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Aos 70 anos, Severino José ganha edição compilada de seus versos
LÚCIA VALENTIM RODRIGUES
DA REDAÇÃO
Os 1.160 apartamentos do edifício Copan, no centro vivo de São Paulo,
escondem um poeta. "Poeta, não", ele logo retruca. "O meu trabalho sempre
foi mais de divulgação da cultura popular nordestina do que poesia mesmo", explica
Severino José, 70.
Agora, ele ganha uma reunião de seus principais versos, desde a
adaptação de "A Divina Comédia", de Dante Alighieri, até as das fábulas de
Esopo (leia trechos ao lado). Esse é o primeiro grande projeto da jovem editora Hedra,
criada em 99. "A idéia surgiu porque queríamos fazer uma compilação de textos de
Patativa do Assaré", diz a editora Cláudia Pinheiro. "Acabou crescendo e
abarcando um mapeamento de 50 escritores." Já foram lançados 11 livretos e outros
três estão prometidos para o segundo semestre.
O poeta Severino José nem sempre foi assim. Nasceu Zacarias José dos
Santos em 5 de março de 1932, no município então chamado de Marcação (hoje General
Augusto Maynard), no interior de Sergipe. Trocou de nome por influência da obra-prima de
João Cabral de Melo Neto: "Morte e Vida Severina". "No livro, Severino é
o povo e Zacarias, o dono da sesmaria. Então mudei, mas ainda gosto de ser chamado de
Zacarias. Uso o outro só para escrever", diz.
Desde criança conviveu com a rima. Com ela, por exemplo, foi
alfabetizado: "Dona Menininha era a professora, na zona rural de Sergipe. Era comum
ensinar na base da cantoria. Todo mundo ia para a escola cantando para decorar a tabuada e
o alfabeto".
Continuando os estudos, foi para a capital, Aracaju, fazer o colegial
científico. "Depois vim para São Paulo, em 53, mas foi bobagem de adolescente. O
que eu queria mesmo era fugir da sombra do velho. Não queria ser comerciante como o meu
pai."
Escreveu o primeiro cordel, "A Grande Paixão de Carlos Magno pela
Princesa do Anel Encantado", em 77. "Tentei ser médico, não deu certo. Acabei
trabalhando numa repartição pública", diz.
Como o trabalho não lhe satisfazia, prestou vestibular para direito.
Passou e cursou, mas o coração ainda era de poeta. Aproximando-se do Sindicato dos
Trabalhadores das Indústrias de Construção Civil, vieram as primeiras encomendas.
"Queriam que fizesse uma campanha de prevenção de acidentes. Inventei que seria em
cordel, por já ser parte do repertório do trabalhador nordestino. Isso facilitava a
empreitada de atingir aquela gente, que era na maioria analfabeta."
"Sempre foi meu destino levar o que eu sabia para o povão. Só fiz
15 folhetos, mas pus todo o meu conhecimento lá. Foi daí que veio a idéia de adaptar
fábulas e clássico. Acho que foi muita ousadia de minha parte verter o Dante para o
cordel, acha não?", pergunta, para ele mesmo responder em seguida: "Nunca
cheguei a terminar de lê-lo. Vai ser meu desafio agora".
Ele diz que sua versão de "A Divina Comédia" é "subversiva". E ri:
"Botei lá Jânio Quadros, Adhemar de Barros, todos no inferno".
O poeta se mudou para o Copan em 63. "Um dia fui descobrir que havia
apenas duas pessoas que o Dops [Departamento de Ordem Política e Social" procurava
no Copan. Plínio Marcos e eu. Isso só porque eu vendia, na praça da República,
gravuras de personalidades, entre elas, a do Che Guevara."
Do "Maldito", se lembra bem: "Conheci muito o Plínio. A gente batia ponto
na mesma livraria, toda tarde. O Tinhorão também. Ficava aquela gente toda contando
lorotas. Eu não, como sou muito tímido, só ficava ouvindo. Só às vezes me metia a
contar lorotas".
Com uma "coleção modesta" de 10 mil cordéis, o poeta sempre
se preocupou em difundir a cultura nordestina. Por 15 anos vendeu cordel na República.
"Na praça e na corda, como tem de ser."
"No Nordeste é comum reunir o pessoal para contar e ouvir
histórias, pela narrativa oral se preservou muita coisa. Mas é que nem Hollywood, tem
sempre um final feliz, porque até a estética popular obedece a uma certa psicologia.
Chegaram a mudar o final de "Romeu e Julieta", de Shakespeare!"
E filosofa: "Repare só, não se pode deixar os neurônios se acomodarem. Após o
derrame [sofrido em 94", perdi o ritmo. Mas ganhei tempo para ler, para não
embrutecer, não emburrecer".
"O Brasil está sendo recolonizado pelos modismos dos EUA. Sou um
resistente, faço com raiva, porque só tenho isso: o cordel." E arremata com a saga
da vida severina: "Quem gosta de algo que não vai dar dinheiro, como o cordel, sabe
que vai sofrer. Eu sofri. Está na hora de passar o bastão".
SEVERINO JOSÉ - reunião de cordéis de Severino José, com
seleção e prefácio de Luiz de Assis Monteiro. Editora: Hedra. Quanto: R$ 12 (176
págs.).
(© Folha de S.
Paulo)
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