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por Carlos Adriano
Compositor diz que trabalha "para
as massas" e que a Tropicália desagua na "ode ao Tchan"
Para Caetano Veloso, as
rotações da revolução tropicalista ainda não pararam e desaguam tanto na delongada
coda de Cantiga de Boi como nas vendas astronômicas de Sozinho.
Se há alguma revolução permanente iniciada com a Tropicália, ela
deve reencontrar-se na ode ao Tchan, na revisitação das babas hispano-americanas, em
Doideca, na coda de Cantiga de Boi e na vendagem de um milhão de
CDs com a gravação de Sozinho, diz o compositor e cantor nesta
entrevista, concedida entre uma turnê pela América Latina e outra pela Europa.
Mais do que provocante, o argumento é coerente com o trajeto e o processo do
inquieto artista, que segue caminhando contra o vento da bandeira previsível.
Caetano Veloso lançou-se no terreno minado e movediço da música popular
brasileira empenhado numa tradição de ruptura. As bases de seu projeto de ponta foram
arquitetadas com solidez sensível e consistência conceitual.
Só a retomada da linha evolutiva (da MPB) pode nos dar uma
organicidade para selecionar e ter um julgamento de criação, formulou em seu
histórico depoimento à enquete da Revista Civilização Brasileira, de maio
de 1966.
Outras intervenções históricas estariam por vir, como o
manifesto-desagravo de É Proibido Proibir (1968), culminando no movimento
revolucionário da Tropicália, levado a cabo e risco por Caetano, Tom Zé, Mutantes,
Gilberto Gil, Rogério Duprat e outros.
Quase 40 anos depois, devidamente entronizado e cultuado no
cancioneiro-cânone da nação, seu cinema transcendental não saiu de cartaz, e continua
a despertar encanto e polêmica.
Ultimamente, Caetano tem sido alvo de cobranças, por não seguir -segundo
alguns- a revolução permanente que ele mesmo instaurou na MPB a partir da Tropicália,
diluindo-se nas vagas do mercado.
No entanto, Caetano não largou o legado da aventura tropicalista, mantendo
sim o arco teso da invenção no ambiente médio (e carente de medula) da canção popular
no país da geléia geral.
A intempérie de ressalvas parece ignorar o próprio processo em que o texto
musical se arranja na trajetória de um autor (e em seu contexto histórico) e não
perceber que -no caso específico deste artista- todos seus discos têm altos momentos de
criação e exigência estética radicais, além das canções que são belas canções e
das reinterpretações que são belas interpretações (e são verdadeiro oásis, mesmo
que circunscritas à mera aferição do simples consumo).
A música de Caetano pode até estar no jogo do mercado, mas não se submete
à sua receita estreita. A todo lance, subverte as regras do jogo e curto-circuita o
sistema viciado com o imprevisto da exceção, como nas anamorfoses de Zera a
Reza e Cantiga de Boi (Noites do Norte) e nas atonais
Livros e Doideca e no diapasão ruidista de "Ela Ela"
("Circuladô") calibrado por "Araçá Azul".
As recriações de Jokerman e Fina Estampa reverberam
os Beatles de Jóia e Qualquer Coisa. As composições a partir de
poesia são denominador comum da poética musical do compositor: de Cobra
Coral e O Navio Negreiro a Pulsar e Circuladô de
Fulô e Escapulário e Gil Engendra.
Isso, para não falar de discos diferentes, em natureza e propósito, mas
uníssonos no escândalo estético: Tropicália 2 e Ommagio a Federico e
Giulietta (este, um dos mais belos filmusicais jamais feitos no Brasil).
Caetano tem consciência de sua posição paradoxal: é entusiasta das
vanguardas mas faz música para as massas, preferindo eleger o signo do oxímoro e não do
óxido, sem arredar do caminho que vai seguindo pois é seu contra-caminho. Trabalho
para as massas, afirma na entrevista a seguir, onde também avalia a MPB atual e
comenta sobre as perspectivas estéticas da música no livre mundo multicultural acossado
pela mundialização predatória.
Que avaliação você faz da atual situação da música popular brasileira, no
compasso propriamente musical? O que está ouvindo de contemporâneo que lhe tocou?
Caetano Veloso: Sou sempre otimista em relação à música popular do Brasil.
Estamos ainda metabolizando a informação nova vinda das favelas e liderada pelos
paulistanos Racionais MCs. Mal ouvimos a experiência pernambucana do Nação Zumbi. Os
fenômenos de mercado axé, pagode e sertanejo -e o
fenômeno de mercado informal do funk carioca- foram demonstrações de vitalidade onde
muitas linhas mestras da tradição foram regeneradas.
