| Metralhadora poética Com letras afiadas, o imprevisível Zeca
Baleiro, atira, em novo CD, farpas em todas as direções
Tárik de Souza
Crítico do JB
Um Zeca Baleiro com cara de mau entre ossos caninos
na capa dá a primeira pista do ambiente do quarto CD solo do compositor Pet shop mundo
cão (MZA/ Abril Music). Outros indícios estão em letras afiadas como Eu despedi
o meu patrão (''ele roubava o que eu mais valia''), O hacker (''vamos invadir
um site/ vamos criar um vírus'') ou nas farpas à queima roupa de Telegrama
(''mais sem graça que a top model magrela na passarela'', ''mais solitário que um
paulistano'', ''tava mais bobo que banda de rock''). ''Tudo à minha volta são
reclames'', reclama a dúbia Mundo dos negócios, que em outra passagem lembra o
pornoxaxado de duplo sentido enraizado na música nordestina (''traz o teu negócio/ junto
ao meu negócio'').
Mas o maranhense José de Ribamar Coelho Santos,
vulgo Zeca Baleiro, não pretende ser o novo Geraldo Vandré. Linhas depois do que
pareceria um deboche à indigência do rock, ele volta a carga. Afaga o ramo e apredeja o
rival. ''Fiz essa canção só pra você/ mas pra quê?/ se você gosta só de MPB/ e eu
sou puro rock'n'roll / com meus três pobres acordes''. Esses dribles estéticos
acompanham a sinuosa trajetória de Zeca desde o impacto da estréia em 1997, onde na
faixa título ele perguntava pelo paradeiro de um semi-obscuro ator inglês (Por onde
andará Stephen Fry?), ironizava Spielberg em O Parque de Juraci e gozava o
apelido do roqueiro do Magazine Kid Vinil (''quando é que tu vai gravar CD?'').
Projetado na mesma safra de Mpop do B
que revelou seu parceiro Chico César, Moska e referendou Lenine, Zeca tem driblado a
previsibilidade a golpes de risco. Depois de um CD em que turbinava a ascendência
nordestina (Vô imbolá) que o levou ao festival de Montreux em 1999, ele trocou a
rota embrenhando-se em Líricas, um disco ponteado por cordas e instrumental
econômico, orgânico, quase artesanal. Na nova guinada de Pet shop mundo cão ele
volta a plugar-se na corrente. ''Pensei em fazer um disco eletrônico, quente, berrante'',
prega ele no encarte.
Mas sua bússola é a do poeta beat
ao iniciar a caminhada sem saber onde chegar, o que prenuncia a multiplicidade de rumos e
adesões do CD. A começar pela produção a oito mãos, de Zeca mais Ramiro Musotto,
Érico Theobaldo e Jongui. ''Quando me dei conta, estava fazendo o disco com eles,
burilando levadas, acordes, texturas'', decupou. Os convidados também pertencem a
órbitas até conflitantes. De Elba Ramalho, Carlos Dafé, os grupos de hip hop 3 Preto
(do Rio) e Z'África Brasil (de São Paulo) a Karnak, Totonho e os Cabra, Vange Milliet,
além do decano compositor maranhense Antonio Vieira. O vocal tradicionalista do coro As
Gatas lubrifica O filho da véia, velho sucesso do sambista santista Luiz Américo
numa levada meio ragga. O recluso Arnaldo Baptista adiciona seu piano mutante a Um
filho e um cachorro.
A metralhadora poética de Zeca e
parceiros também gira em várias di(g)ressões. Ele incorpora trechos do mítico vate
maranhense Sousândrade, xodó dos concretistas e adapta o universo passadista do maior
teatrólogo do país na climática Meu nome é Nelson Rodrigues (''sou do tempo em
que as atrizes tinham alma'', ''sou do tempo em que até os canalhas choravam'', ''sou do
tempo em que até os automóveis davam bom dia''). Zeca com parceiros como Capinam,
Mathilda Kóvak, Fernando Abreu, Sérgio Natureza move-se nesse caos
estético/político/filosófico sob a batuta do humor, entre a corrosão e o nonsense.
O messianismo da idolatria é
caricaturado no reggae Guru da galera. ''É o som do meu rebanho/ que atravessa
esse mar morto sem tamanho/ atrás de um rio Jordão para lavar as mágoas''. Drumembêis
que abrasileira o nome do gênero eletrônico mais próximo do baticum nativo, abusa da
metalinguagem. ''Embolada é quase rap/ rap é quase drumembêis'', sacode a letra sobre
um coco embolado em drum'n'bass. Até o velho hit Rua Augusta, que o múltiplo
compositor Hervê Cordovil fez para o filho Ronnie Cord no começo dos 60, ganha um aggiornamento
em As meninas dos jardins. A letra confronta a opulência paulista digerindo o rap
de Mano Brown e cita até ''o sol nas bancas de revista'', da Alegria, alegria
tropicalista. Dialético de carteirinha, Zeca Baleiro disseca o mundo cão nacional como
se retratasse um pet shop. E vice-verso.
Pet shop mundo cão. Zeca Baleiro.
MZA/Abril Music. R$ 25, em média.
(© JB Online) |