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Todo Dia É Dia D reúne 14
faixas com os maiores sucessos do poeta, compositor e crítico tropicalista piauiense (que
se matou há 30 anos), em faixas gravadas por Elis, Nara, Gil, Caetano, Nana, Bethânia,
Gal, Luiz Melodia e Jards Macalé
por JOSÉ TELES
Pra mim chega foi a frase mais incisiva no bilhete que
Torquato Neto deixou quando se suicidou, no dia seguinte ao seu 28º aniversário, em 10
de novembro de 1972. Jornalista, poeta, letrista, ele legou uma pequena mas consistente
obra. Falando-se nele vem à mente o engenhoso poeta do tropicalismo, mas o piauisense
Torquato Pereira de Araújo Neto começou a fazer letra antes da Tropicália. Culto,
poliglota, fazia de sua máquina de escrever uma arma de grosso calibre nas colunas que
manteve em vários jornais cariocas. A mais badaladas delas, publicada no Última Hora
(RJ), chamava-se Geléia Geral.
Como poeta não foi genial, mas é superior a muitos que sua geração
consagrou. Como letrista em alguns casos alcançou a perfeição. A letra que fez para Geléia
Geral, musicada por Gilberto Gil é a melhor tradução do tropicalismo (Um
poeta desfolha a bandeira/ E a manhã tropical se inicia). Esta e outras parcerias
foram compiladas pelo também letrista Ronaldo Bastos, que lançou pelo seu selo, o Dubas,
o disco Todo Dia É Dia D. Não chega a ser o inventário completo da obra musical
de Torquato Neto, mas é um apanhado do melhor que ele fez entre 1966 e 1972, a maior
parte escrita até 68.
Seu primeiro parceiro foi exatamente um ferrenho crítico do tropicalismo,
Edu Lobo. Com ele compôs, em 1966, Veleiro, gravada por Elis Regina, no LP Elis,
daquele ano. Também fariam a clássica Pra dizer adeus e a pouco conhecida Lua
nova, ambas gravadas pelo próprio Edu Lobo, no álbum Edu e Bethânia, de
1967. Seus parceiros mais constantes foram os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso. Com
Gil, Todo Dia É Dia D traz seis composições, das quais apenas a que dá nome ao
disco estava praticamente no ineditismo. Ela saiu num compacto simples, que vinha como
brinde da primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria, antologia dos
escritos de Torquato Neto (no lado B, Gal Costa canta a música Três da madrugada,
parceria com Carlos Pinto).
As parcerias chegam até 1998, quando Gil musicou a letra inédita Cantiga,
gravada por Nana Caymmi. Um ano antes, Luiz Melodia havia musicado Começar pelo
Recomeço. A derradeira parceria que Torquato fez em vida foi a de Lets play
that, com o então badalado Jards Macalé. Ao todo o CD traz 14 faixas, todas em
gravações originais, com uma detalhada ficha técnica de cada.
Inestimável serviço à combalida memória cultural brasileira, o disco
poderia reunir todas as músicas letradas por Torquato Neto. Ficaram de fora Nenhuma
dor, Ai de mim Copacabana, Deus vos salve a casa santa (com
Caetano), Marginália II, Zabelê, Domingou (com Gil). Poderia ainda
entrar a parceria não concluída com Geraldo Azevedo, que se tornou amigo de Torquato
Neto pouco antes de sua morte, e tem até hoje uma letra dele inédita, não musicada.
Disco Todo Dia É Dia D. Preço médio: R$ 24
(© Jornal do Commercio)
Geléia
Tropicalista
Naná (Vasconcelos), da tumbadora, transando alto em NY. Tocou com
Zappa num concerto, badalou bastante com Miles Davis e está gravando com Santana
(8/9/71)
Pessoal Intransferível Escute, meu chapa: um poeta
não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o
perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores. É destruir a linguagem e
explodir com ela...E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve
um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que
seja o boi. Adeusão (14/9/71)
Geraldo Azevedo, tremendo violonista e compositor (pernambucano),
transando gravação de um elepê por aí. Deve pintar na fábrica Copacabana e tomara que
pinte muito legal mesmo: o cara é bom demais e nós merecemos coisas boas.
Merecemos? (28/10/71)
Abaixo a psiquiatria dos salões e dos hospícios. A psiquiatria é
repressiva,consultem isso e curtam... Um amigo meu encontrou na Rio Bahia que
dizia: não me sigam, não sou novela. Não me acompanhem que eu não sou novela. É cada
um por si e Deus por todos nós (2/11/71)
Asfixia E já que o tom é esse mesmo, continuo perguntando:
o que é que asfixia a música popular brasileira, além da indústria fonográfica
obedientíssima, além do medo?... Mas o que é que é isso? Liguem o rádio e escutem o
que está sendo estimulado: vôos rasteiros, repetição e retardamento geral,
mediocridade e medo de criar (5/11/71)
Tenho pra mim que tudo é certo & errado, tudo é Deus e o
Diabo, tudo é perigoso. Quem vê do lado de dentro pode sacar: a única divina
companheira é a destruição. Construção em geral. Hoje é sempre, amizade
(22/1/72)
Até que não me queiram mais calado embora eu nunca fique como me
adoravam, sabe? Até que a morte me separe e reintegre após transações heurísticas,
sabe? Até que tudo igual a nada igual à poeira da ossada, sabe? Até que, um dia, enfim!
(25/2/72)
Eu sou como sou/Vidente/ e vivo tranqüilamente/ Todas as horas do
fim (do poema Cogito)
(© Jornal do Commercio) |
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