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A hora e a vez de dona Cila do Coco

12/08/2002

 

 

A artista, que se apresentou no Festival de Inverno de Garanhuns ao lado da Nação Zumbi, compara o sucesso com o prazer de comer um bolo com guaraná geladinho

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   Um dos momentos mais fortes do último Festival de Inverno de Garanhuns foi durante o show da Nação Zumbi. A banda chamou ao palco Cila do Coco, no meio de uma versão revigorada de Rios Pontes & Overdrives, que recebeu ainda trechos de Vendedor de Caranguejo, de Jackson do Pandeiro. A platéia, embasbacada com a forte presença cênica da convidada, foi ao delírio.

   “É a sensação de comer um bolo bem gostoso, quentinho, com um refrigerante geladinho. Uma verdadeira maravilha o que eu estou vivendo agora”, define, dessa forma, o atual momento da carreira essa coquista que já foi chamada de ‘o cânone da tradição’. A comparação entre o prazer gastronômico e o sucesso que começa a experimentar é bem justificável.

   Dona Cila aparece em dois dos principais discos do segundo semestre deste ano. Em outubro, ela pode ser ouvida no esperado novo CD da Nação Zumbi, o primeiro a sair pela gravadora Trama. Em seguida, sua voz aparece em Mauritzstadt-Dub, compilação da Candeeiro Records formada por clássicos da música popular pernambucana de um lado, e, do outro, remixes dos mesmos a cargo de gente como Arto Lindsay, Apollo9, Bid, Rica Amabis, Capenga Sample (projeto de Jorge Du Peixe e Berna Ferguson), Pupillo e Fred 04.

   Antes disso, Cila já está registrada no CD Coleção Nacional Instituto, na faixa Juntando coco, que catalogou o som de quem está demarcando o mais novo território da música pop do País - leia-se Sabbotage, Rica Amabis, Nação Zumbi, Otto... Todos eles, músicos especializados em quebrar o conceito de tradição, que nada mais é do que inserir noções de tempo e espaço na continuidade confortável do passado.

   Em Juntando coco, uma compilação das canções Coco do pneu, Uma medalha dourada, Cavalheiro, roda e dama e A despedida, em versão dub, o vocal de Cila aparece não só moderno, como também muito à frente de qualquer concorrência. “Eu gosto dessa mistura que fazem com a minha música”, soltou.

   O COCO DO PNEU – Dona Cila tem o ritmo do coco preso ao seu DNA. “Meu pai fazia rodas de coco bem animadas, mas era só durante o São João. No resto do ano, ninguém tocava esse tipo de música, não. Se alguém se atrevesse a fazer uma roda de coco, que nem se chamava assim, era o samba de roda, durante o resto do ano, a polícia mandava parar.”

   Dona Cila lembra como eram as rodas de coco do passado. “Ah, era muito diferente, as pessoas passavam na rua e pediam licença ao dono da casa. O dono da casa vinha e revistava as pessoas, para ver se elas estavam armadas. Os homens tomavam vinho de genipapo e as mulheres, garapa de laranja, que é o suco bem ralo”.

   “Quando comecei a me interessar por música, fiquei fã de Jackson do Pandeiro. Até hoje tenho a vontade de gravar um disco só com músicas dele”, afirma. Sonho esse que só começou a tomar forma de dois anos para cá. “Eu cantava coco aqui em casa ou onde o povo me chamasse, mas não era de uma forma profissional. Não valia a pena sair do trabalho (antes de se aposentar, Dona Cila era merendeira na Cruzada de Ação Social) para cantar em uma roda e ganhar R$ 20, R$ 30, quando podia lavar roupa e ganhar mais dinheiro”, completou.

   A guinada na sua carreira começou em 2000, quando foi chamada para fazer parte de uma roda de coco na Cantina Z4, em Olinda. “Nesse dia, João (Carlos) do Celo (músico da Orquestra Sinfônica do Recife) me viu tocar e me levou para conhecer os meninos da Nação Zumbi. Foi uma beleza, adoro esses meninos.” Da Nação Zumbi, Dona Cila conhecia os discos com Chico Science, que seus filhos ouviam em casa. “Ah, eu sempre gostei muito, achava uma beleza o som que Chico fazia.”

   Dona Cila foi convocada, então, para participar do Ciranda de Ritmos, projeto que reunia músicos da cultura popular com Lia de Itamaracá. “A primeira vez que enfrentei uma platéia mesmo foi na Rua da Moeda, fiquei tão nervosa, que não cabia em mim. Mas quando comecei a cantar, foi uma maravilha, o povo gostou muito. Por todo o lugar que vou, as pessoas me recebem bem, nunca tive problemas com a platéia.”

   No começo deste ano, mais uma vez, ela foi levada a mostrar sua música para uma platéia formada por gente jovem, durante o Rec-Beat de Carnaval – “Foi um dos momentos mais emocionantes que já tive.”

   Em ascensão dentro do universo da cultura popular que já tem lá suas divas fixadas na memória do público, como Lia de Itamaracá, Dona Selma do Coco e Aurinha do Coco, Dona Cila lembra que, sim, tem seu estilo bem próprio. “É bem diferente, cada uma faz sua parte. A Selma tem aquela coisa do rárá, que é bem característico. Já eu, grito ‘que beleza’. Cada uma tem sua forma de cantar e animar o povo”, completa.

(© O Jornal do Commercio)

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