Não que Tom Zé seja um
mal-agradecido. Ele diz que os médicos pernambucanos salvaram sua vida ao diagnosticar
rapidamente a veia entupida e fazer a cirurgia, em abril. A inversão do slogan é mais
uma de suas brincadeiras sonoras, como um ready-made de Duchamp (ele lembra outro
troca-troca seu mais antigo, que era "Não faça do seu caso um alarma, a tímida
pode ser você").
Mas o retorno de Tom Zé também é uma espécie de
manifesto. Ele o está chamando de "show-cartório", no qual pretende
"registrar firma" de algumas de suas invencionices musicais que - acusa - está
cansado de ver sendo utilizadas em shows alheios, sem o devido crédito.
"Estou cansado de ver minhas idéias gozando com
o palco dos outros", brinca o músico de 65 anos. "Não me obrigue a dizer quem
fez isso, mas eu tô cansado de sofrer com essas coisas, e não sou macho de bater o pé
no chão e dizer: 'Ei, isso é meu!'" Portanto, ele leva as invenções ao palco e
vai pedir aos conhecidos presentes para serem as testemunhas da "escritura" de
suas criações. Uma delas, por exemplo, é Brigite Bardot, uma brincadeira com
iluminação. "É uma música na qual a iluminação faz parte da composição",
explica. "Tenho composições que só podem existir no palco, porque foram feitas
para essa mídia. Daí porque não estão nos discos."
Tom Zé, sempre no seu estilo parabólico, explica o
que entende como a conceitução do seu trabalho dentro da MPB. "Quando você não
sabe cantar, não tem voz, não tem o pathos do artista, então você começa a inventar,
a viver de outros artifícios", resume.
Sua primeira referência, conta, foi a figura do
Homem da Mala, mítico artista mambembe do interior. "É o artista que chega a um
lugar imprevisto, transforma um pedaço da praça em palco e outro em platéia e improvisa
seu show do nada", visualiza. "Imagine se eu tivesse nascido com a voz do
Agnaldo Rayol? Ficaria embriagado pela minha voz e não faria mais nada. Mas eu, como
nasci com um complexo de inferioridade terrível, nunca quis ser melhor que os outros,
faço o que faço para me igualar. Daí essa perseguição ao que não era comum, ao que
não era institucionalmente belo ou razoável."
Os "interlocutores" dessa noitada de
retorno de Tom Zé não poderiam ser mais apropriados: os pernambucanos da banda Mestre
Ambrósio. Estão festejando dez anos de carreira e à beira de fazer seu primeiro show em
terras asiáticas (vão fazer turnê por dez cidades japonesas).
Sem gravadora, o Mestre Ambrósio voltou à
condição de independente do início da carreira, mas com um cacife impressionante. Desde
1996, fazem todo ano uma turnê mundial. Têm um manager francês, Mark Regnier, e nenhuma
pressa de gravar o sucessor de O Terceiro Samba (Sony, 2001) "Estou escrevendo
música direto, mas a gente ainda não está conversando sobre o material novo, estamos
fazendo show adoidado", conta Sérgio Ricardo Cassiano (percussão e vocal).
Tom Zé e Mestre Ambrósio fazem shows separadamente
e depois se encontram, no final, para mostrarem a canção nova. E, logo logo, pinta
também Santagustin, o novo balé do Grupo Corpo, com a música do baiano, "inspirado
no Pixinguinha e na família Carrasqueira". (©
O Estado de S. Paulo)