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12/08/2002
Ao final do primeiro espetáculo de Antonio Nóbrega no Canecão, em 1995, uma platéia ilustre com destaque para Fernanda Montenegro não resistiu e caiu no frevo enfezado que saía de sua voz e de sua rabeca. Não foi um final, mas uma apoteose, praticamente revelando aos cariocas a arte maior desse músico, cantor, ator, autor, pesquisador pernambucano. Comemorando 50 anos de vida e 30 de carreira, Nóbrega não antecipa se o novo espetáculo, Lunário perpétuo, causará o mesmo efeito no público que vai vê-lo no Teatro Odylo Costa, filho, na Uerj, de sexta a domingo, sempre às 17h. É um espetáculo diferente, mas eu gostaria que não apagasse a impressão deixada por aquele primeiro diz. Aquele primeiro intitulava-se Na pancada do ganzá e, diferentes que sejam, os dois são produtos da estética de Nóbrega, uma estética que consegue combinar no mesmo palco a poesia do cantador nordestino, a literatura popular, as narrativas folclóricas, a música, o teatro e a dança, de forma sempre surpreendente. Nóbrega explica que seus espetáculos se apóiam em quatro temas. O primeiro é a rabeca, sobre a qual faz questão de dar breve aula. Assemelha-se ao violino, mas tem som mais harmônico e menos agudo, mais rouquenho e menos barroco. O segunda tema é o romanceiro. Ou seja, as narrativas de tradição oral, de autores desconhecidos, muitas originadas há mais de 600 anos na Península Ibérica. Há sempre romanceiros no repertório de Nóbrega, sendo sua preocupação não só colhê-los mas redimensioná-los. Como García Lorca fez com o seu Romanceiro gitano e Manuel de Falla com sua música explica Nóbrega. O que o leva ao terceiro tema: a recuperação da poesia popular brasileira, especialmente a nordestina, também de tradição oral, presente nos vários tipos de romanceiro. Ele fala com entusiasmo das décimas de sete versos que estão, por exemplo, no samba de maracatu O rei e o palhaço e na ciranda Carrossel do destino, ambos gravado no CD já lançado em São Paulo. Tonheta dá vazão à veia humorística de Nóbrega O quarto tema não é menos caro ao artista: Tonheta. Personagem que se sentiu instigado a criar, em razão de uma veia humorística que tinha necessidade de expor. Foi trabalhado a partir dos mateus, os palhaços do bumba-meu-boi. Não são palhaços como os que fazem parte do nosso imaginário, os de circo, mas um brincante que contrapõe a desordem à ordem. Principalmente o mateus-guariba, assim chamado porque suas micagens e máscaras faciais lembravam macacos guaribas. Aos mateus, Nóbrega juntou a experiência colhida nos filmes de Buster Keaton, Cantinflas, Totó, Oscarito e Chaplin. Naturalmente, o Tonheta não é uma síntese desses todos ressalva. Se fosse, seria o maior de todos os palhaços. Mas pensei neles durante o processo de construção do meu personagem. Nos mungangos corporais, na cara pintada com carvão, na roupa de chitão, nas bexigas de boi cheias de ar, no que ele diz e canta está muito de mim mesmo e dos outros três temas. ANTONIO NÓBREGA/ 'LUNÁRIO PERPÉTUO' Show comemorativo dos seus 50 anos de idade, 40 de convívio com o violino e 30 de carreira. Teatro Odylo Costa Filho: Rua São Francisco Xavier 524, Maracanã, Campus da Uerj 2587-7481. Sex e sáb, às 20h e dom, às 17h. R$ 15.
(© O Globo On line)
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