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Em filme, a história do doutor do baião

28/08/2002

Humberto Teixeira

 

Show será usado no documentário que a atriz Denise Dummont produz como tributo ao pai, Humberto Teixeira, o parceiro de Gonzagão

NEUSA BARBOSA
Especial para o Estado

   Quando se ouve o famoso baião Asa Branca, todo mundo lembra imediatamente de Luiz Gonzaga, o rei do baião. Pouca gente sabe que o popular compositor de Exu (PE) teve um parceiro, nesse e em muitos outros sucessos que estão na boca do povo há décadas pelo Brasil afora - caso de Assum Preto, Juazeiro e Qui nem Jiló. Esse parceiro se chamava Humberto Teixeira (1916-1979), era cearense de Iguatu e, além de letrista inspirado, também advogado e deputado federal. Conhecido como "doutor do baião", Teixeira notabilizou-se pela defesa dos direitos autorais dos músicos e pela divulgação internacional dos ritmos nacionais, através de uma lei de 1958 que levou o seu nome e fomentou a organização de caravanas anuais de música popular brasileira no exterior, entre os anos 50 e 60.

   Fazer justiça à memória do pai foi, desde sempre, um dos principais motivos a levar a atriz Denise Dummont a produzir um documentário sobre ele. O pontapé inicial do filme será dado hoje, com a tomada das primeiras cenas, filmadas num show no Teatro Rival, no Rio. Nesse show, Teixeira será homenageado com a entrega do troféu de um novo prêmio, patrocinado pela BR Distribuidora, que visa a resgatar a memória da música brasileira. A edição pioneira do prêmio lembrará justamente a obra de Humberto Teixeira, cujas composições serão apresentadas por artistas de diferentes gerações, como Sivuca - seu parceiro no baião Adeus, Maria Fulô (1951) -, Gilberto Gil, Lenine, Rita Ribeiro, Fagner, Elba Ramalho, Zeca Pagodinho e o grupo Cordel do Fogo Encantado. O público poderá acompanhar o show em um telão instalado bem ao lado do teatro, na Cinelândia. Além disso, será gravado ali ao vivo parte de um CD, a ser lançado pelo selo Biscoito Fino, que depois ganhará em estúdio algumas outras faixas com a adesão de artistas que não podem participar do show - caso de Chico Buarque e Gal Costa.

   Parceria com Jobim - O documentário sobre Teixeira ainda não tem nome definido. Neste momento, as opções são O Doutor do Baião e O Homem Que Engarrafava Nuvens. Será dirigido pelo cineasta pernambucano Lírio Ferreira, co-diretor de Baile Perfumado. Ele divide com a produtora Denise Dummont a autoria do roteiro. Para Denise, a escolha de Lírio decorre não só do fato de ele ser nordestino como seu pai, mas também de "ter uma ligação muito grande com música". A fotografia será assinada por Walter Carvalho.

   A idéia do documentário começou a ser amadurecida há cerca de um ano em Nova York, cidade em que a atriz mora há 17 anos, numa conversa com Ana Lontra Jobim, viúva de Tom Jobim. Denise ficou impressionada como Ana tem sido eficaz no cuidado da obra do marido. "Quando meu pai morreu, eu era muito nova e acho que nunca soube direito lidar com a riqueza dessa herança dele", explica. As duas trocaram idéias e o projeto de um filme sobre Teixeira tomou forma, com Ana Jobim associando-se também como co-produtora. São das duas, aliás, os recursos para iniciar a produção, que ainda não finalizou sua captação - os custos estão estimados em US$ 1 milhão.

   Boa parte desse montante deve ser consumida no pagamento de direitos para uso de inúmeras imagens de arquivo, já que as músicas de Teixeira circularam pelo mundo todo, de Paris ao Japão, como lembra Denise. A produtora pretende inserir no filme seqüências que considera imprescindíveis, como Carmen Miranda cantando suas canções em musicais da Fox, cenas de chanchadas da Atlântida, além de apresentações do próprio Gonzagão e outros intérpretes.

   No Brasil, estão previstas filmagens no Ceará (terra natal do compositor, onde existe até uma rodovia com seu nome), revelando sua biografia através de entrevistas conduzidas pelo também cearense Fagner.

   Omissão do baião - Denise pretende resgatar a figura do pai, com quem teve uma relação um pouco tensa na adolescência, por causa da opção pela carreira artística. Conservador, Teixeira proibiu a filha de usar o seu sobrenome quando ela decidiu atuar, estreando aos 18 anos no papel de Analu, na novela O Semideus (1973), de Janete Clair. "Ele dizia que ser atriz não era coisa de moça direita", diverte-se a filha. Por conta disso, ela adotou o nome artístico Dummont, uma criação coletiva de Glória Menezes - que fazia o papel de sua mãe na novela -, Walter Avancini e Daniel Filho.

