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 Bairro recifense tem influência flamenga

24/07/2002

 

 

  

Pesquisa feita pelo arquiteto José Luiz Mota Menezes revela que 80% do parcelamento urbano do bairro de Santo Antonio é herança holandesa do século 17, caracterizada por lotes e prédios estreitos

por CLEIDE ALVES

   Em meio a uma vasta programação festiva para celebrar os 400 anos de nascimento do governador do Brasil holandês, João Maurício de Nassau, mais um capítulo da presença flamenga no Recife é resgatado. Pesquisa feita pelo arquiteto José Luiz Mota Menezes revela que 80% do parcelamento urbano do bairro de Santo Antônio, no Centro, é herança holandesa do século 17.

   “As fachadas das casas sofreram mudanças, o que é natural com o crescimento da cidade, mas os lotes estreitos e os prédios magros, típicos da ocupação holandesa ainda existem”, assegura o pesquisador. Ou seja, além do plano urbanístico elaborado a pedido de Maurício de Nassau, o parcelamento que resultou na construção dos prédios em Santo Antônio também é holandês.

   Os vestígios da intervenção urbana promovida por Nassau ainda podem ser vistos nas Ruas Diário de Pernambuco, Duque de Caxias, 1º de Março e do Imperador, entre outras. “São alguns lotes e poucas ruas que não foram destruídas pela reforma do Porto do do Recife”, diz o arquiteto, especialista em evolução urbana.

   Maurício de Nassau governou o território entre 1637 a 1645, mas a dominação flamenga em Pernambuco durou 24 anos (1630-1654). José Luiz Menezes ressalta que, nesses oito anos, Nassau sempre se preocupou com a questão urbana e mudou a fisionomia do povoado do Recife, que não passava de um amontoado de casas, sem ordenamento.

   José Luiz procurou, nesse trecho da cidade, edificações que ainda guardavam características arquitetônicas do século 18 ou 17. Professor da Pós-Graduação em História da UFPE e presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, ele crê que nos quintais, aterros e paredes das casas, restaram vestígios materiais indiscutíveis da presença holandesa.

   “A sinagoga restaurada no Bairro do Recife é um exemplo. Na escavação feita no imóvel, o arqueólogo da UFPE Marcos Albuquerque encontrou piso e parede do século 17 e a micvê usada no ritual judeu de purificação, no período holandês”, declara. Ele sugere uma análise mais cuidadosa dessas edificações, quando elas sofressem qualquer mudança interna. “Valeria a pena um mapeamento dos lugares, com a demarcação do prédios, para facilitar futuros estudos arqueológicos.”

   No caso da Rua do Imperador, entre o prédio do JC e o do Bradesco, as construções seriam de origem portuguesa, anteriores à presença flamenga. José Luiz já havia identificado o traçado urbano holandês no bairro de São José, três anos atrás. “As ruas são as mesmas, mas não posso afirmar se os lotes são holandeses.”

   Ele observa, porém, que os imóveis do Pátio do Ribamar, no bairro de São José, lembram, na dimensão do lote, a idéia de Nassau de construir casas pequenas para a população menos favorecida. (© Jornal do Commercio)

Inventário ajuda pesquisa

Arquiteto confrontou informações contidas no livro com mapas e documentos da época para concluir a pesquisa

   Quando os holandeses chegaram ao Recife, no século 17, encontraram casas já construídas e terrenos vazios, de particulares e do Governo, que foram confiscados. Com a Restauração Pernambucana (expulsão dos flamengos pelos lusos-brasileiros em 1654), teve início um inventário de apetrechos bélicos e dos prédios que eles foram obrigados a deixar.

   Esse documento, elaborado pelo escrivão da Fazenda Real Francisco de Misquita, foi o ponto de partida para a pesquisa do arquiteto José Luiz Mota Menezes e que resultou na identificação do parcelamento urbano holandês no bairro de Santo Antônio. Com o inventário na mão, o pesquisador confrontou as informações com mapas (Atlas Histórico Cartográfico do Recife, que ele mesmo organizou) e documentos da época.

   “Após a saída dos holandeses, havia a necessidade de se saber quem eram os donos dos imóveis antes de 1630, para fazer a devolução, por isso a Fazenda Real solicitou o levantamento”, diz José Luiz. No inventário, que faz parte do acervo de livros raros do Instituto Arqueológico, o escrivão não identifica as ruas pelas denominações holandesas.

   Francisco de Misquita se reporta a ruas onde moravam judeus, que levam ponte, perto da Igreja do Corpo Santo ou que levam às portas da cidade. “Como o inventário é de difícil decodificação em termos dos reais lugares dos prédios arrolados, fiz uma reavaliação com ajuda da cartografia histórica e do percurso do inventariante, à luz do urbanismo holandês.”

   José Luiz acrescenta que, com o estudo, será possível identificar as casas do Recife holandês e os proprietários lusos-brasileiros anteriores à ocupação flamenga, além dos judeus que construíram casas na cidade. O escrivão descreveu cada casa inventariada: se era construção portuguesa, portuguesa com adaptação flamenga, flamenga ou edificada por judeus.

   “Diante disso, podemos afirmar, com bases científicas, que uma francesa, talvez mulher da vida, chamada Ana de Ferro, morava num sobradinho, ainda existente no século 19, no lugar onde hoje está o arranha-céu da Praça da Independência, na esquina da Rua Duque de Caxias.”

(© Jornal do Commercio)

 

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