O Memorial da Cultura Cearense do Dragão
do Mar apresenta a exposição interativa Com as cordas do coração: Xilogravura e
Cordel, organizada por Gilmar de Carvalho. Folhetos, matrizes e réplica de
tipografia, além de cursos, informam o público sobre a edição popular de livros
Eleuda de Carvalho
da Redação
De madeira que cupim não rói é esta velha e gasta
prensa que pertenceu à Lira Nordestina, como veio a se chamar a tipografia São Francisco
do mestre José Bernardo da Silva. De lá, também este móvel de guardar tipos. Além
dessas peças, outra prensa, mais moderna, três objetos que fazem parte do acervo do
Memorial da Cultura Cearense. Além deles, folhetos, muitos, de várias épocas e
gêneros, mais um caçuá de matrizes em umburana, da coleção de Gilmar de Carvalho.
Todo o conjunto remete à uma folhetaria popular, recriada pela cenografia de Xiquinho
Aragão, para a mostra Com as cordas do coração: Xilogravura e Cordel, que
ocupa, a partir de hoje e até o final de novembro, as duas salas da galeria do Memorial,
no Centro Cultural Dragão do Mar.
O mote do título da mostra foi inspirado no poeta,
tipógrafo e almanaquista Manoel Caboclo e Silva, ele também uma cria das artes gráficas
e poéticas do Cariri cearense: ''...porque cordel não é aquele / que está pendurado
num cordão / é aquele que é feito / com as cordas do coração''. Assim, na singeleza
das rimas de Caboclo, o motivo pelo qual o folheto continua a se renovar e atrair novas
gerações - o cordel é mescla exata de sentimento e suor, de contemporaneidade e de
passado. A curadoria da exposição é de Gilmar de Carvalho, que vem juntando, nos
últimos 20 anos, um cabedal precioso de folhetos e xilos, de conversas e lembranças
resgatadas das bocas dos velhos vates sertanejos, evidenciadas em seu trabalho acadêmico.
Esta é, talvez, a maior contribuição que o professor Gilmar de Carvalho
vem dando ao debate sobre a cultura popular, em especial, o vasto mundo do cordel e da
xilogravura: perceber esta arte não apenas situada no passado, mas mostrando sua
pertinência atual, motivo de seu vigor. Tome-se como exemplo dessa vitalidade a
produção da Tupynanquim, inclusive na reedição de folhetos clássicos, e o grupo de
Cordelistas Mauditos, do Crato, formado basicamente por jovens de vinte e
poucos anos. Não podemos esquecer ainda que o cordel, embora velho de cinco séculos,
ganhou impulso por causa de um invento ''moderno'', a tipografia, que aumentou a
produção e barateou o custo, democratizando o produto. Hoje, então, com as
possibilidades infinitas da eletrônica, o folhetinho em quarto de página, com sua
gravura na capa e suas sextilhas rimadas, pode ter perdido seu público original, mas
ganhou outros.
Em relação ao folheto, outra singularidade, que o público pode conferir em
visita à exposição. Primeiro, a permanência, representada pela reimpressão ainda hoje
de histórias das Mil e Uma Noites árabes e dos heróis do ciclo da Cavalaria Medieval.
Segundo, e talvez mais importante, o por quê de o cordel ser tão impactante e vivo, a
partir dos poetas nordestinos. Foram eles quem renovaram os motivos poéticos do cordel ao
criarem novos ciclos, o de heróis (ou anti-heróis), inspirados nos homens do cangaço; e
o gênero religioso, motivado pela figura indelével do Padre Cícero Romão.
SERVIÇO:
Com as Cordas do Coração: Xilogravura e Cordel - Exposição de folhetos e
matrizes, em cenografia que remete à tipografia popular. Curadoria: Gilmar de Carvalho.
Abertura 22.08.2002, às 20h, no Memorial da Cultura Cearense do Centro Cultural Dragão
do Mar (rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). A exposição fica em cartaz até 30
de novembro, com ingressos a R$ 2,00 (inteira) e R$ 1,00 (estudante). Domingo, entrada
franca. Não abre às segundas. No período da exposição, acontecem oficinas com mestres
gravadores, iniciando com Francorli (de 27 a 30 de agosto). Info.: 488.8619/ 488.8597.
(© NoOlhar.com)
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