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Onde São Luís é Manchester

22/08/2002

Zeca Baleiro

 

11-06-2008

Onde São Luís é Manchester

Zeca Baleiro

Bernardo Araujo

   A intenção do maranhense Zeca Baleiro ao gravar seu quarto disco, “PetShopMundoCão” (MZA/Abril) era, segundo ele, “fazer um disco eletrônico, quente, berrante, mas ainda assim um disco de canções”. A parte mais importante da intenção — aquela que fala do formato, a canção, este elemento consagrado que já começa a ser combatido — foi cumprida com louvor. Mesmo com blips e pzóings aqui e ali e uma produção digna de Michael Jackson, esse Zeca continua sendo Baleiro, usando seus trocadilhos, sua musicalidade nordestina com pitadas árabes e seu humor eventualmente amargo em canções como o sambão “Minha tribo sou eu”, que abre o CD, e a hilária “Drumembêis”, em que o batidão eletrônico é usado a serviço do mais arretado xote.

   Apesar do “mundo cão” do título, o disco soa mais otimista do que o anterior de Baleiro, “Líricas”, que privilegiava baladas, muitas vezes tristes. Ainda assim, o lado melancólico de Baleiro — que já gerou belas canções como “Por onde andará Stephen Fry”, “Bandeira” e “Lenha” — aparece em “Telegrama” e “O hacker”. O humor (que nem sempre tem tanta graça assim) está em “Eu despedi o meu patrão” e na já citada “Drumembêis”.

Cantor trabalha com três produtores e muitos músicos

   A produção de “PetShopMundoCão” é tão caprichada que às vezes parece exagerada. Além dos produtores Ramiro Musotto, Jongui (ambos flutuam entre a percussão e os computadores) e Érico Theobaldo, Baleiro conta com músicos como o violoncelista Lui Coimbra, o guitarrista Jr. Tostoi, o rapper Fernandinho Beat Box e o tradicional grupo vocal de samba As Gatas. Em muitos casos o resultado é belíssimo, como nas cordas de “Guru da galera” e no samba-enredo/toada de boi “A serpente (outra lenda)”, em que a música eletrônica interage com elegância com a orgânica, numa bela soma de esforços.

   Por outro lado, tanta informação, tantos músicos, produtores, programadores, cantores, poetas eventualmente deixam o disco um pouco cansativo. Talvez o projeto ficasse mais redondo sem duas ou três das 14 faixas (como a desnecessária vinheta arnaldoantuniana “Meu nome é Nelson Rodrigues”). Ainda assim, aos 36 anos e em seu quarto disco, Zeca Baleiro segue firme pelo árduo caminho da música autoral, misturando o que lhe dá na telha e, por isso mesmo, já tendo sob sua assinatura um catálogo de qualidade.

(© O Globo Online)

Metralhadora poética

Com letras afiadas, o imprevisível Zeca Baleiro, atira, em novo CD, farpas em todas as direções

Tárik de Souza
Crítico do JB

   Um Zeca Baleiro com cara de mau entre ossos caninos na capa dá a primeira pista do ambiente do quarto CD solo do compositor Pet shop mundo cão (MZA/ Abril Music). Outros indícios estão em letras afiadas como Eu despedi o meu patrão (''ele roubava o que eu mais valia''), O hacker (''vamos invadir um site/ vamos criar um vírus'') ou nas farpas à queima roupa de Telegrama (''mais sem graça que a top model magrela na passarela'', ''mais solitário que um paulistano'', ''tava mais bobo que banda de rock''). ''Tudo à minha volta são reclames'', reclama a dúbia Mundo dos negócios, que em outra passagem lembra o pornoxaxado de duplo sentido enraizado na música nordestina (''traz o teu negócio/ junto ao meu negócio'').

