O casamento é perfeito. Cantando Gonzagão, Elba
brilha pelo suingue, pelo domínio do fraseado musical sertanejo e pela apurada noção
que tem do valor que cada palavra, cada sílaba da poética nordestina, deve ganhar nas
interpretações.
O álbum 'Elba Canta Luiz', lançado em março,
privilegiou algumas canções menos lembradas do compositor, como as antigas parcerias com
Miguel Lima 'Quer Ir Mais Eu', 'Xamego da Guiomar' e 'Xamego'. O show, por sua vez,
incorporou também os seus grandes êxitos, como 'Assum Preto', 'Qui Nem Jiló' e 'Asa
Branca', que Elba afirma ser o "Hino Nacional nordestino". Também estão no
programa algumas músicas que nunca foram cantadas pelo Rei do Baião, mas que, segundo
ela, pertencem ao mesmo universo, como os sucessos 'Banho de Cheiro', 'Frevo Mulher' e
'Leão do Norte'.
Aliás, 'universo' é uma palavra que se aproxima
bastante do significado que Luiz Gonzaga tem para a cantora. "Gonzaga representa toda
aquela terra do sertão, simbolizando desde a fome até a força do nordestino. Esse disco
e esse show são um reencontro com a minha própria vida na Paraíba, pois eu vivia tudo
aquilo que ele cantava", diz Elba.
Cantora elogia a simplicidade do compositor
Sua definição para a música de Gonzagão é
singela e verdadeira: "Gonzagão é a delícia da simplicidade". Mas essa
simplicidade não é fácil nem vulgar, o que ela deixa claro ao reproduzir o conselho que
recebeu de Dominguinhos, quando começaram a pensar nos arranjos: "Não mexa nas
harmonias, porque são muito mais difíceis e sofisticadas do que o povo pensa por
aí".
Entusiasmada com o show, Elba elogia o projeto visual
de Gabriel Villela: "Gabriel procurou enfatizar o meu lado atriz. O figurino que fez
para eu usar nos espetáculo dá a idéia de uma cigana, uma retirante, uma rainha de
maracatu, uma personagem circense, mas também de um arlequim ou até, conforme disse um
espectador, de Nossa Senhora".
Elba também deve oferecer para o público o deleite
de ouvir algumas histórias de Gonzagão, com quem conviveu bastante, inclusive recebendo
dele o carinhoso apelido de "a minha segunda cachacinha" - Gonzaguinha era a
primeira.
Uma dessas histórias que Elba gosta de contar é a
do dia do nascimento de seu filho Luan: "Eu estava grávida de 8 meses e, para a
minha surpresa, acordei com ele e o Dominguinhos no meu quarto. De alguma forma eu sabia
que aquele seria um dia muito especial, o que se reforçava pelo fato de Gonzaga ficar me
olhando o tempo todo, com muita ternura. Mais tarde, depois de almoçarmos uma
carne-de-sol na casa de minha irmã, ele pegou a sanfona e nós ficamos dançando forró
por ali até que, de repente, lá pelas 6 da tarde, minha bolsa estourou e começou aquela
correria para acharmos um hospital.
Depois do parto, quando acordei, lá estavam
novamente as figuras lindas de Gonzaga e Dominguinhos ao meu lado. Me lembro bem que ele
se abaixou, bem perto do meu filho recém-nascido, e cantarolou: 'Cabeça grande é sinal
de inteligência/Agradeço à providência ter nascido lá...'". (© Jornal da Tarde)