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Diretora de Capitães da Areia diz que não fará versão baiana de Cidade de Deus

04/04/2009

 

 

Foto: Vantoen Pereira Jr.
Filmagens de Capitães de Areia em Salvador

Texto: Heitor Augusto

Em 1937, Jorge Amado publicou seu sexto romance, Capitães de Areia. Aos 24 anos, o homem que se tornaria um dos maiores escritores brasileiros, deu um olhar que mistura romantismo e política a um grupo de adolescentes sem eira nem beira que se vira com pequenos furtos.

Mas essa atmosfera do jovem Jorge Amado, então filiado ao PC (Partido Comunista), não é exatamente o que vai permear a versão cinematográfica da história, dirigida pela neta do escritor, Cecília Amado. "Apesar de o livro ter muita coisa que ainda fascina os jovens de hoje, ele contém muito da ideologia do jovem Jorge", explica Cecília, que atendeu ao Cineclick por telefone de sua casa no Rio de Janeiro. "Eu convivi muito com ele durante minha adolescência, quando ele já tinha mais de 70 anos. E o homem que conheci era mais maduro e humanista. Essa postura dá o tom ao filme".

A primeira mudança é o espaço de tempo em que a história dos garotos se passa. No livro, está anos 30; na versão cinematográfica, cujo roteiro foi escrito por Cecília em parceria com Hilton Lacerda (A Festa da Menina Morta), é deslocada para a década de 50. Mas, para quem gosta do livro, a diretora alerta: todos os Capitães, do líder Pedro Bala à única mulher do bando, Dora, estão no filme.

Estreante na direção, Cecília já trabalhou com não-atores no seriado Cidade dos Homens. Ao lado do experiente preparador de elenco Christian Duuvoort (O Banheiro do Papa), selecionou os jovens que viveriam os novos Capitães da Areia. "A preparação começou em outubro de 2007. Tivemos mil e tantos jovens de 22 ONGs, por exigência minha. Destes, ficaram 90. Duuvoort os preparou por dois meses. Sobraram os 12 escolhidos, que receberam outros dois meses de preparação", explica a diretora.

Rostos desconhecidos, como o Jean Luis Souza de Amorim, que interpreta Pedro Bala, líder do bando. Hora de começar as filmagens. Aí veio a crise, o cronograma foi adiado, mas a produção resolveu tentar reverter a situação: dividiu em três etapas as filmagens. A primeira, entre setembro e outubro do ano passado, concentrou-se no Trapiche, o QG dos garotos; a segunda, em janeiro, e a terceira, o final do filme que mostra os garotos já desarticulados, agora em abril. "Cerca de 90% já filmado", contabiliza Cecília.

No processo de preparação dos atores, a diretora, que já havia trabalhado como 1ª assistente de direção em Batismo de Sangue, conta que percebera, desde o início, o talento de alguns para o papel. "De cara, saquei quem teria de ser o João Grande e o Pirulito". Mas nem tudo foi tão simples. "Com o personagem do Professor, vínhamos trabalhando com um garoto, mas ao longo do processo outro jovem foi se revelando. E é difícil chegar para eles, que não têm estrutura familiar ou financeira, e dizer que está fora", admite Cecília, que conseguiu realocar o garoto no elenco de apoio.

Violência, abandono, um bando de moleques que tenta escapar pela criminalidade. Um novo Cidade de Deus? "Não, pois tanto o conteúdo como a abordagem são diferentes. O filme do Meirelles explica pela superfície a formação da violência e do tráfico. O Capitães da Areia mostra, de maneira humanista, o que está por trás dos jovens, que hoje encontram os mesmos problemas que meu avô mostrou nos anos 30". Porém, não deixam de haver semelhanças. "Os métodos de preparação são parecidos, a violência social também é de impacto, a linguagem é moderna e a fotografia [assinada por Guy Gonçalves] é vibrante".

Carlinhos Brown, um ex-Capitão da Areia

Nesse processo de preparação, um ex-Capitão da Areia real se envolveu muito com o filme: Carlinhos Brown. Um dos personagens, o Boa Vida (interpretado por Jordan Mateus), é músico e há uma sequência no filme em que ele toca caixinha de fósforo.

Brown parou e, durante uma das sessões de preparação, mostrou ao jovem como tocar o instrumento improvisado. "Exatamente como Batatinha [grande nome do samba baiano] ensinou o Carlinhos quando jovem. E ele foi um Capitão da Areia na infância e trouxe muito desse universo para a trilha". Sim, o músico também é responsável pela trilha sonora.

Com a previsão de finalizar a última etapa das filmagens em abril, a diretora diz que pretende lançar o filme no verão. A distribuidora já está garantida: Imagem Filmes. A produção é de Bruno Stroppiana (Skylight) e Donald Ranvaud (Buena Onda). Ainda não está decidido se irá passar por algum festival antes de entrar em circuito.

(© CineClick)


Quincas Berro d'Água sai do papel rumo à tela

Sérgio Machado inicia, em Salvador, as filmagens da obra de Jorge Amado

Luiz Carlos Merten

Desde que terminou sua participação na minissérie Alice, da HBO, que codirigiu com Karin Aïnouz, Sérgio Machado se instalou em Salvador, de volta às origens - é baiano -, para preparar as filmagens de Quincas Berro d'Água. Foi mais de um ano de preparativos - exatamente, um ano e dois meses. Na sexta passada, as filmagens finalmente começaram. Na primeira cena filmada, Marieta Severo, como Manuela, a prostituta 'espanhola' do Pelourinho, sobe na torre e ameaça se jogar, ao saber da morte de Quincas. Sérgio Machado admite que nunca se preparou tanto para um filme. Mas ele também reconhece que nunca fez nada tão grande. "Quincas é o dobro de Cidade Baixa", ele resume, referindo-se ao longa precedente.