   Mas o maranhense José de Ribamar Coelho Santos, vulgo Zeca Baleiro, não pretende ser o novo Geraldo Vandré. Linhas depois do que pareceria um deboche à indigência do rock, ele volta a carga. Afaga o ramo e apredeja o rival. ''Fiz essa canção só pra você/ mas pra quê?/ se você gosta só de MPB/ e eu sou puro rock'n'roll / com meus três pobres acordes''. Esses dribles estéticos acompanham a sinuosa trajetória de Zeca desde o impacto da estréia em 1997, onde na faixa título ele perguntava pelo paradeiro de um semi-obscuro ator inglês (Por onde andará Stephen Fry?), ironizava Spielberg em O Parque de Juraci e gozava o apelido do roqueiro do Magazine Kid Vinil (''quando é que tu vai gravar CD?'').

   Projetado na mesma safra de Mpop do B que revelou seu parceiro Chico César, Moska e referendou Lenine, Zeca tem driblado a previsibilidade a golpes de risco. Depois de um CD em que turbinava a ascendência nordestina (Vô imbolá) que o levou ao festival de Montreux em 1999, ele trocou a rota embrenhando-se em Líricas, um disco ponteado por cordas e instrumental econômico, orgânico, quase artesanal. Na nova guinada de Pet shop mundo cão ele volta a plugar-se na corrente. ''Pensei em fazer um disco eletrônico, quente, berrante'', prega ele no encarte.

   Mas sua bússola é a do poeta beat ao iniciar a caminhada sem saber onde chegar, o que prenuncia a multiplicidade de rumos e adesões do CD. A começar pela produção a oito mãos, de Zeca mais Ramiro Musotto, Érico Theobaldo e Jongui. ''Quando me dei conta, estava fazendo o disco com eles, burilando levadas, acordes, texturas'', decupou. Os convidados também pertencem a órbitas até conflitantes. De Elba Ramalho, Carlos Dafé, os grupos de hip hop 3 Preto (do Rio) e Z'África Brasil (de São Paulo) a Karnak, Totonho e os Cabra, Vange Milliet, além do decano compositor maranhense Antonio Vieira. O vocal tradicionalista do coro As Gatas lubrifica O filho da véia, velho sucesso do sambista santista Luiz Américo numa levada meio ragga. O recluso Arnaldo Baptista adiciona seu piano mutante a Um filho e um cachorro.

   A metralhadora poética de Zeca e parceiros também gira em várias di(g)ressões. Ele incorpora trechos do mítico vate maranhense Sousândrade, xodó dos concretistas e adapta o universo passadista do maior teatrólogo do país na climática Meu nome é Nelson Rodrigues (''sou do tempo em que as atrizes tinham alma'', ''sou do tempo em que até os canalhas choravam'', ''sou do tempo em que até os automóveis davam bom dia''). Zeca com parceiros como Capinam, Mathilda Kóvak, Fernando Abreu, Sérgio Natureza move-se nesse caos estético/político/filosófico sob a batuta do humor, entre a corrosão e o nonsense.

   O messianismo da idolatria é caricaturado no reggae Guru da galera. ''É o som do meu rebanho/ que atravessa esse mar morto sem tamanho/ atrás de um rio Jordão para lavar as mágoas''. Drumembêis que abrasileira o nome do gênero eletrônico mais próximo do baticum nativo, abusa da metalinguagem. ''Embolada é quase rap/ rap é quase drumembêis'', sacode a letra sobre um coco embolado em drum'n'bass. Até o velho hit Rua Augusta, que o múltiplo compositor Hervê Cordovil fez para o filho Ronnie Cord no começo dos 60, ganha um aggiornamento em As meninas dos jardins. A letra confronta a opulência paulista digerindo o rap de Mano Brown e cita até ''o sol nas bancas de revista'', da Alegria, alegria tropicalista. Dialético de carteirinha, Zeca Baleiro disseca o mundo cão nacional como se retratasse um pet shop. E vice-verso.


Pet shop mundo cão. Zeca Baleiro. MZA/Abril Music. R$ 25, em média.

(© JB Online)

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