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 Henrique Annes, uma vida ao violão

24/07/2002

 

 

  

Apontado pelos principais especialistas da música instrumental popular do Brasil como ‘enciclopédia viva’ e herdeiro do melhor do virtuosismo do violão de Pernambuco, Henrique Annes completa este mês 56 anos de idade, 42 como profissional. Para comemorar, lança seu segundo álbum solo, Violão Pernambucano, pela gravadora Kuarup. Às vezes polêmico, ele afirma que não gosta de virtuosismo. “Você destrói um pouco a música. É uma coisa passageira. Você tem que tocar com o coração. Quando toca com sentimento, alma, isso fica. Nunca será esquecido.” De fato, mesmo que atualmente não tenha o reconhecimento que mereça, o violonista está escrevendo páginas importantes na música do País.

   O violonista e produtor Maurício Carrilho não poderia ser mais feliz ao afirmar no encarte do CD Violão Pernambucano que o solista Henrique Annes sintetiza a memória do que melhor foi composto para o instrumento neste Estado.

   No disco, que sai este mês pela gravadora Kuarup (www.kuarup.com.br, R$ 18), o músico resgata em suas composições o violão brejeiro de João Pernambuco, passando pela agilidade do Meira – que, no Rio de Janeiro, tornou-se mestre de violonistas como Baden Powell, Raphael Rabello, entre outros –, o romantismo e boêmia de Zé do Carmo, o lirismo de Canhoto da Paraíba (como o próprio nome diz, paraibano, mas que despontou para o Brasil ao fixar residência no Recife), para citar alguns dos mestres do instrumento.

   Henrique Annes também impõe o próprio estilo, decorrente da percepção que tem de seu tempo. O álbum abre com as quatro primeiras peças da série Caribeana. “A inspiração veio em 1986, quando fui convidado por Turíbio Santos para participar de um encontro mundial de guitarra na Martinica, no lugar de Raphael Rabello”, conta. “Lá, se você pega um táxi, o motorista está batendo na direção. Todo mundo tem ritmo.”

   A exemplo do célebre compositor Heitor Villa-Lobos, que fez 12 estudos para violão, Henrique quer fazer 12 Caribeanas. Já compôs oito, quatro das quais aparecem nesse CD.

   Outra característica marcante no disco são as homenagens que o autor presta na maioria das faixas. Entre choros e valsas, dedica Choro para Maurício Carrilho, como o próprio título define, Angelical à companheira de seis anos, Memórias de Elly Annes ao pai e incentivador, Sorrindo para Canhoto a um dos mestres, e Choro para Edson a um amigo.

   O jeito de compor, segundo Henrique, varia. De vez em quando, pensa num tema e desenvolve. “Às vezes, vem de forma automática, no carro. Quando chego em casa escrevo ou gravo”, conta.

   Para gravar, em casa ou no estúdio, utiliza seu inseparável violão José Ramirez, sem captação própria e, atualmente, com cordas de náilon Hannabach ‘Super High Tension’, de fabricação alemã. Quando precisa fazer um show num palco grande, a céu aberto, que exige melhor captação, pede um violão emprestado a um amigo.

   Curiosamente, Henrique revela que muito da sonoridade que extrai do instrumento está relacionada à forma como corta as próprias unhas. “Modifiquei minha unha e a forma de ataque. Devo isso ao meu professor norte-americano (John Sutherland que, por sua vez, foi aluno de ninguém menos que o mestre espanhol Andrés Segovia).”

   PARCERIA – Em Violão Pernambucano, Henrique Annes executa 12 faixas solo. As outras quatro, ele divide com um regional de primeira linha formado por Maurício Carrilho (violão), Luciana Rabello (cavaquinho) e Jorginho do Pandeiro.