Quincas, que será distribuído pela Buena Vista, é a primeira parceria da Videofilmes com a Globo Filmes. Não apenas seu orçamento é mais elevado que o de Cidade Baixa - o dobro, R$ 6,5 milhões -, como o novo filme multiplica por dez os personagens de Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga no anterior e o número ainda não dá conta da quantidade de figuras importantes da trama. Quincas é Paulo José, Manuela é Marieta e também estão presentes Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, Milton Gonçalves e muitos outros. "Fiz dezenas de testes para selecionar o elenco", resume o diretor, que entrevistou astros, estrelas e também gente desconhecida, mas talentosa, todo mundo buscando um papel na adaptação do romance de Jorge Amado. Como sempre, Machado fez um trabalho de preparação do elenco - com Fátima Toledo.

"São atores de várias procedências e eu tenho aqui muitas cenas de ação, de lutas. Fátima me garante uma unidade antecipada de interpretação, e isso é fundamental para mim." Adaptar Quincas Berro d'Água era um sonho antigo do diretor. Sua admiração por Jorge Amado beira a devoção. "Ele foi um verdadeiro pai para mim. Quando lhe mostrei meu primeiro curta, Jorge botou fé no meu trabalho. Foi quem me apresentou Walter Salles. Jorge foi uma figura tão referencial em minha vida que dei o nome dele ao meu filho." Não faz muito tempo, Sérgio Machado foi convidado a escrever um texto sobre Jorge Amado - e Quincas - numa revista especializada de literatura. Houve uma enquete para determinar a obra-prima do escritor e Quincas saiu vitorioso.

É o maior romance do escritor, embora outros possam ser mais populares - os casos de seus perfis de mulheres, Gabriela, a de cravo e canela, e Tieta, a do agreste. Da mesma estatura de Quincas, só Os Velhos Marinheiros, que Ricardo Bravo, diretor de Oriundi, com Anthony Quinn, queria filmar (e com o astro de Hollywood, também apaixonado pelo livro). "Tenho a impressão de que tudo o que fiz antes me trouxe a Quincas", diz Machado. Por 'tudo', ele quer dizer o documentário Onde o Mundo Acaba, sobre Mário Peixoto, o lendário autor de Limite, e a ficção Cidade Baixa. No centro do romance está o tema da morte e Machado admite sua dificuldade para lidar com o assunto.

"Sei que a morte é inevitável e não me assusta tanto a ideia de que vou morrer. O que me angustia é a morte dos outros, a possibilidade de perda das pessoas queridas. Lido muito mal com isso", conta, com toda honestidade, o diretor. A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água surgiu em 1958, misturando sonho e realidade num relato nitidamente imbricado no realismo mágico. Conta a história de Joaquim Soares da Cunha, que foi funcionário público, pai e marido exemplar até o dia em que se aposentou do serviço público. A partir daí, jogou tudo para o alto - tradição, família, respeitabilidade e caiu na malandragem, no alcoolismo e na jogatina, trocando a vida familiar pela convivência com prostitutas, bêbados, marinheiros, jogadores e pequenos meliantes e contraventores da ralé de Salvador. Joaquim, agora Quincas, torna-se respeitado e admirado entre seus novos companheiros de infortúnio. É o pai, o sábio, o conselheiro, sempre disposto a mais uma farra ou bebedeira. Quando morre solitário, os amigos, bêbados, resolvem levar o defunto para um último 'giro' pelo baixo-mundo. O passeio passa por bordéis e botecos, terminando num saveiro, com muitas mulheres e comida. Ocorre uma tempestade e o corpo de Quincas cai no mar.

Sérgio Machado sempre gostou de trabalhar com storyboard, desenhando as cenas a serem filmadas. Para Quincas, ele encontrou um programa de internet que lhe permite passar o filme todo em terceira dimensão. A isso, somou um calhamaço de anotações muito detalhadas que compõem o que, no jargão da produção, é chamado de 'livrão'. É a bíblia no set. Tantos preparativos não impediram que, na quinta-feira, um dia antes do início da filmagem, Machado admitisse estar com um 'friozão' na barriga. "É muita coisa. Cenas de ação, brigas, efeitos." O saveiro já está pronto e a 'tempestade' foi planejada nos mínimos detalhes. Com tantos preparativos, ele não corre o risco de o filme ficar engessado? "Eu me preparo muito, mas paradoxalmente é assim que me sinto livre para poder improvisar", esclarece o diretor.


Que Livro É Esse?

Em 1992, comemorando os 80 anos de Jorge Amado, o crítico José Paulo Paes escreveu no suplemento Cultura, de O Estado de S. Paulo, um texto celebrando A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, de 1959, como 'a festa profana da literatura brasileira'. Considerando o livro um marco da segunda fase da ficção do autor, iniciada um ano antes com Gabriela Cravo e Canela, o crítico vê na sua história uma exaltação carnavalesca dos excessos de sexo e bebida, como forma de recusa da respeitabilidade burguesa. Ao começar nas letras, Amado colocava no futuro uma utopia ideológica - a tomada do poder pelos excluídos. Em Quincas, ela vira utopia lírica voltada para o aqui e agora do povo como fonte permanente dos valores. Nelson Pereira dos Santos, que adaptou Tenda dos Milagres e Jubiabá, sonhava com a adaptação de Quincas. Generoso, Nelson deve estar torcendo por Sérgio Machado.

(© JC Online)


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JORGE AMADO (Fundação Casa de Jorge Amado)

 

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