O disco Bloco do Eu Sozinho, do Los Hermanos, é requintadamente inventivo. O
disco Máquina de Escrever Música, de Moreno+2, é personalíssimo e
refinadíssimo. O disco do Arnaldo Antunes produzido por Carlinhos Brown e Alê Cerqueira
é luminoso. O de Elza Soares, por Zé Miguel Wisnik e o mesmo Alê, é um marco
histórico, pois revela e eleva a grandeza musical da cantora do modo como se deveria
fazer com muitos outros nomes da história viva do samba.
O show de Tom Zé, nascido do seu
interessantíssimo disco Jogos de Armar, é uma peça de primeira linha. O
show de Mart'nália (a que assisti ontem, 12 de junho, no Rio) é o extremo luxo da
cultura popular brasileira exposto com a mais desarmante espontaneidade: algo que eu
gostaria de mostrar aos meus amigos de Madri, Paris, Nova York... O disco de Max de Castro
(Samba Raro) é bonito e ousado, um verdadeiro manifesto sobre gosto e estilo.
Enfim, o compasso é assim: acelerado. E isso é só um trecho da cantiga.
E na pauta da relação da música com o mercado e o público?
Caetano: Já respondi em parte, ao comentar sobre axé,
pagode e sertanejo na resposta anterior. Posso acrescentar que sou
amigo de poetas que gostam de citar um poeta que diz que a regra é um mau poeta ser
aplaudido, um bom poeta ser ignorado, um grande poeta, odiado, um deus, crucificado. E, no
entanto, trabalho para as massas e adoro alguns poetas louvados pelas massas.
Na sua opinião, quais as linhas de força e quais os laços de falha da MPB hoje?
Caetano: A força está na teimosia dos criadores de música popular. A falha, na
capitulação cíclica de todos -músicos, críticos, público- à nossa incompetência
histórica, que um dia o poeta chamou de cósmica.
Num exercício hipotético (e sem excluir-se da história), você poderia traçar a
linha evolutiva necessária para a MPB de agora e de amanhã?
Caetano: Essa história de linha evolutiva mereceria uma discussão alongada.
Antônio Cícero escreveu algo muito relevante sobre o assunto, algo que infelizmente não
tenho aqui à mão. Mas deve ficar claro que não vejo, nunca vi, uma linha contínua de
evolução uniforme.
A música popular vive de sínteses (acho que aqui ecôo algo do texto de Cícero). O que
me interessa é como essas sínteses configuram uma evolução do panorama geral.
A Bossa Nova foi uma síntese que resolvia os problemas de criação na área da MPB. A
Tropicália não desenvolveu as conquistas harmônicas ou rítmicas da Bossa Nova. Ela
criou novas sínteses, em outros níveis, que apontaram para a solução dos problemas em
outro nível. E assim vai.
Por que a MPB tem mais presença e importância na vida brasileira do que outras artes
com feitos igualmente notáveis, como o cinema? Por que só a MPB conseguiu se
firmar e se manter na indústria cultural no Brasil?
Caetano: Cinema é muito caro e complicado de fazer. Música se faz com uma caixa
de fósforos na mão. E as multinacionais do disco cedo viram que tinham que comprar e
revender a produção local. As do cinema só agora se vêem pressionadas a participarem
-pouquíssimo- da produção de filmes brasileiros.
Você fez recentemente novas canções em que música e política se relacionam de
maneira bastante explícita, como em Haiti e Fora da Ordem, por
exemplo. Como vê hoje os agitos e as ações da música na política (e vice-versa)?
Caetano: Fui um notório inimigo da canção de protesto dos anos 60. Ou melhor:
seus cultores foram inimigos do tropicalismo, que protagonizei. Mas eu amava Maria
Moita, Disparada ou Carcará. Haiti, Fora
da Ordem, sim. E Gente!
Mas no outro dia eu estava conversando com alguém que descrevia um show dos Van Van, em
Cuba, onde dezenas de milhares de pessoas dançavam -e dançavam bem!- em larga praça
pública. Essa pessoa deplorava que shows assim, no Brasil, de samba, com grandes
multidões sabendo dançar virtuosisticamente, era algo que não havia, ou tinha se
perdido.
Eu comentei: é que você nunca viu um show do Tchan, na Bahia, no Clube Espanhol. De
fato, considero um fato político importante que dezenas de milhares de jovens se
reunissem para dançar samba divinamente bem, ao som de uma cozinha rítmica
que representava o ouro da tradição e o descaramento do comércio. Tudo isso comandado
por uma loura oxigenada.