   Em três das músicas, outros grandes nomes da História da música instrumental brasileira atuam como solistas: o bandolinista Joel Nascimento, na já citada Angelical, o flautista Altamiro Carrilho em Mesclado, e o clarinetista Paulo Sérgio Santos em Lembranças de Gravatá. Nessas, sempre acompanhado pelo regional, que atua também em Choro para Edson. Um artigo fino. (M.T.) (© Jornal do Commercio)


“Decepção é coisa do passado”

por MARCOS TOLEDO

   Henrique Annes: uma carreira de 42 anos e dois álbuns solos. É pouco para um artista que, prestes a completar, este mês, 56 anos de idade, é apontado como o principal herdeiro do virtuosismo histórico do violão pernambucano. Ocorre que, apesar do talento crescente ao longo de sua trajetória, o artista fez escolhas nem sempre compatíveis com a fluência de sua carreira. Por vezes, reconhece, decepcionou-se com a música. Mas atribui isso ao passado. Agora, com o lançamento de seu segundo CD solo, Violão Pernambucano, pelo principal selo de música instrumental do país – Kuarup – o violonista pretende dar maior dinamismo e repercussão a seu trabalho solo e à frente da Oficina de Cordas de Pernambuco.

   Conhecer Henrique Annes é perceber que tudo em seu dia a dia remete aos sons e à música, à qual se dedica com afinco, mesmo após tantos anos de experiência. O resto do tempo, além das obrigações pessoais, dedica ao trabalho no Conservatório Pernambucano de Música, à Oficina de Cordas e a seus projetos musicais.

   A prática do instrumento, garante, é diária, das 7h às 10h. “Quando passo dois dias sem pegar no instrumento estranho as pessoas, fico de mau humor”, conta. “Mas, para isso, tem que se gostar da música, do violão.” Na sala, em meio aos relógios de parede – que, vez por outra, misturam o badalar aos sons das cordas –, o artista monta sua estante de partitura defronte a uma das cadeiras da sala de jantar, tira do case robusto o violão espanhol José Ramirez (1980) e treina sua técnica peculiar.

   Henrique segue as lições tal qual um jovem aprendiz, e nos ensina: primeiro, é preciso saber pegar o violão. Ele fala da posição preferida por grandes nomes do instrumento, como Baden Powell, Raphael Rabello e Paulinho Tapajós, que apoiavam uma perna sobre a outra. O pernambucano prefere o ‘banquinho’ (um tipo de apoio) sob o pé esquerdo, que lhe dá mais precisão ao dedilhar.

   Em seguida, o violonista demostra a técnica. Treina acordes, escalas, arpégios e ligados. “Para ficar com a mão esquerda firme, com segurança”, explica. Só depois, estuda as partituras, seja para praticar as músicas, elaborar arranjos ou compor – para que, comenta, tem muita facilidade.

   Com bom humor, Henrique fala que essa sua dedicação é um ‘terror’ para os donos de estúdio pois, quando vai gravar, já chega pronto, “como se fosse um concerto”, diz. “Outros músicos vão para ensaiar”, critica. Mas faz uma ressalva: “Às vezes a gente erra. Ninguém é perfeito.”

   Filho único do representante comercial Elly de Medeiros Annes e da dona-de-casa Celina Josefa Pedrosa Annes, Henrique começou a empunhar o violão ainda criança. “Meu despertar para a música foi por meio do irmão da minha mãe, Arnaldo Vidal, que tocava flauta. Tocou até em cinema mudo”, lembra. “Ele tocava lá em casa. Aí, papai me deu um cavaquinho e, depois, um violão. Eu tinha 12 anos.”

   Precoce, Henrique Annes começou a freqüentar o programa Quando os Violões Se Encontram, na Rádio Jornal do Commercio. Lá, conheceu o notável violonista Canhoto da Paraíba, que o tornou habitué dos saraus na casa de Mestre Sérgio, na Rua das Águas Verdes, bairro de São José. Também com Canhoto, teve a oportunidade de estrear em disco, no álbum Único Amor (Rozenblit, 1968), relançado em CD, em 2001, pelo selo Polysom.

   Desde então, participou de diversas gravações, especialmente da Orquestra Armorial, Orquestra de Cordas Dedilhadas e Oficina de Cordas, além de LPs com o bandolinista Rossini Ferreira e o cavaquinista Jacaré. Solo, apenas o álbum O Virtuose do Violão: José do Carmo, também relançado em CD, este ano.

