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J. Borges se revela numa prosa só sua

22/08/2002

 

 

O xilogravurista lança livro com contos e trechos autobiográficos que ele assume por inteiro, com muito orgulho: “O que tiver de certo e de errado é só meu”

por JAMILDO MELO
Da editoria de Economia

   O xilogravurista e poeta popular José Francisco Borges, conhecido em todo o mundo como J. Borges, abandonou as rimas e adotou a prosa para escrever suas memórias. Aos 66 anos, J. Borges se desnuda nas 286 páginas de Memórias e Contos de J. Borges. Há de tudo no livro, apresentado como “um romance comovente para dar prazer a toda classe de gente”. São recordações da infância de menino pobre na pequena Bezerros, contos mirabolantes do imaginário popular, conselhos sentimentais e, principalmente, seu pensamento acerca de diversos temas. Nele, o consagrado artesão se assume um homem orgulhoso de sua fama, além de revelar-se conservador e contraditório.

   “Não tenho vaidade comigo. Acho bonito ser um homem simples”, diz, com orgulho, a certa altura. Em pelo menos duas oportunidades, a soberba sobe-lhe à cabeça. “Uma coisa eu posso garantir. Depois que eu não existir mais ainda vão muitos anos para meu nome e meus escritos serem esquecidos”, diz. “O meu nome hoje é muito falado, mas não chega um tanto do que vai ser depois do meu fim”. Há, claro, outras lições de humildade. “Por sábio que seja, o homem morre e não aprende tudo o que quer e precisa”, diz, em outro trecho. “A fama vem sem estudo, mas nunca vem sem trabalho”, ensina.

   Numa dessas facetas reveladas no livro, J. Borges mostra-se pouco afeito à religião, apesar de ter usado o tema à exaustão, em 38 anos de carreira. Um dos seus primeiros trabalhos de sucesso, o cordel O Verdadeiro Aviso de Padre Cícero, explorava justamente a fé popular, em 1965. “A religião é a maior fonte de renda em todo o mundo”, reclama hoje, autodefinindo-se como desgostoso dela no livro. Em outra singela contradição, J. Borges, no final da publicação, tece os maiores elogios ao ditador Getúlio Vargas por acabar com o cangaço e faz inúmeras loas ao Exército, mesmo tendo feito diversas gravuras explorando a imagem de Lampião. No ano de 1963, no livro Poesia e Gravura de J. Borges, organizado pela colecionadora Sílvia Coimbra, o artesão chegou a homenagear Lampião e sua companheira com a gravura A Última Ceia de Lampião.

   O livro de memórias é, antes de mais nada, um vitória pessoal para o filho de agricultores pobres que nasceu no povoado de Piroca, em Bezerros, e passou apenas 10 meses na escola, aos 12 anos, no distante ano de 1946. “Agora tenho um livro que foi feito só por mim. Este é só meu mesmo, é puro. É meu todo. O que tiver de certo e errado é meu”, explica, justificando os incontáveis erros de pontuação e conjugação. A impressão tosca, especialmente para um gravador tão famoso, no entanto, parece lhe incomodar. “Tenho vergonha de fazer um lançamento. Vou vender de um em um, aqui no ateliê”, diz, contando que a impressão foi feita em uma máquina tipográfica com mais de 100 anos de uso.

   No lado soft do livro, J. Borges conta suas preferências musicais, gastronômicas, chegando a confessar sua admiração pelo Clube Náutico Capibaribe. As cenas mais saborosas são as descrições da vida no interior, na metade do século passado. “Os primeiros lances de pernas e coxas de uma mulher a gente via na tarefa de pegar água em cacimbas. Que naquela época era muito difícil se ver os joelhos de uma mulher ou de uma moça”, relembra. “Quando acontecia de uma mulher não ser virgem, o noivo devolvia”. Em quase um estudo sociológico, J. Borges mostra como eram os partos comemorados com fogos nos engenhos e nenhuma higiene e até como era o ritual para roubar as donzelas nas cidades do interior, quando a família botava gosto ruim no casório.

(© Jornal do Commercio)

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