   Posteriormente, Denise seguiu uma ativa carreira no cinema, a partir de Terror e Êxtase (1980), de Antônio Calmon, Rio Babilônia (1982), de Neville D'Almeida, Bar Esperança (1983), de Hugo Carvana, e se internacionalizou em pequenos papéis em O Beijo da Mulher-Aranha (1985), de Hector Babenco, e A Era do Rádio (1987), de Woody Allen.

   O documentário sobre o pai será sua primeira experiência como produtora.

   Denise pretende empenhar-se para recuperar todos os aspectos da figura de Teixeira, não apenas como compositor. Um dos assuntos que ela pretende enfatizar no filme será o papel do compositor e deputado para a manutenção das caravanas de músicos brasileiros no exterior, que ocorreu entre 1958 e 1964. Denise destaca que, embora a própria lei aprovada pelo pai obrigasse o governo federal a dar subsídios para essas caravanas anuais, Teixeira chegou a vender os próprios automóveis para ajudar nesse custeio. "A gente nunca teve mecenas suficientes neste País", lamenta.

   Outro equívoco que o filme pode ajudar a desfazer é o descaso que, a seu ver, a própria história da música popular brasileira dedica ao baião. O gênero popularizado por Teixeira, Gonzaga e tantos outros, como lembra Denise, teve seu período áureo entre 1945 e 1960. Quinze anos completamente esquecidos pelos críticos e estudiosos. "É como se a gente tivesse passado diretamente do samba-canção à bossa nova", desabafa. "Não sei se essa omissão do baião é esnobismo ou não. Tom Jobim, por exemplo, foi um dos que nunca negaram que seu trabalho foi inspirado pelo baião. Uma influência tão forte que chega, até hoje, ao trabalho de gente como o Otto. Mas essa história não é contada." Se depender dela, logo vai ser.

(© O Estado de S. Paulo)

Prêmio homenageia o compositor no Rio

Cerimônia de entrega do Rival BR de Música lembra clássicos como 'Asa Branca"

BEATRIZ COELHO SILVA

   RIO - Os produtores e músicos independentes fazem festa na entrega do Prêmio Rival BR de Música, que distribui R$ 24 mil e troféus para oito categorias. O compositor Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga, será homenageado em um show com direção musical de Wagner Tiso, e a participação de uma constelação de cantores. O show vira CD, a ser lançado pela gravadora Biscoito Fino, da banqueira Katy de Almeida Braga, que teve seis indicações.

   O Prêmio Rival BR, parceria da estatal com o teatro privado mais antigo do Rio, nasceu para ser anual e se escolherá também o homenageado no ano que vem, entre Jamelão, Haroldo Lobo e Newton Mendonça. A festa será apresentada pela atriz Leandra Leal (cuja família é dona do teatro Rival há 68 anos) e pelo ator Lázaro Ramos.

   Os indicados, por categoria, são os seguintes: Cantor/ Cantora: Zé Renato - Memorial - Wagner Tiso e Zé Renato (Biscoito Fino); Elza Soares - Do Cóccix até o Pescoço (Maianga); Zezé Gonzaga - Sou apenas uma Senhora que Canta (Biscoito Fino) CD: Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião - Francis Hime (Biscoito Fino); Áfrico- Sérgio Santos (Kuarup); O Samba É Minha Nobreza - vários (Biscoito Fino) Grupo: Cordel do Fogo Encantado - Rec Beat; Itiberê Orquestra Família - Pedra de Espia (Caravelas); Nó em Pingo D'Água - Domingo na Geral (Lumiar) Compositor: Guinga - Cinema Baronesa (Caravelas); Nei Lopes - De Letras & Música (Caravelas); Francis Hime - Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião - Meus Caros Pianistas (Biscoito Fino) Instrumentista: Paulo Sergio Santos Trio - Gargalhada (Kuarup); Maogani - Cordas Cruzadas (Rob Digital); Hamilton de Hollanda (Caravelas) Produtor: Hermínio Bello de Carvalho - O Samba É Minha Nobreza; Paulinho Albuquerque - Meninos do Rio (Caravelas) e Coisa de Chefe, de Claudio Jorge (Caravelas); Olívia Hime - Meus Caros Pianistas - A Música de Francis Hime (Kuarup/Biscoito Fino); O Piano de Claudio Santoro - Gilda Oswaldo Cruz (Kuarup/Biscoito Fino) ; Sinfonia do Rio de Janeiro de São Sebastião - (Kuarup/ Biscoito Fino).

   Resistência: Jongo da Serrinha (independente); Riachão - Humaneochum (Caravelas); Marcelo Vianna - Teu Nome, Pixinguinha (Kuarup) Atitude: Escola de Música Zeca Pagodinho, Gravadora Biscoito Fino, Gravadora Kuarup. (© O Estado de S. Paulo)

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