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22/08/2002
O polivalente artista pernambucano comemora
seus trinta anos de carreira com o disco/espetáculo Lunário Perpétuo
Marco Antonio Barbosa e Mônica Loureiro
Muito, muito antes de Chico Science botar Pernambuco
no mapa da modernidade musical brasileira, já havia Antônio Nóbrega lá - praticamente
um antípoda da geração manguebeat, fincando pé no passado mais remoto para extrair de
lá sons, gestos e histórias que embevecem os ouvintes contemporâneos. Nóbrega está de
volta com o disco/show Lunário Perpétuo, espécie de resumo de seus 30 anos de
carreira, todos dedicados a reler a tradição popular nordestina de uma maneira pessoal,
dedicada à interação total com o público e o entretenimento do mesmo. O espetáculo,
que estreou em São Paulo em julho, esteve no Rio na semana passada e vai seguir pelos
palcos brasileiros afora, relembrando o projeto artístico único de Nóbrega. Único
mesmo; quem mais pode se dizer cantor/rabequeiro/brincante/dançador/pesquisador além
dele? "Não é uma antologia de minha carreira. Dentro do show novo, privilegiei
alguns assuntos, alguns aspectos que me são queridos", revelou Nóbrega ao Cliquemusic
sobre Lunário Perpétuo.
O Lunário original era um livro, espécie de almanaque que circulava
entre o povo nordestino durante a infância de Nóbrega (que tem hoje 51 anos).
"Tinha astrologia, receitas, histórias de mitologia, biografias de santos, dados
para a agricultura..." cita o múltplo artista. O disco assume ares de "álbum
conceitual", organizado visual e sonoramente em função das referências ao tal
almanaque. "São três os tópicos que escolhi enfocar no disco", conta
Nóbrega. "A importância da rabeca na minha carreira, que um instrumento ao qual
ainda devoto muito de minha energia criadora; os romances, as histórias cantadas que
sempre estão presentes em meu trabalho; e o cancioneiro popular, com o qual me expresso
através das formas da poética nordestina."
No palco, 13 pessoas - entre músicos e dançarinos - ajudam a dar nova vida
aos frevos, marchas, galopes e cantigas entoados por Nóbrega. "O Lunário
não tem a mesma grandiloqüência do Marco do Meio-dia (espetáculo anterior do
artista, de 2000)", diz o pernambucano. "É uma encenação mais austera, mas
ainda assim com a mesma intensidade." As músicas do CD homônimo (editado pelo selo
Brincante, do próprio Nóbrega, e distribuído pela Trama), como O Rei e o Palhaço,
Romance da Filha do Imperador do Brasil e Romance da Nau Catarineta são a base
do repertório. Nóbrega destaca algumas canções em particular. "Gostei de gravar e
cantar Pagão, foi a primeira vez em que gravei Pixinguinha. Além disso, há uma
música do grande Lourival Oliveira, Canjiquinha - uma polca - e Ponteio
Acutilado, uma canção que escrevi em 1970, a primeira que fiz para o Quinteto
Armorial", lembra.
A estréia do show, em São Paulo, foi uma ocasião de gala; uma temporada de
duas semanas no Sesc Pompéia que incluiu várias participações especiais, palestras,
exposições e até uma aula-espetáculo conduzida por Ariano Suassuna. Para as
apresentações posteriores, o formato foi reduzido. "Em São Paulo foi o Sesc que
produziu, então pudemos fazer algo mais amplo. Mas já na vinda para o Rio tivemos
grandes dificuldades de espaço", explica Nóbrega. Reduzido ou não, o espetáculo
vai contar com o mais conhecido personagem encarnado pelo artista, o palhaço Tonheta.
"Ele não está no CD, mas no palco sim", fala Nóbrega, que refere-se ao
personagem sempre na terceira pessoa. "Quem decide quanto tempo dura o espetáculo é
ele. A duração oficial é de 1h35m, isso quando Tonheta não fica meio doido da cabeça
e estica um pouco mais...", brinca. Na versão ao vivo de Lunário, Tonheta
canta Meu Foguete Brasileiro, parceria de Nóbrega e Bráulio Tavares, Patativa
(Vicente Celestino) e uma versão de Apanhei-te Cavaquinho (Ernesto Nazareth)
rebatizada Apanhei-te Rabequinha.
A multiplicidade de ritmos e estilos, o forte tom lúdico da encenação e as
marcantes performances de dança, marcas registradas do trabalho de Nóbrega, estão no
show e sublinham as três décadas de arte do polivalente pernambucano. "Na verdade,
minha estrada começou aos 11 anos, quando descobri o violino. Mas foi o convite para
tocar no Quinteto Armorial que eu considero o ponto inicial de minha carreira
efetiva", narra. "Ariano Suassuna me chamou para trocar o violino pela rabeca, e
sofri um abalo com as formas de aprendizado que se abriram para mim. Dez anos com o
Quinteto renderam quatro discos; paralelamente, Nóbrega criou três espetáculos-solo (a
partir de 1976) antes de deixar o grupo e radicar-se em São Paulo, em 1982.
