Notícias
 A revolução permanente de Caetano

24/07/2002

 

 

  

por Carlos Adriano

Compositor diz que trabalha "para as massas" e que a Tropicália desagua na "ode ao Tchan"

   Para Caetano Veloso, as rotações da revolução tropicalista ainda não pararam e desaguam tanto na delongada coda de “Cantiga de Boi” como nas vendas astronômicas de “Sozinho”.

   “Se há alguma revolução permanente iniciada com a Tropicália, ela deve reencontrar-se na ode ao Tchan, na revisitação das babas hispano-americanas, em ‘Doideca’, na coda de ‘Cantiga de Boi’ e na vendagem de um milhão de CDs com a gravação de ‘Sozinho’”, diz o compositor e cantor nesta entrevista, concedida entre uma turnê pela América Latina e outra pela Europa.

   Mais do que provocante, o argumento é coerente com o trajeto e o processo do inquieto artista, que segue caminhando contra o vento da bandeira previsível.

   Caetano Veloso lançou-se no terreno minado e movediço da música popular brasileira empenhado numa tradição de ruptura. As bases de seu projeto de ponta foram arquitetadas com solidez sensível e consistência conceitual.

   “Só a retomada da linha evolutiva (da MPB) pode nos dar uma organicidade para selecionar e ter um julgamento de criação”, formulou em seu histórico depoimento à enquete da “Revista Civilização Brasileira”, de maio de 1966.

   Outras intervenções históricas estariam por vir, como o manifesto-desagravo de “É Proibido Proibir” (1968), culminando no movimento revolucionário da Tropicália, levado a cabo e risco por Caetano, Tom Zé, Mutantes, Gilberto Gil, Rogério Duprat e outros.

   Quase 40 anos depois, devidamente entronizado e cultuado no cancioneiro-cânone da nação, seu cinema transcendental não saiu de cartaz, e continua a despertar encanto e polêmica.

   Ultimamente, Caetano tem sido alvo de cobranças, por não seguir -segundo alguns- a revolução permanente que ele mesmo instaurou na MPB a partir da Tropicália, “diluindo-se” nas vagas do mercado.

   No entanto, Caetano não largou o legado da aventura tropicalista, mantendo sim o arco teso da invenção no ambiente médio (e carente de medula) da canção popular no país da geléia geral.

   A intempérie de ressalvas parece ignorar o próprio processo em que o texto musical se arranja na trajetória de um autor (e em seu contexto histórico) e não perceber que -no caso específico deste artista- todos seus discos têm altos momentos de criação e exigência estética radicais, além das canções que são belas canções e das reinterpretações que são belas interpretações (e são verdadeiro oásis, mesmo que circunscritas à mera aferição do simples consumo).

   A música de Caetano pode até estar no jogo do mercado, mas não se submete à sua receita estreita. A todo lance, subverte as regras do jogo e curto-circuita o sistema viciado com o imprevisto da exceção, como nas anamorfoses de “Zera a Reza” e “Cantiga de Boi” (“Noites do Norte”) e nas atonais “Livros” e “Doideca” e no diapasão ruidista de "Ela Ela" ("Circuladô") calibrado por "Araçá Azul".

   As recriações de “Jokerman” e “Fina Estampa” reverberam os Beatles de “Jóia” e “Qualquer Coisa”. As composições a partir de poesia são denominador comum da poética musical do compositor: de “Cobra Coral” e “O Navio Negreiro” a “Pulsar” e “Circuladô de Fulô” e “Escapulário” e “Gil Engendra”.

   Isso, para não falar de discos diferentes, em natureza e propósito, mas uníssonos no escândalo estético: “Tropicália 2” e “Ommagio a Federico e Giulietta“ (este, um dos mais belos “filmusicais” jamais feitos no Brasil).

   Caetano tem consciência de sua posição paradoxal: é entusiasta das vanguardas mas faz música para as massas, preferindo eleger o signo do oxímoro e não do óxido, sem arredar do caminho que vai seguindo pois é seu contra-caminho. “Trabalho para as massas”, afirma na entrevista a seguir, onde também avalia a MPB atual e comenta sobre as perspectivas estéticas da música no livre mundo multicultural acossado pela mundialização predatória.

Que avaliação você faz da atual situação da música popular brasileira, no compasso propriamente musical? O que está ouvindo de contemporâneo que lhe tocou?

Caetano Veloso: Sou sempre otimista em relação à música popular do Brasil. Estamos ainda metabolizando a informação nova vinda das favelas e liderada pelos paulistanos Racionais MCs. Mal ouvimos a experiência pernambucana do Nação Zumbi. Os fenômenos de mercado “axé”, “pagode” e “sertanejo” -e o fenômeno de mercado informal do funk carioca- foram demonstrações de vitalidade onde muitas linhas mestras da tradição foram regeneradas.

