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 O encontro de Tom Zé com Mestre Ambrósio

26/07/2002

 

Tomzé

  

Refeito do problema cardíaco que o tirou do palco em abril, o baiano volta com a corda toda

JOTABÊ MEDEIROS

   Depois de driblar a morte - ele escapou de um colapso cardíaco no dia 21 de abril, no Recife -, o baiano Tom Zé volta ao palco pela primeira vez amanhã, em show no Sesc Vila Mariana. E volta com a corda toda, dividindo a noite com o grupo pernambucano Mestre Ambrósio. Como Darcy Ribeiro, que fugiu do hospital para se tratar, Tom Zé volta invertendo um slogan da indústria farmacêutica no nome do seu show: Persistindo os Médicos, os Sintomas Deverão ser Consultados.

   Não que Tom Zé seja um mal-agradecido. Ele diz que os médicos pernambucanos salvaram sua vida ao diagnosticar rapidamente a veia entupida e fazer a cirurgia, em abril. A inversão do slogan é mais uma de suas brincadeiras sonoras, como um ready-made de Duchamp (ele lembra outro troca-troca seu mais antigo, que era "Não faça do seu caso um alarma, a tímida pode ser você").

   Mas o retorno de Tom Zé também é uma espécie de manifesto. Ele o está chamando de "show-cartório", no qual pretende "registrar firma" de algumas de suas invencionices musicais que - acusa - está cansado de ver sendo utilizadas em shows alheios, sem o devido crédito.

   "Estou cansado de ver minhas idéias gozando com o palco dos outros", brinca o músico de 65 anos. "Não me obrigue a dizer quem fez isso, mas eu tô cansado de sofrer com essas coisas, e não sou macho de bater o pé no chão e dizer: 'Ei, isso é meu!'" Portanto, ele leva as invenções ao palco e vai pedir aos conhecidos presentes para serem as testemunhas da "escritura" de suas criações. Uma delas, por exemplo, é Brigite Bardot, uma brincadeira com iluminação. "É uma música na qual a iluminação faz parte da composição", explica. "Tenho composições que só podem existir no palco, porque foram feitas para essa mídia. Daí porque não estão nos discos."

   Tom Zé, sempre no seu estilo parabólico, explica o que entende como a conceitução do seu trabalho dentro da MPB. "Quando você não sabe cantar, não tem voz, não tem o pathos do artista, então você começa a inventar, a viver de outros artifícios", resume.

   Sua primeira referência, conta, foi a figura do Homem da Mala, mítico artista mambembe do interior. "É o artista que chega a um lugar imprevisto, transforma um pedaço da praça em palco e outro em platéia e improvisa seu show do nada", visualiza. "Imagine se eu tivesse nascido com a voz do Agnaldo Rayol? Ficaria embriagado pela minha voz e não faria mais nada. Mas eu, como nasci com um complexo de inferioridade terrível, nunca quis ser melhor que os outros, faço o que faço para me igualar. Daí essa perseguição ao que não era comum, ao que não era institucionalmente belo ou razoável."

   Os "interlocutores" dessa noitada de retorno de Tom Zé não poderiam ser mais apropriados: os pernambucanos da banda Mestre Ambrósio. Estão festejando dez anos de carreira e à beira de fazer seu primeiro show em terras asiáticas (vão fazer turnê por dez cidades japonesas).

   Sem gravadora, o Mestre Ambrósio voltou à condição de independente do início da carreira, mas com um cacife impressionante. Desde 1996, fazem todo ano uma turnê mundial. Têm um manager francês, Mark Regnier, e nenhuma pressa de gravar o sucessor de O Terceiro Samba (Sony, 2001) "Estou escrevendo música direto, mas a gente ainda não está conversando sobre o material novo, estamos fazendo show adoidado", conta Sérgio Ricardo Cassiano (percussão e vocal).

   Tom Zé e Mestre Ambrósio fazem shows separadamente e depois se encontram, no final, para mostrarem a canção nova. E, logo logo, pinta também Santagustin, o novo balé do Grupo Corpo, com a música do baiano, "inspirado no Pixinguinha e na família Carrasqueira". (© O Estado de S. Paulo)

 

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