dadá, em sua companhia, salvou uma mulher e duas crianças da cólera de seu marido. Também na chacina cometida por Gato na ocasião da prisão de sua esposa, quando ele invadiu a cidade de Piranhas (AL), matando muitas pessoas, outro pedido de Dadá salvou a vida de um menino chamado Patrocínio.

Dentro do cangaço estas mulheres não tinham obrigações como em suas casas, possuíam liberdade de escolha. Se costuravam e bordavam, era por necessidade e prazer, mas os homens também as auxiliavam cozinhando. Faziam os enxovais umas das outras quando tinham filhos e prestavam grande ajuda como parteiras. Quando alguém era ferido, eram elas que cuidavam das lesões, pois não se podia ir ao médico. Usavam nos curativos diversas ervas que encontravam com facilidade na flora sertaneja.

Para seus companheiros essas mulheres eram exemplo de coragem, valentia e dedicação, eles as amavam e, quando as perdiam, enlouqueciam, pois sabiam o que iria acontecer a elas. Nas palavras de Dadá, os motivos do temor masculino: “Vivas ou mortas, era um horror. [Se mortas] os ‘macacos’ punham os cães para devorarem a gente e faziam outras barbaridades. Cortavam certos lugares da gente e apresentavam num vidro com álcool. Se estava viva, aí era aquela falta de respeito”.

O adultério dentro dos bandos era inadmissível, as mulheres tinham de ser fiéis aos seus homens, caso contrário morreriam. Resquícios da sociedade patriarcal que também estendia seus tentáculos no cangaço. Um dos casos que mais chama a atenção é o de José Bahiano, que, ao saber da traição de sua mulher Lídia, enlouqueceu e a matou a pauladas. Deste momento em diante, tornou-se rancoroso e marcava com ferro em brasa, contendo suas iniciais, todas as sertanejas que caíam em suas mãos.

A passividade dos sertanejos em geral, vistos como “massa de manobra” dos grandes coronéis do Nordeste, pode e deve ser questionada, não se aplicando a essas mulheres que aprenderam desde cedo a usar o medo como mecanismo de defesa. Quando acuadas pelas volantes, algumas escolheram fugir, outras combater por sua sobrevivência.

Num embate com as forças legais em Sergipe, Corisco foi metralhado no braço esquerdo e quem o ajudou foi Dadá, que em meio ao tiroteio enfaixou o ferimento do marido com uma coberta, tirando-o do fogo cruzado, tomando-lhe o fuzil e assumindo o comando do enfrentamento. Ambos escaparam com vida, graças a essa mulher corajosa.

O maior sofrimento para estas cangaceiras era entregar seus filhos para outras pessoas criá-los, uma vez que não seria possível mantê-los a salvo na rotina de tantas perseguições e lutas armadas. Mas nem isso lhes tirou a alegria de ser mãe e não há relatos de que alguma gravidez fosse interrompida, a não ser de forma natural e espontânea por conta da árida vida que levavam.

Os filhos nasciam no mato, muitas vezes no momento em que eram travados intensos tiroteios, com partos feitos por elas mesmas. Logo eram obrigadas a fugir a cavalo ou a pé. Quando entregavam seus filhos, sabiam que poderiam nunca mais vê-los, mas era um mal necessário, porque achavam que estas crianças precisavam de educação, de um lar normal e seguro, onde pudessem brincar, crescer e começar uma vida diferente de seus pais.

A penosa vida que levavam, nas correrias pelas caatingas entre xiquexiques, facheiros e mandacarus, dormindo no chão e convivendo diariamente com os horrores da morte, nunca as impediu de serem femininas. Eram mulheres que amansavam homens que mais pareciam feras, mulheres que perfumaram o sertão com sua ousadia e se tornaram “guerreiras” perante a tradição oral.

A ferocidade dos combates entre os “bandoleiros errantes” do cangaço e as volantes da legalidade governamental levou a episódios cruéis, como o fim fatídico de Maria Bonita, que não morreu na batalha em que tombou de imediato Lampião. Foi ferida por um tiro nas costas. Mas, em vez de presa, foi degolada. Narrativas de violências, como essa, ainda hoje ressoam na rima do cordel de Franka:

O destino de Cristina
foi morrer assassinada.
Diferente de Enedina
que morreu duma rajada.
Da volante, ou traição,
elas morriam no sertão.
Faca, pau, bala crivada.
Rosinha, Lili e Lídia,
Nesta “LEI” assassinaram
Canjica, Áurea, Maria,
Pela volante tombaram.
Muitas como Zabalê
E também como a Nenê
da luta participaram.

Janaina Mello e Mônica dos Santos Janaina C. Mello é doutoranda em história social pela UFRJ e professora de história do Brasil da Universidade Estadual de Alagoas. Mônica dos Santos é graduada em história e autora da monografia Quando o sertão se fez mulher: a participação feminina no cangaço.

(© BR História)

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