   Nesta entrevista, o não menos virtuoso Henrique Annes fala um pouco de sua carreira, do quanto se ressente da falta de apoio local, dos novos projetos e o quanto está apostando nesse novo trabalho, Violão Pernambucano.

Colaborou Marcelo Pereira

JORNAL DO COMMERCIO – Como você define a sua relação com o violão?

HENRIQUE ANNES – O violão, para mim, é muito importante. É uma necessidade orgânica.

JC – Existe uma ‘escola de violão’ pernambucana? Como você a definiria?

HA – A escola pernambucana existe. Mas todos os grandes violonistas (cita João Pernambuco, Romualdo Miranda, José do Carmo) tocavam totalmente diferente um do outro, cada qual com um estilo e uma sonoridade diferente. À sua maneira, com seu fraseado e som diferente. Por isso, dizer “esse é o exemplo para ‘fulano’ tocar” é um insulto à música.

JC – Por que sua carreira discográfica é tão irregular?

HA – Sinceramente, minha carreira discográfica é tão irregular porque eu sempre morei no Recife. Se eu tivesse morado ou nascido na Bahia, São Paulo ou Rio de Janeiro, teria outro tipo de discografia.

JC – Você teve a oportunidade de sair daqui e viver no Sudeste e até fora do País. Por que insistiu em ficar em Pernambuco?

HA – Insistia porque tinha família, meus pais (hoje, falecidos) e tinha com eles uma ligação muito forte. Mesmo assim, morei nos Estados Unidos, onde deixei meu curso de bacharelado no meio, na Universidade da Geórgia. Consegui fazer alguma coisa. Não sei... Talvez hoje eu fosse famoso ou não teria feito nada. Mas não me arrependo de ter voltado, porque aqui tenho minhas raízes, gosto da minha cidade e do meu País. Sou muito nativista e patriota, apesar da cidade em que vivo. É muito complicado falar sobre isso...

JC – Você não tem feito muitos concertos, não é?

HA – Aqui é complicado. Este ano eu só fiz um concerto, com (o bandolinista) Adalberto Cavalcanti. Tive que alugar o teatro. Não vale a pena financeiramente e não há interesse. Agora, o público que vai me prestigiar é seleto e fiel, conhece meu trabalho. Quando entro no palco, já conheço as caras. Dá, pelo menos, metade da casa.

JC – E o que fazer para conquistar novos fãs?

HA – Bem, eu tenho que tocar e gravar mais. Com esse disco, Violão Pernambucano, eu vou tocar no Rio de Janeiro e São Paulo.

JC – Você é um gênio indomável?

HA – Não. Isso aí, deixa para os bons entendedores da música. Cada qual tem sua especialidade e seu aspecto musical. Esse negócio de ‘gênio indomável’ é cascata.

JC – Você só conseguiu viabilizar esse disco por causa do Sistema de Incentivo à Cultura do Estado?

HA – Eu consegui um financiamento parcial pelo SIC e o dinheiro não deu para terminar. Deu só para cobrir parte dos custos com estúdio. Eu tinha o sonho de gravar um disco com os grandes solistas brasileiros. Não que no Recife não tenha solistas do primeiro time, mas pensei nas pessoas que têm mais nome. Eu tive que sair daqui, com a produção, ir lá, gravar, organizar estúdio, marcar pauta, pagar hotel. É uma despesa grande e tive que fazer.

JC – Quem você chamou?

HA – Convidei o mito da flauta Altamiro Carrilho, seu sobrinho, o violonista Maurício Carrilho, também para a direção musical, a cavaquinista Luciana Rabello, Jorginho do Pandeiro, o sucessor de Jacob do Bandolim, Joel Nascimento, e o clarinetista Paulo Sérgio Santos, substituto de Abel Ferreira, embora tenha formação erudita. Tudo isso tem um custo. A Lei de Incentivo à Cultura me ajudou e, uma parte, tive que bancar do meu próprio bolso.

