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24/07/2002
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por JANAÍNA LIMA
As homenagens são sempre bem-vindas, especialmente, em se tratando de
personalidades que de fato contribuíram para o engrandecimento da cultura pernambucana.
É o caso do dramaturgo Hermilo Borba Filho, que foi celebrado pelo Centro
Apolo-Hermilo e a fundação que leva o nome do autor da cidade de Palmares. As duas
instituições promoveram a 1ª Semana de Hermilo, com o lançamento do livro Poetas
dos Palmares.
A obra foi organizada por Juareiz Correya e tem a introdução assinada
pelo próprio Hermilo. O livro foi produzido pela Fundação Casa de Cultura Hermilo Borba
Filho, de Palmares. Além do lançamento do volume, haverá recital com 20 poetas
conterrâneos ao autor que também participaram do livro. O Apolo-Hermilo, apesar de
ter um teatro dedicado que leva o seu nome, ainda não havia realizado nada que
justificasse a homenagem ao autor. Faltava um evento que aproximasse o espaço da obra
dele. A Fundação Hermilo, de Palmares, havia programado algo para marcar os 85 anos do
escritor, pensamos em fazer uma iniciativa conjunta, explica Luís Reis,
diretor-adjunto do centro. Segundo ele, o evento será incluído no calendário oficial do
centro cultural do Recife.
Também foram gravadas, no Apolo-Hermilo, entrevistas com personalidades
que conviveram e admiram a obra do escritor pernambucano. O material será editado no
formato de documentário, pela TV Universitária, que, posteriormente, exibirá o produto.
A apresentação será feita por Cristiano Ramos.
A idéia do programa de TV surgiu também para fugir um pouco do
formato tradicional de debates ou seminários. Serão dois convidados por vez, que vão
contar suas experiências com Hermilo. O público assistirá ao vivo às gravações e
ainda participará, diz Luís Reis.
Entre os convidados a dar depoimentos sobre Hermilo Borba Filho estão
filhos, familiares e amigos de Hermilo, com destaque para Lêda Alves (viúva do
dramaturgo), os diretores teatrais Carlos Reis, Antonio Cadengue, José Pimentel, Marco
Camarotti e João Denys, os atores Germano Hauit e Rubem Rocha Filho. O escritor Ariano
Suassuna e o ceramista Francisco Brennand também são aguardados. (© Jornal do Commercio)
| Hermilo Borba Filho

Luiz Felipe Botelho
Escritor, dramaturgo, jornalista, crítico teatral, diretor de teatro e televisão,
professor, historiador. Hermilo Borba Filho nasceu em 1917, na cidade de Palmares, Zona da
Mata Sul de Pernambuco, região rica em manifestações populares. Viveu sua infância e
adolescência num cenário até hoje marcado pelos modos e vícios típicos do sistema
nascido da monocultura canavieira nordestina - o universo da tríade
casa-grande/senzala/igreja, dissecada e celebrizada na obra do sociólogo
Gilberto Freyre. Como testemunha da dinâmica desse microcosmo de expressões e
contradições humanas, Hermilo aprendeu a compreender e amar o universo da cultura
popular. Essa experiência de vida veio a nortear suas próprias motivações
profissionais, influenciando diretamente sua obra.
Veio
estudar no Recife, passando por vários cursos universitários até se formar como
Bacharel em Direito em 1950 (UFPE). Não exerceu a profissão. O Teatro era sua grande
paixão e foi a ele que dedicou-se por toda a vida.
Em 1953
mudou-se para São Paulo, onde dirigiu várias companhias de Teatro, como o Teatro
Paulistano de Comédia e a Companhia Cacilda Becker. Escreveu para os jornais
Última Hora e Correio Paulistano e chegou a assumir a diretoria
da revista Visão. Voltou ao Recife em 1958.
De
natureza estudiosa e pesquisadora, aliada a uma extrema inquietação
artística (*), Hermilo Borba Filho tornou-se um dos mais importantes - e
revolucionários - nomes do Teatro local. De personalidade forte e idéias arrojadas,
Hermilo colaborou para dar novo impulso e visibilidade à arte e à cultura nordestinas,
juntamente com outros artistas e escritores, como Ariano Suassuna, Aloísio Magalhães,
Joel Pontes, Sílvio Rabello, Osman Lins, José Carlos Cavalcanti Borges e Gastão de
Holanda. Assim, foi um dos fundadores do Teatro do Estudante de Pernambuco - TEP (1945),
do Teatro Popular do Nordeste - TPN (1959), do Teatro de Arena do Recife (1960, com
Alfredo de Oliveira) e do Movimento de Cultura Popular - MCP (1961, com o educador Paulo
Freyre).
Seus
textos para teatro são: Electra no Circo (1944), João Sem Terra
(1947), A Barca de Ouro (1949), O Auto da Mula do Padre (1948),
Um Paroquiano Inevitável (1965), A Donzela Joana (1966),
inspirado na trajetória de Santa Joana DArc, e Sobrados e Mocambos
(1972), baseado na obra homônima de Gilberto Freyre.
Dentre
seus ensaios, destacam-se História do Teatro (1950), Teoria e Prática
do Teatro (1961), Diálogo do encenador (1964), Fisionomia e
espírito do Mamulengo (1966), Espetáculos Populares do Nordeste
(1966), Apresentação do Bumba-Meu-Boi (1967) e História do
Espetáculo (1969). Com exceção de Apresentação do Bumba-Meu-Boi,
que teve uma segunda edição - já esgotada - em 1982 (foto), até hoje nenhum desses
ensaios foi reeditado (e ficamos nós tendo que nos contentar com livros escritos por
autores europeus que nada sabem - e nem tem porque saber - da nossa realidade).
Quanto
à sua bela, esfuziante e ousada obra literária, ela continua a ser objeto de estudos e
teses de mestrado, embora se possa afirmar que Hermilo ainda não foi
descoberto pelas novas gerações. Seu trabalho mais famoso é a tetralogia
Um Cavalheiro da Segunda Decadência. Sobre ela disse Ariano Suassuna:
No que se refere a nossa geração, não há ninguém que se possa comparar a
Hermilo Borba Filho como abridor de veredas e apontador de caminhos. Também sobre
ela comentou Hélio Pólvora: Irreverente, zombeteiro, rabelesiano, boccaciano,
Hermilo Borba Filho vai tecendo os seus enredos, numa enxúndia de palavras que faz o
sertão virar mar. Sua linguagem choca em catadupas. Uma pancada intencional de bom ou mau
gosto. Uma bacanal descritiva. A prosa é uma orgia romano-tropicalista que certas
situações de uma sensualidade erótica mais acentuam.
Como
pesquisador e homem de cultura, trabalhou em instituições como as Secretarias de
Educação do Estado de Pernambuco e dos Municípios do Recife e São Paulo, além das
Universidades Federais de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Várias de suas
obras foram encenadas na Europa e na América Latina. Dentre as honrarias que recebeu,
destaca-se o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras (Chevalier
de lOrdre des Arts e des Lettres), concedido pelo Governo da França.
Hermilo
faleceu no dia 2 de junho de 1976, no Recife. Continua vivo no que escreveu e nas
reflexões que continua a provocar por tudo o que foi e realizou.
(*) Tirando a
Máscara - Teatro Pernambucano, 20 anos de Repressão de Milton Baccarelli,
FUNDARPE, Recife-PE, 1994.
(© Jornal do Commercio) |
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