Hoje, o lado pesquisador/educador é tão forte quanto a porção artística
- na verdade, as duas faces se completam. "Toco, em parceria com minha esposa Rosane,
o Brincante, que agora está fazendo dez anos - que funciona na Vila Madalena (SP) e é um
espaço para criar e produzir eventos que mostrem o Brasil que o povo não conhece por
falta de divulgação. Lá, temos cursos como 'A arte do brincante para educadores',
coordenamos o projeto Zabumbau, com jovens percussionistas, fazemos oficinas de artistas
populares e dança..." enumera Nóbrega. Tudo isso em função da bandeira que
carrega há 30 anos, que reza: cultura popular não é folclore. "A cultura do povo
não pode ser vista por esse viés da 'coisa exótica', que é estático, não gera nada.
As manifestações sobre as quais eu trabalho tem um papel fecundador da cultura, coisa
que o folclore não tem", diz Nóbrega.
(© CliqueMusic.com.br)
A contribuição do ator nordestino para a cultura
brasileira
O teatro
popular é nossa fonte maior de inspiração. É no teatro tradicional que Antônio
Nóbrega foi criar a cara do Brasil que o brasileiro não conhece ou teima em não
conhecer
Paulo Ess
Ator
Assim como a Commédia Dell'arte na Idade Média definiu-se
como um movimento teatral de forma popular e que se vê a confluência de diversos tipos
da cultura e gosto da época, desencadeando um teatro natural e cômico, a cultura
tradicional do Nordeste, em especial os espetáculos populares, traçam um paralelo de
identificação, onde a interpretação prevalece na criatividade de provocar uma
relação imediata dos atores com o público, correspondendo ao que está encenando. O
teatro popular tradicional do Nordeste está carregado de informações que podem
contribuir para uma sistematização das teorias e técnicas do fazer teatral brasileiro.
Estamos defendendo um tipo de interpretação em que o ator e o espetáculo,
por ser nordestino, necessariamente, não teria que retratar e reproduzir a seca, o
desemprego, o sotaque característico - mas dispostos a trabalhar códigos e signos para
traduzir o teatro popular nordestino e sua concepção estética.
Alguns pontos significativos que devem
ser observados na interpretação do ator nordestino: a interpretação e a capacidade de
improvisação explicitando suas raízes calcadas no popular e tradicional. Os processos e
métodos da construção cênica dessas manifestações espontâneas. Pastoril e
bumba-meu-boi no Ceará. A sistematização das teorias e técnicas teatrais nos grupos
que fazem uma releitura desse teatro espontâneo, mais representativos da região: O
teatro (concepção cênica, técnica, interpretação) de Antônio Nóbrega, em
Pernambuco; o Grupo Piollin, de Luis Carlos Vasconcelos, na Paraíba.
A região Sul do Ceará (Cariri) é povoada por personagens e estórias,
influências trazidas pelos descobridores para a criação de uma interpretação
característica da região Nordeste. A nossa contribuição para o teatro brasileiro é
buscar as relações com a história universal. Eugene Barba no desejo de pesquisar o
ator, foi buscar em Kerela, (província sul-indiana) a revelação do Kathakali. O que
Eugene Barba faz com o Odin Teatret é desenvolver um trabalho com disciplina e muito
rigor técnico-metodológico, baseado no Teatro Popular Tradicional.
Diante de tudo isso, o teatro popular é nossa fonte maior de inspiração.
É no teatro tradicional com seus paus de fitas, com suas cores, suas emboladas, cantorias
e seu gestual marcado e decisivo que Antônio Nóbrega foi criar a cara do Brasil que o
brasileiro não conhece ou teima em não conhecer.
No Ceará, como referência cultural popular, temos as representações
autênticas, em Pernambuco temos Antônio Nóbrega e Ariano Suassuna como referenciais da
dramaturgia nordestina; na Paraíba, temos o grupo Piollin, que investiga uma concepção
estética produzindo conhecimentos práticos e teóricos relativos ao trabalho do ator e
do encenador.
O ponto de partida é o Nordeste, por sua vastidão cultural, que vai do
erudito ao popular, e é no Nordeste que a cultura acende a brasa viva do gosto de ser
brasileiro.
Paulo Ess é ator, diretor e coordenador do curso superior de Artes Cênicas do
Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (Cefet-CE)
(© NoOlhar.com) |
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(arquivo NordesteWeb)
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