JC – E a Kuarup, o que investiu?

HA – A Kuarup entrou com a prensagem e a distribuição nacional.

JC – Em algum momento, você se decepcionou com a música?

HA – Ah, muito! Demais. Passei muito tempo afastado do meu trabalho, no Conservatório Pernambucano de Música. Hoje, voltei, sou professor e diretor da Divisão de Cordas. Fiquei muito tempo sem tocar no Recife. Tocava mais fora. Me sentia muito rejeitado na minha terra. Era muita política e perseguição. Isso me deixou muito triste. Hoje, isso não existe mais. Tenho o privilégio de ser bem recebido pelo Governo do Estado ou pela Prefeitura (do Recife) e sou reconhecido pelo meu trabalho.

JC – O que representa esse disco para você, neste momento?

HA – É um momento muito especial na minha vida artística gravar um disco em que fiz uma série de coisas diferentes: os Prelúdios, choros, valsas, parte da minha obra tocada por intérpretes consagrados da música brasileira.

JC – Por que a maioria das faixas é evocativa ou melancólica?

HA – (Risos) Eu sou uma pessoa triste, uma pessoa melancólica. Sou romântico, Acho que músico tem que ser assim, melancólico e romântico. Eu amo a vida, as pessoas. A minha música permite tudo isso. Não sei fazer música de encomenda. Tudo que vem de mim, do meu violão, nasce do momento, do meu estado de espírito.

JC – Por que você decidiu lançar um disco praticamente de violão solo?

HA Era meu sonho: ter um disco solo com algumas músicas minhas tocadas por grandes solistas da música brasileira.

JC – Como foi o processo de gravação do disco?

HA – Gravei a parte solo no Recife e fui para o Rio, gravar no estúdio Hara, com a técnica de Amaro Moço.

JC – Isso foi em 1999. Por que demorou tanto para ficar pronto?

HA – São as dificuldades de fazer as coisas. Colocar do próprio bolso, pedir empréstimo...

JC – Qual o motivo da ausência da Oficina de Cordas?

HAAí, são outros projetos...

JC – Como está o seu projeto com o grupo?

HA – Está ótimo, bem pra frente. Estou com um time de gente nova. Estamos fazendo o repertório tradicional, com novos arranjos. Maestro Duda, Maurício Carrilho e os próprios componentes assinam os arranjos. Temos o projeto Dedilhando Pernambuco, de estudo, recuperação e divulgação da música pernambucana para instrumentos dedilhados composta nos séculos 19 e 20. Vamos pesquisar toda essa obra, gravar dois CDs, vídeo e fazer concertos em todo o Brasil. Tentei fazer isso há alguns anos pela Lei Rouanet. Foi aprovado, renovei por duas vezes, mas não consegui captar os recursos. Atualmente, está em análise na Petrobras, no Rio de Janeiro.

JC – Você pretende relançar os discos anteriores?

HA – Tem um disco que fiz com a Oficina de Cordas, Compositores Pernambucanos, pela Fundação Joaquim Nabuco, com apoio do Grupo Bompreço, em 1987. Foi nosso primeiro trabalho, em parceria com (o pesquisador) Renato Phaelante. Só tem em vinil e eu pretendo fazer um CD.

JC – Esse disco, Violão Pernambucano, está lhe dando novo ânimo para outros novos projetos?

HA – Está, realmente. A cada dia que eu ouço, fico com aquela sede de compor e fazer coisas novas.

JC – Decepção com a música é coisa do passado, então?

HA – É, vamos esquecer o passado. Conheci uma nova empresária em São Paulo, a Gete, que está interessada em meu trabalho.

JC – Quantas peças inéditas você tem?

HA – Tenho uma 60 músicas.

JC – E você só tem dois álbuns solos?

HA – Só. Mas, tenho um novo caminho, com esse disco na praça. Como disse, vou esquecer o passado. Vamos pra frente.

(© Jornal do Commercio)

 

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