Em todas as canções que faço e ouço, busco a pergunta: devemos dizer a
Revolução Cubana ou a ditadura de Castro? Não tenho a resposta.
Como anda o atual rock internacional? Por exemplo, o Sepultura (caso brasileiro) ou os
Strokes (que têm um músico brasileiro)?
Caetano: Não sei. Gosto muito do Sepultura. O baterista é estupendo. E o Max
cantava divinamente. O último disco de rock que achei muito, muito bonito, foi o
Nevermind, do Nirvana.
O que você acha da música tecno e suas várias correntes?
Caetano: Gosto. Gosto das quebradas do drum'n'bass; adoro o Aphex Twin; gosto de
ouvir o que toca em clubes noturnos e de não saber que nome dão àquele estilo: house?,
acid house?, techo?, trip-hop? Gosto do Portishead. Gosto muito de um alemão que vive no
Chile que muda de nome: Mister Coconut é um desses nomes. Ele fez um lance caribenho com
as gravações do Kraftwerk que é espetacular. Ele fez um remix de uma das faixas do
disco do Moreno que é divino.
Você pode falar um pouco do Moby, que é hoje um fenômeno?
Caetano: Sim. Gostei de Play. Moby é
mais pop. Não é um Aphex Twin.
Certa vez, em resposta a algo que Cacá Diegues lhe escrevera sobre Noites do
Norte, você disse: Como será bom o dia em que não precisemos pensar tanto
no Brasil para fazer um simples disco, um simples filme, para divertir e intrigar as
pessoas. Que história é essa?
Caetano: Eu estava cansado de ver que cada filme, cada disco, queria
repensar o Brasil. É chato. É subdesenvolvido. Há mais de dez anos que
penso em sair radicalmente dessa.
Noites do Norte, por causa do texto de Joaquim Nabuco, terminou sendo mais
assim do que quase tudo o mais. Talvez ainda não tenha chegado o tempo de eu me livrar
(de nós nos livrarmos) disso. Mas minha impaciência é um sinal de que nos livraremos,
como nos livramos das buzinas dos ônibus urbanos. E como nos livraremos dos motoristas
que furam o sinal vermelho.
Como você vê as cobranças que lhe são feitas, mais recentes, de não manter a
revolução permanente lançada pela Tropicália, justamente capitaneada por você? É
audível sua veia inventiva nos discos recentes, com uma ou outra faixa mais ostensiva no
plano da "invenção" (uso o termo no sentido da classificação poundiana)...
Caetano: No capítulo Araçá Azul do livro Verdade
Tropical eu encaro essa questão de modo quase exaustivo. Gostaria de sugerir que
vocês lessem (ou relessem) esse capítulo daquele livro.
Aqui, agora, só posso lhe dizer que não considero que minha veia inventiva
se manifeste exclusivamente, nem mesmo preferencialmente, nas peças mais ostensivamente
experimentais.
Se há alguma revolução permanente iniciada com a Tropicália, ela deve reencontrar-se
na ode ao Tchan, na revisitação das babas hispano-americanas, em Doideca, na
coda de Cantiga de Boi e na vendagem de um milhão de CDs com a gravação de
Sozinho.
Se supusermos que a MPB é um (entre outros) desfecho do projeto modernista e que a
Bossa Nova e a Tropicália são momentos máximos desse trajeto na esfera popular, por que
a Bossa Nova teve reconhecimento internacional quase imediato e a Tropicália esperou
quase 30 anos para arrebatar o público estrangeiro, a partir do circuito culto de Nova
York?
Caetano: A Bossa Nova apresentou uma estilização definida e reconhecível,
enquanto a Tropicália era uma guerrilha com fronts variados. É compreensível que aquela
tenha encontrado sucesso internacional quase imediato, e esta tenha vindo a se tornar
motivo de discussão e perplexidade entre grupos de vanguarda no mundo só no final dos
anos 90.
Não devemos esquecer que Milton Nascimento, com uma estilização muito própria e muito
complexa, se impôs internacionalmente de maneira totalmente imediata. E isso ocorreu
entre o boom da Bossa e o tardio espanto da Tropicália.
A MPB representou alguma utopia nacional coletiva que não se cumpriu? Ela, como
projeto cultural, teria acabado ou perdido sentido?
Caetano: O samba ainda vai nascer / O samba ainda não chegou.
[Carlos Adriano é mestre em cinema pela USP e
realizador dos filmes A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha (placa de ouro de
melhor documentário no Festival de Chicago) e Remanescências
(aquisição/coleção The New York Public Library), entre outros.] (© Trópico)
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