O disco “Bloco do Eu Sozinho”, do Los Hermanos, é requintadamente inventivo. O disco “Máquina de Escrever Música”, de Moreno+2, é personalíssimo e refinadíssimo. O disco do Arnaldo Antunes produzido por Carlinhos Brown e Alê Cerqueira é luminoso. O de Elza Soares, por Zé Miguel Wisnik e o mesmo Alê, é um marco histórico, pois revela e eleva a grandeza musical da cantora do modo como se deveria fazer com muitos outros nomes da história viva do samba.

O show de Tom Zé, nascido do seu interessantíssimo disco “Jogos de Armar”, é uma peça de primeira linha. O show de Mart'nália (a que assisti ontem, 12 de junho, no Rio) é o extremo luxo da cultura popular brasileira exposto com a mais desarmante espontaneidade: algo que eu gostaria de mostrar aos meus amigos de Madri, Paris, Nova York... O disco de Max de Castro (“Samba Raro”) é bonito e ousado, um verdadeiro manifesto sobre gosto e estilo. Enfim, o compasso é assim: acelerado. E isso é só um trecho da cantiga.

E na pauta da relação da música com o mercado e o público?

Caetano: Já respondi em parte, ao comentar sobre “axé”, “pagode” e “sertanejo” na resposta anterior. Posso acrescentar que sou amigo de poetas que gostam de citar um poeta que diz que a regra é um mau poeta ser aplaudido, um bom poeta ser ignorado, um grande poeta, odiado, um deus, crucificado. E, no entanto, trabalho para as massas e adoro alguns “poetas” louvados pelas massas.

Na sua opinião, quais as linhas de força e quais os laços de falha da MPB hoje?

Caetano: A força está na teimosia dos criadores de música popular. A falha, na capitulação cíclica de todos -músicos, críticos, público- à nossa incompetência histórica, que um dia o poeta chamou de “cósmica”.

Num exercício hipotético (e sem excluir-se da história), você poderia traçar a “linha evolutiva” necessária para a MPB de agora e de amanhã?

Caetano: Essa história de linha evolutiva mereceria uma discussão alongada. Antônio Cícero escreveu algo muito relevante sobre o assunto, algo que infelizmente não tenho aqui à mão. Mas deve ficar claro que não vejo, nunca vi, uma linha contínua de evolução uniforme.

A música popular vive de sínteses (acho que aqui ecôo algo do texto de Cícero). O que me interessa é como essas sínteses configuram uma evolução do panorama geral.

A Bossa Nova foi uma síntese que resolvia os problemas de criação na área da MPB. A Tropicália não desenvolveu as conquistas harmônicas ou rítmicas da Bossa Nova. Ela criou novas sínteses, em outros níveis, que apontaram para a solução dos problemas em outro nível. E assim vai.

Por que a MPB tem mais presença e importância na vida brasileira do que outras artes com feitos igualmente notáveis, como o cinema? Por que “só” a MPB conseguiu se firmar e se manter na indústria cultural no Brasil?

Caetano: Cinema é muito caro e complicado de fazer. Música se faz com uma caixa de fósforos na mão. E as multinacionais do disco cedo viram que tinham que comprar e revender a produção local. As do cinema só agora se vêem pressionadas a participarem -pouquíssimo- da produção de filmes brasileiros.

Você fez recentemente novas canções em que música e política se relacionam de maneira bastante explícita, como em “Haiti” e “Fora da Ordem”, por exemplo. Como vê hoje os agitos e as ações da música na política (e vice-versa)?

Caetano: Fui um notório inimigo da canção de protesto dos anos 60. Ou melhor: seus cultores foram inimigos do tropicalismo, que protagonizei. Mas eu amava “Maria Moita”, “Disparada” ou “Carcará”. “Haiti”, “Fora da Ordem”, sim. E “Gente”!

Mas no outro dia eu estava conversando com alguém que descrevia um show dos Van Van, em Cuba, onde dezenas de milhares de pessoas dançavam -e dançavam bem!- em larga praça pública. Essa pessoa deplorava que shows assim, no Brasil, de samba, com grandes multidões sabendo dançar virtuosisticamente, era algo que não havia, ou tinha se perdido.

Eu comentei: é que você nunca viu um show do Tchan, na Bahia, no Clube Espanhol. De fato, considero um fato político importante que dezenas de milhares de jovens se reunissem para dançar samba divinamente bem, ao som de uma “cozinha” rítmica que representava o ouro da tradição e o descaramento do comércio. Tudo isso comandado por uma loura oxigenada.

