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Pesquisa feita pelo
arquiteto José Luiz Mota Menezes revela que 80% do parcelamento urbano do bairro de Santo
Antonio é herança holandesa do século 17, caracterizada por lotes e prédios estreitos
por CLEIDE ALVES
Em meio a uma vasta programação festiva para celebrar os 400 anos de
nascimento do governador do Brasil holandês, João Maurício de Nassau, mais um capítulo
da presença flamenga no Recife é resgatado. Pesquisa feita pelo arquiteto José Luiz
Mota Menezes revela que 80% do parcelamento urbano do bairro de Santo Antônio, no Centro,
é herança holandesa do século 17.
As fachadas das casas sofreram mudanças, o que é natural com o
crescimento da cidade, mas os lotes estreitos e os prédios magros, típicos da ocupação
holandesa ainda existem, assegura o pesquisador. Ou seja, além do plano
urbanístico elaborado a pedido de Maurício de Nassau, o parcelamento que resultou na
construção dos prédios em Santo Antônio também é holandês.
Os vestígios da intervenção urbana promovida por Nassau ainda podem ser
vistos nas Ruas Diário de Pernambuco, Duque de Caxias, 1º de Março e do Imperador,
entre outras. São alguns lotes e poucas ruas que não foram destruídas pela
reforma do Porto do do Recife, diz o arquiteto, especialista em evolução urbana.
Maurício de Nassau governou o território entre 1637 a 1645, mas a
dominação flamenga em Pernambuco durou 24 anos (1630-1654). José Luiz Menezes ressalta
que, nesses oito anos, Nassau sempre se preocupou com a questão urbana e mudou a
fisionomia do povoado do Recife, que não passava de um amontoado de casas, sem
ordenamento.
José Luiz procurou, nesse trecho da cidade, edificações que ainda
guardavam características arquitetônicas do século 18 ou 17. Professor da
Pós-Graduação em História da UFPE e presidente do Instituto Arqueológico, Histórico
e Geográfico Pernambucano, ele crê que nos quintais, aterros e paredes das casas,
restaram vestígios materiais indiscutíveis da presença holandesa.
A sinagoga restaurada no Bairro do Recife é um exemplo. Na
escavação feita no imóvel, o arqueólogo da UFPE Marcos Albuquerque encontrou piso e
parede do século 17 e a micvê usada no ritual judeu de purificação, no período
holandês, declara. Ele sugere uma análise mais cuidadosa dessas edificações,
quando elas sofressem qualquer mudança interna. Valeria a pena um mapeamento dos
lugares, com a demarcação do prédios, para facilitar futuros estudos arqueológicos.
No caso da Rua do Imperador, entre o prédio do JC e o do Bradesco,
as construções seriam de origem portuguesa, anteriores à presença flamenga. José Luiz
já havia identificado o traçado urbano holandês no bairro de São José, três anos
atrás. As ruas são as mesmas, mas não posso afirmar se os lotes são holandeses.
Ele observa, porém, que os imóveis do Pátio do Ribamar, no bairro de
São José, lembram, na dimensão do lote, a idéia de Nassau de construir casas pequenas
para a população menos favorecida. (©
Jornal do Commercio)
Inventário
ajuda pesquisa
Arquiteto confrontou informações contidas no livro com mapas e documentos da época para
concluir a pesquisa
Quando os holandeses chegaram ao
Recife, no século 17, encontraram casas já construídas e terrenos vazios, de
particulares e do Governo, que foram confiscados. Com a Restauração Pernambucana
(expulsão dos flamengos pelos lusos-brasileiros em 1654), teve início um inventário de
apetrechos bélicos e dos prédios que eles foram obrigados a deixar.
Esse documento, elaborado pelo escrivão da Fazenda Real Francisco de
Misquita, foi o ponto de partida para a pesquisa do arquiteto José Luiz Mota Menezes e
que resultou na identificação do parcelamento urbano holandês no bairro de Santo
Antônio. Com o inventário na mão, o pesquisador confrontou as informações com mapas
(Atlas Histórico Cartográfico do Recife, que ele mesmo organizou) e documentos da
época.
Após a saída dos holandeses, havia a necessidade de se saber quem
eram os donos dos imóveis antes de 1630, para fazer a devolução, por isso a Fazenda
Real solicitou o levantamento, diz José Luiz. No inventário, que faz parte do
acervo de livros raros do Instituto Arqueológico, o escrivão não identifica as ruas
pelas denominações holandesas.
Francisco de Misquita se reporta a ruas onde moravam judeus, que levam
ponte, perto da Igreja do Corpo Santo ou que levam às portas da cidade. Como o
inventário é de difícil decodificação em termos dos reais lugares dos prédios
arrolados, fiz uma reavaliação com ajuda da cartografia histórica e do percurso do
inventariante, à luz do urbanismo holandês.
José Luiz acrescenta que, com o estudo, será possível identificar as
casas do Recife holandês e os proprietários lusos-brasileiros anteriores à ocupação
flamenga, além dos judeus que construíram casas na cidade. O escrivão descreveu cada
casa inventariada: se era construção portuguesa, portuguesa com adaptação flamenga,
flamenga ou edificada por judeus.
Diante disso, podemos afirmar, com bases científicas, que uma
francesa, talvez mulher da vida, chamada Ana de Ferro, morava num sobradinho, ainda
existente no século 19, no lugar onde hoje está o arranha-céu da Praça da
Independência, na esquina da Rua Duque de Caxias.
(© Jornal do Commercio) |
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