Em todas as canções que faço e ouço, busco a pergunta: devemos dizer “a Revolução Cubana” ou “a ditadura de Castro”? Não tenho a resposta.

Como anda o atual rock internacional? Por exemplo, o Sepultura (caso brasileiro) ou os Strokes (que têm um músico brasileiro)?

Caetano: Não sei. Gosto muito do Sepultura. O baterista é estupendo. E o Max cantava divinamente. O último disco de rock que achei muito, muito bonito, foi o “Nevermind”, do Nirvana.

O que você acha da música tecno e suas várias correntes?

Caetano: Gosto. Gosto das quebradas do drum'n'bass; adoro o Aphex Twin; gosto de ouvir o que toca em clubes noturnos e de não saber que nome dão àquele estilo: house?, acid house?, techo?, trip-hop? Gosto do Portishead. Gosto muito de um alemão que vive no Chile que muda de nome: Mister Coconut é um desses nomes. Ele fez um lance caribenho com as gravações do Kraftwerk que é espetacular. Ele fez um remix de uma das faixas do disco do Moreno que é divino.

Você pode falar um pouco do Moby, que é hoje um fenômeno?

Caetano: Sim. Gostei de “Play”. Moby é mais pop. Não é um Aphex Twin.

Certa vez, em resposta a algo que Cacá Diegues lhe escrevera sobre “Noites do Norte”, você disse: “Como será bom o dia em que não precisemos pensar tanto no Brasil para fazer um simples disco, um simples filme, para divertir e intrigar as pessoas”. Que história é essa?

Caetano: Eu estava cansado de ver que cada filme, cada disco, queria “repensar” o Brasil. É chato. É subdesenvolvido. Há mais de dez anos que penso em sair radicalmente dessa.

“Noites do Norte”, por causa do texto de Joaquim Nabuco, terminou sendo mais assim do que quase tudo o mais. Talvez ainda não tenha chegado o tempo de eu me livrar (de nós nos livrarmos) disso. Mas minha impaciência é um sinal de que nos livraremos, como nos livramos das buzinas dos ônibus urbanos. E como nos livraremos dos motoristas que furam o sinal vermelho.

Como você vê as cobranças que lhe são feitas, mais recentes, de não manter a revolução permanente lançada pela Tropicália, justamente capitaneada por você? É audível sua veia inventiva nos discos recentes, com uma ou outra faixa mais ostensiva no plano da "invenção" (uso o termo no sentido da classificação poundiana)...

Caetano: No capítulo “Araçá Azul” do livro “Verdade Tropical” eu encaro essa questão de modo quase exaustivo. Gostaria de sugerir que vocês lessem (ou relessem) esse capítulo daquele livro.

Aqui, agora, só posso lhe dizer que não considero que minha “veia inventiva” se manifeste exclusivamente, nem mesmo preferencialmente, nas peças mais ostensivamente “experimentais”.

Se há alguma revolução permanente iniciada com a Tropicália, ela deve reencontrar-se na ode ao Tchan, na revisitação das babas hispano-americanas, em “Doideca”, na coda de “Cantiga de Boi” e na vendagem de um milhão de CDs com a gravação de “Sozinho”.

Se supusermos que a MPB é um (entre outros) desfecho do projeto modernista e que a Bossa Nova e a Tropicália são momentos máximos desse trajeto na esfera popular, por que a Bossa Nova teve reconhecimento internacional quase imediato e a Tropicália esperou quase 30 anos para arrebatar o público estrangeiro, a partir do circuito culto de Nova York?

Caetano: A Bossa Nova apresentou uma estilização definida e reconhecível, enquanto a Tropicália era uma guerrilha com fronts variados. É compreensível que aquela tenha encontrado sucesso internacional quase imediato, e esta tenha vindo a se tornar motivo de discussão e perplexidade entre grupos de vanguarda no mundo só no final dos anos 90.

Não devemos esquecer que Milton Nascimento, com uma estilização muito própria e muito complexa, se impôs internacionalmente de maneira totalmente imediata. E isso ocorreu entre o boom da Bossa e o tardio espanto da Tropicália.

A MPB representou alguma utopia nacional coletiva que não se cumpriu? Ela, como “projeto cultural”, teria acabado ou perdido sentido?

Caetano: “O samba ainda vai nascer / O samba ainda não chegou”.

[Carlos Adriano é mestre em cinema pela USP e realizador dos filmes “A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha” (placa de ouro de melhor documentário no Festival de Chicago) e “Remanescências” (aquisição/coleção The New York Public Library), entre outros.] (© Trópico)

 

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind